O consumo de cannabis esteve associado a volumes maiores em diversas regiões do cérebro / Freepik/atlascompany
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Pesquisas sobre os efeitos da cannabis no cérebro costumam se concentrar em adolescentes e adultos jovens, mas um novo estudo conduzido por pesquisadores da University of Colorado Anschutz amplia esse olhar ao analisar adultos de meia-idade e idosos em escala populacional.
A pesquisa utilizou dados do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo, e foi publicada em periódico científico da área de neurociência, com foco em envelhecimento e saúde cerebral.
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A equipe investigou a relação entre o uso de cannabis ao longo da vida e indicadores de estrutura cerebral e desempenho cognitivo em 26.362 participantes com idades entre 40 e 77 anos, com média de 55 anos.
De forma geral, o consumo de cannabis esteve associado a volumes maiores em diversas regiões do cérebro e a melhor desempenho em testes cognitivos, especialmente entre usuários classificados como moderados.
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Segundo a psicóloga clínica e pesquisadora Anika Guha, do Departamento de Psiquiatria da CU Anschutz, o tema ganhou relevância porque o uso de cannabis entre pessoas mais velhas vem aumentando, impulsionado pela maior disponibilidade da substância e pela busca por alívio de dores crônicas e distúrbios do sono.
Ao mesmo tempo, o aumento da expectativa de vida torna essencial compreender quais podem ser os efeitos acumulados do uso ao longo do envelhecimento.
Os pesquisadores concentraram a análise em regiões cerebrais com maior densidade do receptor canabinoide CB1, um dos principais alvos da cannabis no sistema nervoso central. Também foram avaliados domínios cognitivos diretamente ligados ao envelhecimento, como aprendizado e memória, velocidade de processamento, atenção e funções executivas.
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Na maioria dessas áreas, foi observada uma associação positiva entre o uso de cannabis e maior volume cerebral, além de melhor desempenho cognitivo.
Em termos clínicos, volumes cerebrais maiores podem indicar preservação estrutural, já que o envelhecimento costuma vir acompanhado de atrofia cerebral e declínio cognitivo, fatores associados ao aumento do risco de demência.
Entre as regiões analisadas, o hipocampo teve destaque. A área, fundamental para a memória e frequentemente afetada em processos neurodegenerativos, apresentou relação positiva entre volume e desempenho cognitivo entre usuários de cannabis.
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Ao classificar os participantes em não usuários, usuários moderados e usuários frequentes, os pesquisadores observaram que, na maior parte das medidas avaliadas, o uso moderado esteve associado aos melhores resultados.
Ainda assim, em indicadores específicos, como o volume da amígdala direita e testes de aprendizagem visual, usuários mais frequentes apresentaram desempenho superior.
Esses resultados sugerem efeitos dependentes da dose, embora o próprio estudo ressalte limitações importantes. O banco de dados não permite identificar o tipo de produto consumido, a concentração de THC ou CBD, nem a forma de uso, fatores que podem alterar significativamente os impactos da substância no cérebro.
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Apesar da predominância de associações positivas, os pesquisadores identificaram uma exceção relevante. O uso mais intenso de cannabis esteve associado a menor volume no córtex cingulado posterior, região ligada à memória, aprendizagem e processamento emocional.
Curiosamente, estudos anteriores indicam que volumes menores nessa área podem, em determinados contextos, estar relacionados a melhor memória de trabalho, o que torna a interpretação mais complexa.
Para os autores, esse achado reforça que os efeitos da cannabis no cérebro não são lineares e envolvem múltiplos mecanismos, variando conforme a região cerebral analisada.
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O sexo também foi considerado um fator relevante. Homens e mulheres tendem a apresentar padrões distintos de uso de cannabis e diferenças no funcionamento do sistema endocanabinoide, incluindo densidade de receptores e interações hormonais.
Embora não tenha surgido um padrão único que favoreça um dos sexos, foram observadas interações significativas em diversas regiões cerebrais e medidas cognitivas, indicando que essa variável precisa ser considerada em pesquisas futuras.
O uso do UK Biobank permitiu analisar uma amostra ampla de adultos mais velhos, com dados detalhados de neuroimagem e avaliação cognitiva, algo difícil de obter em estudos clínicos tradicionais.
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No banco, os participantes informaram a frequência de uso de cannabis ao longo da vida por meio de faixas de consumo, o que possibilitou identificar tendências gerais, ainda que de forma aproximada.
Para Guha, a principal conclusão do estudo é que a relação entre cannabis e saúde cerebral é complexa e não pode ser resumida como totalmente benéfica ou prejudicial.
Os efeitos parecem depender de fatores como dose, tipo de produto, motivo do uso e fase da vida em que ocorre o consumo.
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Além disso, muitos dos participantes usaram cannabis décadas atrás, quando os produtos tinham composição e potência diferentes das disponíveis atualmente, o que limita comparações diretas com o cenário contemporâneo.
A equipe já trabalha em novos estudos sobre conectividade cerebral nesses mesmos participantes, analisando o funcionamento das redes neurais, e também investiga a relação entre saúde cerebral e o uso de substâncias como a psilocibina.
Para os pesquisadores, compreender esses efeitos é fundamental para orientar decisões clínicas, políticas públicas e o debate sobre o uso dessas substâncias em uma população que envelhece cada vez mais.