Mistério na areia: quem vive nos buracos espalhados pelas praias?

Eles cavam tocas, reciclam nutrientes e são fantasmas da areia. Conheça um guardião invisível das praias que sofre com o lixo e a urbanização.

Além do hábito de escavação, o comportamento alimentar diversificado da espécie contribui para a ciclagem de nutrientes

Além do hábito de escavação, o comportamento alimentar diversificado da espécie contribui para a ciclagem de nutrientes | Pexels

Você já reparou nos buracos espalhados pelas praias mais preservadas do Brasil e se perguntou a quem pertencem? Essas cavidades são as tocas do Garoçá (Ocypode quadrata), também conhecido como Caranguejo-fantasma. Em geral, o animal deixa diversos rastros ao redor do refúgio, evidenciando as várias entradas e saídas feitas ao longo do dia.

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Conhecido também como “Maria Farinha”, o caranguejo apresenta coloração branca e amarelada, que se confunde facilmente com a areia da praia, especialmente em dias ensolarados, o que garante excelente camuflagem. Ágil, ele permanece sempre atento a possíveis ameaças e, ao menor sinal de perigo, corre rapidamente para se esconder em sua toca.

A doutora Jéssica Colavite, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), explica que a espécie é encontrada em praias arenosas ao longo do litoral, tanto nas áreas mais afastadas do mar quanto próximas à água. Nesses trechos, as tocas costumam ser inundadas durante as marés altas.

Segundo a especialista, os Garoçás constroem suas tocas ao longo de toda a extensão da faixa de areia, utilizando-as como abrigo e proteção. A largura das cavidades varia conforme o tamanho do indivíduo. Além do hábito de escavação, o comportamento alimentar diversificado da espécie contribui para a ciclagem de nutrientes do solo, desempenhando um papel ecológico importante para os ecossistemas praiais.

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Descubra algumas curiosidades sobre o garoçá

Jéssica Colavite afirma ainda que a espécie vive, em média, de dois a três anos e está distribuída por praticamente todo o continente americano.

“Os Caranguejos-fantasma são encontrados em diversas regiões do planeta, mas a espécie presente no litoral paulista possui ampla distribuição, ocorrendo desde os Estados Unidos, no estado de Massachusetts, até o Rio Grande do Sul. Vivem em torno de dois a três anos e, assim como outros crustáceos, realizam mudas durante o crescimento. A alimentação é bastante variada, sendo considerados oportunistas. Apesar de se alimentarem principalmente de insetos e crustáceos menores, podem consumir animais maiores, como filhotes de tartaruga, além de organismos em decomposição”, explicou.

Preservação

Sensíveis a diversos fatores naturais e antrópicos, os Garoçás são considerados importantes bioindicadores da qualidade ambiental das praias, sendo mais abundantes em áreas menos urbanizadas. A ausência da espécie em praias frequentadas com frequência pode indicar tanto sua eficiente camuflagem quanto problemas ambientais no local.

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A pesquisadora do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), doutora Fernanda R. Fernandes de Oliveira, destaca que a urbanização causa impactos negativos não apenas sobre os Caranguejos-fantasma, mas também sobre outros organismos que vivem na faixa de areia.

“A construção de estruturas artificiais para facilitar o acesso das pessoas, a remoção da vegetação nativa, a retirada de areia e até mesmo a limpeza mecanizada com tratores alteram as características do sedimento, afetando diretamente a macrofauna desse ecossistema”, observou.

De acordo com as pesquisadoras, esse ambiente modificado pela ação humana também favorece a presença de animais urbanos, como Corujas-buraqueiras, gaviões, pombos e cães, que podem competir por alimento ou atuar como predadores da fauna costeira. Outro fator preocupante é o lixo deixado nas praias, problema amplamente documentado em estudos científicos e que impacta diretamente os Garoçás.

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“Resíduos urbanos abandonados na praia, como plásticos, podem ser levados pelos caranguejos para dentro de suas tocas e, devido ao hábito alimentar variado, acabam sendo consumidos”, finalizou a doutora Fernanda.

E você, já encontrou um Caranguejo-fantasma durante uma caminhada pela praia?