Mercado Livre avança sobre o varejo físico e fecha acordo histórico com o Assaí para entregas

Mercado Livre e Assaí Atacadista unem forças em parceria inédita que leva o atacarejo para as vendas online com entrega rápida e cashback pelo Mercado Pago em todo o Brasil

Assaí aposta no mercado digital para impulsionar vendas sem abrir novas lojas Rede utiliza ecossistema do Mercado Livre para manter preços competitivos online

Assaí aposta no mercado digital para impulsionar vendas sem abrir novas lojas Rede utiliza ecossistema do Mercado Livre para manter preços competitivos online | Reprodução/Imagem feita por IA

O Assaí Atacadista e o Mercado Livre anunciaram nesta quarta-feira (11) um acordo que promete sacudir o varejo brasileiro. A parceria marca a estreia da rede de atacarejo nas vendas online diretas em escala nacional, rompendo uma barreira logística histórica que até então limitava sua atuação digital a aplicativos de entrega de última milha, como iFood e Rappi.

Inicialmente, serão cerca de 400 produtos disponíveis, das categorias de mercearia, higiene, limpeza e perfumaria, todos não perecíveis. Itens frescos, como carnes, hortifrúti e frios, continuam restritos às lojas físicas e às parcerias locais de entrega rápida, devido à complexidade de armazenamento e transporte.

Pelo acordo, o Assaí se torna cliente do serviço de fulfillment e logística do Mercado Livre, o chamado “full commerce”. Isso significa que os produtos serão armazenados e expedidos a partir de três centros de distribuição do Mercado Livre no estado de São Paulo, com promessa de alcance nacional até o fim de 2026.

Sinergia entre gigantes

Para o Mercado Livre, a parceria representa mais um passo na estratégia de incorporar grandes varejistas à sua plataforma, ampliando o sortimento da categoria supermercados, uma das mais disputadas do e-commerce. Em 2025, a empresa já havia fechado acordo semelhante com a Casas Bahia, mirando o setor de eletroeletrônicos.

Para o Assaí, o movimento é uma resposta a um cenário de desalavancagem financeira e desaceleração na abertura de lojas. A rede, que hoje opera mais de 300 unidades em formato híbrido de atacado e varejo, reduziu o ritmo de expansão física nos últimos anos para conter a dívida líquida. Agora, aposta no digital como alavanca de crescimento com menor necessidade de capital.

“Realizamos muitos cálculos e projeções. Estamos confiantes de que conseguiremos manter nosso nível atual de competitividade mesmo com a taxa que pagaremos ao Mercado Livre”, afirmou Belmiro Gomes, presidente do Assaí, durante coletiva de imprensa. Os valores do contrato, bem como o modelo de compartilhamento de dados, não foram revelados.

Benefícios cruzados e cashback

Segundo Fernando Yunes, head de commerce do Mercado Livre para a América Latina, a parceria prevê ainda benefícios recíprocos. As lojas do Assaí poderão comprar suprimentos diretamente da plataforma, enquanto clientes do programa de fidelidade MELI+que adquirirem produtos Assaí terão cashback por meio do Mercado Pago, a fintech do grupo.

O anúncio ocorre no mesmo dia em que o Assaí divulgou seu balanço do quarto trimestre de 2025, com o lucro líquido ajustado de R$ 347 milhões, queda de 26,8% em relação ao mesmo período de 2024.

O domínio silencioso do Mercado Livre

Mais do que uma parceria pontual, o acordo com o Assaí escancara uma realidade cada vez mais consolidada: o Mercado Livre não é apenas uma plataforma de vendas, mas o próprio sistema circulatório do e-commerce brasileiro.

A empresa deve movimentar R$ 183 bilhões em vendas no Brasil em 2025, o equivalente a 45% de todo o comércio eletrônico nacional, estimado em R$ 414 bilhões. Há cinco anos, essa fatia era de 25%. Em meia década, o Mercado Livre dobrou sua participação em um dos mercados mais competitivos do mundo.

Esse avanço não é fruto do acaso, mas de um ecossistema integrado que combina:

  • Logística própria: 23 centros de distribuição no país e capacidade de entrega em 24 horas para mais de 2 mil cidades;
  • Fintech embutida: o Mercado Pago soma mais de 50 milhões de usuários ativos, oferecendo crédito, carteira digital e investimentos;
  • Inteligência de dados: cada compra alimenta um ciclo virtuoso de recomendação, crédito e fidelização.

Enquanto concorrentes como Amazon patinam para ganhar escala no Brasil e Shopee recua com o fim de subsídios fiscais, o Mercado Livre cresce com rentabilidade, algo raro no varejo digital global. Apenas Amazon e Alibaba, em contextos distintos, alcançaram feito semelhante.

Se o primeiro tempo do e-commerce brasileiro teve um placar acirrado, o segundo começa com vantagem avassaladora do Mercado Livre. E, ao que tudo indica, o craque do jogo não está nem perto de ser substituído.