Cotidiano

Mestre de capoeira da Baixada Santista lança obra sobre ancestralidade e fé

Conheça a obra de Nego Panda que utiliza a poesia como ferramenta de cura e resgate da identidade ancestral

Nathalia Alves

Publicado em 21/02/2026 às 11:00

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novo livro do escritor e mestre de capoeira Elton Alexandre, conhecido como Nego Panda / Divulgação

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A literatura da Baixada Santista ganha novo fôlego com o lançamento de “Águas Ancestrais”, novo livro do escritor e mestre de capoeira Elton Alexandre, conhecido como Nego Panda.

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A obra apresentada ao público na última quinta-feira (12), no palco da Vila do Teatro, na Praça dos Andradas, no Centro de Santos, em um encontro que promete unir literatura, performance, ancestralidade e resistência cultural.

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Mais do que um lançamento, o evento marca um reencontro simbólico. “Águas Ancestrais” é descrito pelo autor como um mergulho na própria identidade, um retorno às raízes negras e uma travessia espiritual e artística. A obra nasce da experiência vivida em Salvador e no Recôncavo Baiano, territórios que ele define como a “pequena África brasileira”.

“A palavra que resume essa experiência é conexão”, afirma Nego Panda. “Trouxe grandes reflexões sobre como me identificar nesse fazer e compartilhar artístico e poético, entender que a nossa ancestralidade está mais perto do que a gente imagina.”

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Durante a temporada na Bahia, o autor mergulhou no universo da capoeira, dialogando com mestres como Cafuné e Itapoan, discípulos de Mestre Bimba. Também participou de rodas no Forte da Capoeira ao lado de mestre Zoinho e mestre Boca Rica, vivências que atravessam o livro com força simbólica.

“Cada roda de capoeira carrega uma intensa energia ancestral. O berimbau é um instrumento que fala com os mortos e o Forte é um lugar com muitas histórias e muitas vivências”, relata. “Pisar nesse lugar foi uma forma de me ligar com os mais velhos, os que vieram antes de nós. O forte carrega várias histórias e grande energia.”

Ao falar da capoeira como expressão espiritual, o autor cita ensinamentos tradicionais. “Tem uma frase do mestre Vicente Ferreira Pastinha que eu gosto muito e que também é repetida pelo mestre Sombra: ‘Jogar capoeira é pôr o corpo em oração’. Por mais que muitas pessoas possam discordar, jogar capoeira é vivenciar, é se conectar com o sagrado que deve ser respeitado e reverenciado, sempre.”

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A viagem também foi marcada por reflexões sobre racismo religioso e memória histórica. A lembrança de Mãe Gilda e a visita ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) aparecem como momentos decisivos na construção do livro. Diante da imagem de Anastácia Livre, o autor encontrou um símbolo de ressignificação da dor.

“Tem um itan que considera a língua como o melhor alimento e, em outro momento, como o pior prato”, explica. “Eu escolhi a língua como o melhor alimento, pois ela pode nos oferecer coisas boas ou negativas dependendo da forma que é usada. Exu nos ensina sobre o poder da palavra.”

Para Nego Panda, a escrita é ferramenta de transformação. “Nossa história tem dor, tem sofrimento, mas não podemos ficar reduzidos a isso. Somos amor, afeto; a história viva dos nossos ancestrais. As pessoas têm se conectado com isso porque veem a verdade presente na poesia.”

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Oralidade que vira livro

Nascido na São Paulo e morador de Praia Grande, Nego Panda é mestre de capoeira, psicopedagogo, poeta, griô, slammer e contador de histórias. Integrante de coletivos literários da região, ele também idealizou projetos como o Sarau das Ostras, o Slam Caiçara e a editora Periferia tem Palavra, voltada à publicação de autores negros, periféricos e LGBTQIAPN+.

Reconhecido como griô, guardião da memória oral, ele vê a escrita como continuidade da tradição oral. “Nós somos o começo, o meio e o começo, como nos ensinou Nego Bispo. Manter viva a oralidade com a escrita é falar com o tambor do coração, é entender essa circularidade que rege a nossa vida. Cada nova escrita é um novo grito, um chamado de atenção.”

Para ele, “Águas Ancestrais” não é obra solitária. “Assim como na ciranda de Lia do Itamaracá, ‘minha ciranda não é minha só, ela é de todos nós’, minha escrita é o reflexo de toda a vivência que tenho e que traço em trocas ao longo dessas águas que transbordam com quem veio antes e depois de mim. Eu não ando só e não escrevo só.”

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Literatura como ato político

O livro foi viabilizado com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Para o autor, esses mecanismos são importantes, mas não suficientes.

“Os editais são uma ferramenta importante para diferentes produções literárias, sobretudo para as editoras pequenas e autores independentes, mas não são o fim do processo”, avalia. “São necessárias outras formas de políticas públicas que fortaleçam escritores e escritoras e todos os fazedores de cultura. É preciso enxergar a literatura negra periférica para além das culturas de massa.”

Ele define a editora Periferia tem Palavra como instrumento de resistência. “É uma editora de resistência, um instrumento da resiliência de vários autores invisibilizados por um sistema literário elitista, que enxerga a nossa literatura como uma literatura menor. Somos corpos políticos e a escrita é uma forma de mostrarmos que ainda estamos vivos.”

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O evento de lançamento deve refletir essa multiplicidade artística. “Muita poesia e performance embalada pelas águas e encruzilhadas da ancestralidade”, promete.

Ao jovem da periferia que escreve em silêncio, Nego Panda deixa um conselho direto e honesto. “Acredite no seu sonho, na sua história. Também é preciso um pouco de sorte. Não posso iludir dizendo que é um rio de maravilhas, mas é um caminho possível. Acima de tudo, que a poesia seja mecanismo de liberdade, identidade, empoderamento e autoestima. Seja verdadeiro e seja a poesia. ‘S’imbora’ poetizar a vida.”

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