O olhar está distante e o semblante é triste. O silêncio é quebrado por poucas palavras que respondem as perguntas da Reportagem. Sem conseguir levantar da cama, que fica no quarto da pequena casa de dois cômodos, a aposentada Marcia Cândida Ferreira, de 55 anos, há um mês espera voltar a fazer atividades simples como ir ao banheiro e cozinhar. Pesando 160 quilos e com doenças decorrentes da obesidade mórbida, a moradora do Parque das Bandeiras, em São Vicente, conta com a ajuda do irmão, que é cadeirante, e já não sabe mais o que fazer – e a quem recorrer – para tirá-la desta situação.
“A Marcia sofre de obesidade mórbida há muitos anos, desde criança, por causa de disfunção na tireoide, mas nunca esteve tão grave como agora. Piorou muito depois que o filho dela e a nossa mãe faleceram”, explicou o autônomo Julio Cesar Ferreira. Junto com o filho, de 24 anos, e a esposa, ele se desdobra para auxiliar a irmã, que mora sozinha.
O autônomo disse que há um mês Marcia não consegue levantar da cama. Desde então, ele, o filho e a esposa passaram a cuidar da irmã. Uma vez ao dia, eles vão até a casa da aposentada para trocar as roupas de cama, fazer a higienização do seu corpo – que é dificultada devido ao peso – e lhe dar comida. “Não tenho como levar ela para a minha casa. Moro em um apartamento pequeno, que não tem condições de acessibilidade para ela. Eu trabalho, meu filho também, e quando precisa de alguma emergência ela nos liga”, afirmou.
Devido ao agravamento do seu quadro de saúde, Marcia precisou ser levada seis vezes para o Hospital Municipal de São Vicente, o antigo Crei. Falta de ar e aumento da pressão arterial estão entre os problemas. “É uma grande operação toda vez que isso acontece. Precisa vir o Corpo de Bombeiros e sete pessoas para carregá-la por causa do peso. Quando ela chega no hospital, eles medicam, mas liberam dizendo que ela está bem. Mas a gente sabe que não está. A assistente social de lá chegou a dizer para mim que ali não era hotel”, afirmou Julio.
Segundo o autônomo, a irmã faz uso de remédios controlados para doenças decorrentes da obesidade como hipertensão e diabetes. Além disso, a aposentada tem crises de ansiedade. “Ela está em um quadro depressivo. O pessoal do Melhor em Casa (programa de atendimento médico domiciliar do município) acompanha ela, mas por causa da greve e da falta de pagamento eles não têm vindo mais. A gente fica sem saber o que fazer, porque a minha irmã precisa de tratamento adequado”, destacou.
Julio também ressaltou as dificuldades em conseguir transporte da Prefeitura para a ida em consultas, já que Marcia não tem condições de locomoção. “São apenas duas vans para pacientes de todos os tipos. E uma está quebrada. Toda vez que a gente vai agendar é uma desculpa”.
Situação
A Reportagem esteve na casa de Marcia. A cama onde ela passa as 24 horas do dia foi reforçada improvisadamente com alguns pedaços de madeira. O colchão é encapado com um tecido impermeável. Não existe fralda para o tamanho da aposentada, e eles utilizam um forro descartável, doado por pessoas de uma igreja do bairro, entre o lençol e o seu corpo. Para não dar trabalho aos familiares, que auxiliam na sua higiene, a mulher tem recusado alimentação.
“Ela não tem comido nada com medo de fazer coco e xixi e dar trabalho para a gente. Eu tento forçar, mas ela não come. A gente percebe que ela também está em um estado depressivo. O que a gente quer é um local para a Marcia receber atendimento para poder voltar a andar. Que tenha acesso à fisioterapia, psicólogo. A Prefeitura não fala nada. Parou na assistência social, não deram mais retorno. A gente fica sensibilizado em ver um irmão nosso nessa situação. Quero o que é de direito”, afirmou Julio.
Antes que a conversa terminasse, Marcia quebrou o silêncio e, com lágrimas nos olhos, disse à Reportagem: “Quero me recuperar. Não aguento mais. Quero sair dessa cama. Não aguento mais”.
Doações
A aposentada recebe um salário mínimo por mês. Desse dinheiro paga R$ 450 de aluguel e R$ 150 entre despesas de água, luz e telefone. Com o que sobra, Julio compra os mantimentos. Ele disse que doações de tecidos descartáveis – produto semelhante à fralda – são bem-vindas. “A gente não aceita dinheiro, mas se quiser fazer doação material ou se algum profissional se sensibilizar com o caso dela e puder ajudar a gente agradece”, afirmou. O contato é o (13) 99158-6931.
Prefeitura diz que atende, mas não dá solução para o caso
O Diário do Litoral questionou a Prefeitura de São Vicente sobre o atendimento oferecido à munícipe. A Administração Municipal informou, por meio da Secretaria da Saúde que, de acordo com relatório do Programa Melhor em Casa, a paciente foi admitida no programa no dia 3 de fevereiro deste ano, sendo a mesma portadora de obesidade mórbida, diabetes mellitus, hipertensão essencial, domiciliada e deambula com auxílio de andador.
A Prefeitura ressaltou que Marcia reside sozinha, sem presença de cuidador cujo qual se apresentou no momento da captação Julio Cesar Ferreira (irmão) e que as visitas são realizadas uma vez ao mês. De acordo com a Administração Municipal, no mês de junho foram realizadas seis visitas, mas apenas duas com êxito, uma vez que em quatro visitas não atenderam a porta. O órgão destacou que o irmão (cuidador) mora distante e é cadeirante, com dificuldades de locomoção.
Apesar de saber das dificuldades do irmão de Marcia – distância e locomoção – a Prefeitura disse que o programa preconiza a presença de um cuidador responsável e por diversas vezes o irmão foi orientado sobre isso. Ainda de acordo com a Administração Municipal, em 2015, Marcia foi encaminhada para o endocrinologista e a mesma faltou na consulta e que foi encaminhada novamente, no último dia 14 de junho, para consulta com endocrinologista e nutrição.
A Prefeitura disse ainda que a Linha de Cuidados para Obesidade é estadual, e necessita de relatório do endocrinologista e através do TFD (Tratamento fora do Domicílio) é agendada consulta de triagem no Hospital Heliópolis em SP, e que a possibilidade de internação da paciente decorrente das morbidades relacionadas à obesidade depende da avaliação/critério médico plantonista.
A Secretaria Estadual de Saúde informou que é de responsabilidade da Prefeitura o atendimento de atenção básica, que fará a avaliação inicial e o encaminhamento necessário. Os pacientes que possuem necessidade de cirurgia são encaminhados via municípios para a Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross), que faz a regulação dos pacientes para as unidades, de acordo com a gravidade de cada caso.
