Malú realiza sonho de ser margarida nas ruas de Santos

Maria Lúcia Cordeiro, de 58 anos, ficou conhecida por expor a vontade de limpar as ruas da Cidade

Ontem, 29 de julho, foi especial para Maria Lúcia Cordeiro, de 58 anos. Ela assinou o contrato de experiência na Terracom – empresa responsável pela limpeza urbana de Santos – e começou, às 6 horas, a varrer as ruas do bairro do Marapé. Seria uma história comum, de uma trabalhadora que conseguiu um emprego, se não fosse por um detalhe: Malú ficou conhecida por expor, numa reportagem do Diário, veiculada no dia 20 de junho passado, o sonho de ser margarida e passar os dias limpando as ruas da Cidade.

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A história de Malú deu bastante repercussão nas redes sociais. Muitas pessoas proferiram incentivos virtuais e se comoveram com o sonho simples, gerado por sua verdadeira obsessão por limpeza e admiração pelo trabalho das mulheres que, debaixo de sol e chuva, se empenham em deixar a cidade limpa. “Meu sonho é ser varredora”, disse.

Ontem, uniformizada, com os equipamentos em mãos e acompanhada de mais três trabalhadoras, Malú era sinônimo de alegria. “Estou imensamente feliz. É um trabalho cansativo, mas estou ótima. Eu nem acreditei quando a empresa me chamou. Perdi o sono tamanha ansiedade e preocupada em não perder o horário. Muita gente não consegue realizar um sonho e eu realizei o meu”, disse Malú, que é formada em Processos Gerenciais. Ela vai continuar trabalhando com faxina depois do expediente das ruas.

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Malú chegou cedo. Conheceu as colegas que fazem parte de sua equipe, recebeu o uniforme amarelo, material de trabalho, equipamentos de proteção individual (EPI´s) e orientações. “Com o tempo ela pega o jeito. Por enquanto, ela não fez nenhuma pergunta e está gostando. Eu trabalho há oito anos nas ruas e gosto do que faço, principalmente de ensinar as novatas. O que dá mais trabalho é recolher ingá e cuca que caem das árvores, pois pesam muito. Mas o acolhimento das pessoas compensa”, afirma a colega Regina Rosa Farias.

A fiscal de Varrição, Jessica Novaes, que também é universitária, reforça a importância do trabalho das margaridas para a saúde pública. “Imagina a quantidade de sujeira, ratos e baratas se não fosse o nosso trabalho. Às vezes, encontramos restos de material de construção dentro das lixeiras e isso dificulta nosso trabalho, pois rasga o saco e, quando não, pesa muito. Também temos que tomar cuidado com material cortante”, afirma.

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Momento crítico

A história de Malú, em tempos de pandemia, é mais do que a simples realização de um sonho, reflete a força de trabalho aliada à preservação de vidas. O isolamento social e a prática do trabalho em casa aumentaram o volume de lixo no Brasil entre 15 e 25%, segundo divulgado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

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A coleta de lixo figura como serviço considerado essencial e que não pode parar pela importância à saúde humana e ao meio ambiente. Segundo a Abrelpe, os coletores e coletoras contribuem para a prevenção da transmissão do coronavírus. Se não houver um trabalho efetivo nessa área, a imunidade e a saúde das pessoas ficariam comprometidas.

Não é fácil

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Não importa o tempo. A rotina das trabalhadoras da varrição urbana começa cedo. O serviço é imprescindível, assim como a dos homens que tiram das ruas o lixo urbano. Uniformizadas, com vassouras, carrinhos e sacos plásticos, muitas vezes amarrados à cintura, 220 varredoras percorrem as ruas de Santos diariamente.

Não tem quem não perceba a educação e a vaidade dessas batalhadoras. E não poderia ser diferente. Como todas as mulheres, elas são multifacetárias – executam várias funções ao mesmo tempo. Portanto, apesar do trabalho braçal, arrumam um tempo para a maquiagem e outros afazeres.

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Com certeza, cansaço não faz parte do vocabulário das trabalhadoras. Segundo a Terracom, as margaridas trabalham em três turnos distintos, de segunda à sábado. Elas ganham o piso da categoria, acrescido de todos os adicionais legais e recebem todos os benefícios decorrentes da Convenção Coletiva de Trabalho (CLT).

Para conseguir uma vaga, conforme almejava Malu, é necessário ter o Primeiro Grau completo. Atendendo ao critério, o candidato deve enviar currículo através do site da empresa (www.terracom.com.br) ou entregar pessoalmente em uma das unidades de negócios.

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Energia e vontade

De acordo com o coordenador de RH da Terracom, Neri Bombonato, a oportunidade ocorreu por uma feliz coincidência. “Surgiu uma necessidade da empresa, ao passo que soubemos da reportagem. Como tínhamos que fazer uma contratação, resolvemos chamá-la para uma conversa e, na ocasião, ela demonstrou muita energia e vontade em fazer parte da nossa equipe de varrição”.

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Neri explica que será um contrato temporário, procedimento rotineiro na empresa. Maria Lúcia ocupa uma vaga que surgiu em virtude de reestruturação da equipe, devido a um afastamento por licença maternidade. “Levamos em conta a garra que ela demonstrou, pois a função não é tarefa fácil. Ela terá tempo para se adaptar e, quem sabe, ser efetivada”, finaliza.