“A gente aqui é esquecido”. A frase poderia ser associada à situação de qualquer pessoa que vive em uma cidade pequena em uma região carente do interior paulista. Mas não é esse o caso. A constatação é feita por duas moradoras de Santos e que relatam ao menos 50 anos de moradia em condição precária em uma das ruas da Área Continental do município.
Separada da área insular apenas pelo Rio Pedreira, a área continental de Santos fica a menos de 1km de distância direta da região do Valongo. Apesar da pouca longitude física, a distância de realidade entre ambas as regiões não poderia ser mais contrastante.
Hoje em condições de infraestrutura ligeiramente melhores do que a verificada há cinco anos, a área do Monte Cabrão ainda conta com problemas de estrutura em algumas das vias mais afastadas da Rua Principal.
E é em um desses pequenos caminhos que se encontram duas donas de casa que em 57 anos de vida na Rua Sr. Osvaldo da Silva Leite não viram muitas mudanças que não tenham sido feitas pelos próprios moradores do Monte Cabrão.
“Eu nasci aqui há 57 anos no quintal da minha casa e desde lá eu te garanto, nada aqui nunca mudou, é a mesma coisa desde então”, afirma a dona de casa Ivone da Silva Leite, de 57 anos de idade.
Sem asfalto, sem limpeza das calçadas e nem ao menos iluminação pública, as moradoras afirmam que as contas continuam chegando e sendo pagas dentro das datas de vencimento, mas mesmo assim, nada é feito para dar qualquer tipo de apoio estrutural aos moradores.
Segundo a também dona de casa Lucilene dos Santos, a Rua Principal e outras vias de Monte Cabrão foram asfaltadas em 2014, mas todas as obras foram finalizadas antes de chegar à via onde ela mora com a família.
“Nunca nos explicaram o porquê de não terem finalizado as obras. A gente tenta buscar ajuda, mas não adianta, parece que quanto mais nós tentamos pedir ajuda, pior fica”, explica Ivone.
A situação acaba se estendendo até para a limpeza dos matagais que se formam na região. De acordo com Lucilene, a prefeitura envia funcionários para realizar a limpeza da região de forma periódica, mas a mesma situação do asfaltamento se repete: os serviços param e são finalizados antes de chegar à Rua Sr. Osvaldo da Silva Leite.
“Nós precisamos ir atrás dos funcionários enquanto eles trabalham na Rua Principal e pedir para que eles venham aqui limpar nossa rua. Se não for assim, eles também não aparecem aqui”, afirma.
Sem qualquer tipo de iluminação pública, a única lâmpada instalada na rua, e que é responsável por impedir que a via se torne um breu durante a noite, também foi instalada por um morador.
“Todo pedaço de chão aqui mais conservado foi feito por algum vizinho nosso. Nada que tem aqui e que está mais ajeitado foi feito pela prefeitura ou algum outro órgão. Eles não falam nada. O poste ali é da casa de um rapaz que coloca luz pra gente, tudo aqui foi feito pelos moradores, mas se chove, isso tudo vira um lamaçal”.
Algumas das casas também sofrem com a alta da maré e precisaram ter suas fundações aumentadas em obras feitas pelos próprios moradores. Alguns vizinhos de Lucilene e Ivone tentaram erguer um muro mais próximo da água para impedir que as casas alaguem e gere prejuízos, mas elas afirmam que a Marinha impediu as obras.
Em contato por telefone, entretanto, a Marinha do Brasil afirmou que não possui nenhum terreno no local e não foi responsável por interferir em nenhum tipo de obra que possa ter sido realizada na via.
Já a Prefeitura de Santos afirma que está em contato com a concessionária responsável pela iluminação pública para finalizar estudo sobre a implantação de iluminação na Rua Sr. Osvaldo da Silva Leite. Quanto ao serviço de pavimentação asfáltica, a Seserp solicitou à Secretaria de Infraestrutura e Edificações (Siedi) uma análise de viabilidade para a obra.
Até que a situação seja resolvida, entretanto, os moradores da pequena rua de Monte Cabrão continuarão a contar com a ajuda dos vizinhos enquanto aguardam as autoridades agir.
