Microplásticos nas praias da região preocupam estudiosos

88% da Praia dos Pescadores, em Itanhaém, está contaminada com plásticos menores que cinco milímetros

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28 JAN 2017Por Vanessa Pimentel11h02
O coordenador da pesquisa, João Malavolta, alerta que o surgimento dos pellets na areia tem aumentado e a causa pode ser a perda durante o transporte via naviosFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Um estudo realizado na Praia dos Pescadores, em Itanhaém, pela Organização Não Governamental Brasileira Ecosurf juntamente com a Escola Técnica Estadual (Etec) mostrou que 88% da área total da praia está contaminada, principalmente, com plásticos menores ou até cinco milímetros. O coordenador da pesquisa, jornalista e técnico em Meio Ambiente, João Malavolta, alerta que o problema não se restringe à cidade. “Em qualquer praia da região, se você pegar um punhado de areia, vai notar a presença de microplástico, em especial o pellets”, afirma.  

Pellets é a matéria-prima plástica, ou seja, não é um plástico resultado da decomposição. É ele que dá origem a produtos feitos de plástico, como bolsas, garrafas PET e espiral de caderno. Comercializado em grânulos com cerca de 5 mm de diâmetro, uma das hipóteses do surgimento desse material nas praias da região é a perda proveniente do transporte realizado por navios no Porto de Santos.

João conta que uma aluna do curso de Oceanografia, em seu mestrado, mapeou o caminho dos pellets, desde a suposta origem até a chegada nas praias. Uma das hipóteses é que ele esteja vindo do Parque Petroquímico de Cubatão, já que uma das maiores empresas fabricantes deste tipo de plástico se localiza lá.

“Essa resina é exportada em contêineres nos navios. O que dá para apontar é que no processo de logística há perda. Uma empresa que faz sacolas plásticas tem o chão forrado disso. É um material fácil de cair e se perder, mas é uma perda irrisória falando em lucro. Quando ocorre a varrição, ou o vento que é uma causa natural, por exemplo, ele acaba caindo na rede de esgoto e, fatalmente, chega ao mar”, explica, lembrando que para o meio ambiente, a perda não é tão irrisória assim.

Ele diz que as pessoas não se preocupam com o fato porque o pellets é quase invisível, ao contrário de uma garrafa PET. “Aquilo te incomoda o olhar, não combina com o ambiente, agora isso aqui está invisível”, enquanto segura um pellets, que embora pequeno, encontra-se em grande quantidade pela areia e é visível a olho nu.

Além da poluição, outro motivo que inquieta o pesquisador é a capacidade do plástico de adsorver as toxinas contidas no oceano, ou seja, reter substâncias químicas em sua superfície, ao contrário de uma esponja que absorve e elimina facilmente.

“A base da nossa alimentação é proteína que vem do mar. Uma partícula de microplástico tem a capacidade de adsorver mais de um milhão de toxinas. Daí você imagina a quantidade de remédios que as pessoas tomam e são expelidos através da urina. Toda essa química vai para o mar. Os plásticos se misturam a isso e por não afundarem, são ingeridos pelos peixes. Nós os comemos e o plástico contaminado vem para nós”, detalha.  
João cita que já há registro de alguns casos de mutação entre as espécies marítimas, pois, ao ingerir elementos químicos, os animais metabolizam essas substâncias em seus organismos. O fato angustia ainda mais os estudiosos do ramo porque ainda não há solução para a poluição dos oceanos.

Pasta de dente

É difícil encontrar alguém que nunca tenha escovado os dentes com pastas que contenham pequenos flocos coloridos, certo? Aparentemente inocentes, esses flocos entram na categoria dos microplásticos e acabam chegando também aos oceanos.

“São as pastas mais caras que carregam este tipo de plástico, que as indústrias dizem ser esfoliantes. Mas, já existem projetos de lei caminhando em Brasília para banir o uso desse tipo de elemento”, explica João.

Em um pedaço de papel alumínio, o pesquisador mostra incontáveis flocos azuis retirados de uma pequena porção de pasta de dente. “Imagina isso aqui em proporção mundial?”, questiona.

Estudo

A pesquisa durou seis meses, de janeiro a junho do ano passado, identificou e quantificou plásticos menores de 5 mm presentes na areia. A Praia dos Pescadores tem 22 mil metros quadrados e foram analisados 24% deste total.

A Reportagem teve acesso ao laboratório para ver as amostras. Foi possível notar restos de baldes, garrafas, embalagens, uma infinidade de origens. A área pós-praia, aquela depois da deixa da maré, é a que abriga maior quantidade de microplástico.

A estimativa mundial é que 8 a 12 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos e ainda não há uma solução para o problema. João explica que algumas barreiras artificiais são colocadas para vetar a passagem dos resíduos, porém, ele só capta os macros.

Como solução, João apela para a responsabilidade das grandes empresas geradoras de plástico e frisa que é preciso haver mais investimentos em pesquisas que podem trazer alternativas. “Um dia desses acharam uma embalagem das Olimpíadas do Canadá, que aconteceu em 1976, ou seja, plástico de 40 anos atrás. É um grave problema e mesmo assim é pouco divulgado”, alerta.

Expedição

O próximo passo da pesquisa é uma expedição a bordo de um veleiro que sairá ainda este ano de Bertioga e seguirá até Peruíbe. A viagem levará profissionais envolvidos na causa ambiental. O intuito é estudar o caminho percorrido pelos plásticos, identificar, de fato, a origem desses resíduos e então cobrar providências e dialogar soluções junto aos geradores.