As marcas aparecem na formação calcária conhecida como Scaglia Rossa / Montanari et al./Cretaceous Research, 2025
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Escaladores que percorriam as encostas do Monte Cònero, na costa do Mar Adriático, identificaram sulcos incomuns em lajes de calcário e acionaram geólogos para avaliar o achado.
O que parecia apenas marcas na rocha revelou-se um conjunto raro de pegadas fósseis, possivelmente deixadas por répteis marinhos há cerca de 79 a 80 milhões de anos.
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Os montanhistas perceberam semelhanças entre aqueles sulcos e outros que haviam ganhado atenção na região meses antes. Eles procuraram o alpinista e geólogo Paolo Sandroni, que levou o caso ao diretor do Observatório Geológico de Coldigioco, Alessandro Montanari.
A equipe voltou ao local para coletar amostras e mapear a área com drone. Os resultados foram apresentados em artigo publicado na revista Cretaceous Research.
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As marcas aparecem na formação calcária conhecida como Scaglia Rossa, dentro do Parque Regional do Cònero, uma sequência geológica que registra milhões de anos de sedimentação em águas profundas.
Segundo os pesquisadores, o que hoje é montanha já foi fundo marinho, depois deformado e soerguido por forças tectônicas.
Análises de rochas imediatamente acima das pegadas indicam que o calcário fazia parte de uma avalanche subaquática de lama, provavelmente desencadeada por um terremoto. Lâminas delgadas revelaram microfósseis de organismos de fundo, compatíveis com profundidades de centenas de metros.
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Em condições normais, trilhas no leito marinho seriam apagadas por correntes e pela ação de organismos bentônicos.
A hipótese central é que um abalo sísmico tenha provocado um deslizamento minutos após a formação das marcas, selando-as sob sedimentos e garantindo sua preservação por dezenas de milhões de anos.
No Cretáceo Superior, os únicos vertebrados grandes o suficiente para produzir esse tipo de rastro seriam répteis marinhos como tartarugas, plesiossauros ou mosassauros.
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Como plesiossauros e mosassauros são considerados, em geral, mais solitários, a equipe sugere que tartarugas marinhas poderiam explicar a grande quantidade de pegadas e um possível deslocamento coletivo.
O cenário proposto envolve animais reagindo a um terremoto, com parte subindo à superfície e outra tentando se afastar rente ao fundo.
O paleontólogo Michael Benton, da Universidade de Bristol, que não participou do estudo, considera o contexto geológico bem estabelecido, mas questiona a identificação do autor das marcas.
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Para ele, os sulcos sugerem um impulso subaquático com os dois membros anteriores tocando o sedimento ao mesmo tempo, padrão incomum, já que muitos vertebrados alternam os membros.
Benton também observa que o estilo de nado eficiente das tartarugas modernas, com movimento contínuo das nadadeiras, não corresponde perfeitamente às marcas descritas.
Montanari avalia que, embora a atribuição exata do animal ainda demande mais estudos, a evidência de um deslizamento submarino associado a atividade sísmica é robusta.
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A expectativa é que o achado estimule novas pesquisas paleontológicas no local e ajude a reconstruir comportamentos e ambientes do mar profundo no Cretáceo.