Com o envelhecimento da população, cresce o número de mulheres com dupla sobrecarga de cuidado. Psiquiatras defendem abordagens personalizadas para prevenir colapsos emocionais nessa faixa etária.
Nove em cada dez cuidadores informais no Brasil são mulheres. A maioria delas são filhas que, além de gerenciar a própria casa e sustentar uma carreira, ainda assumem o cuidado simultâneo de filhos e pais idosos. Esse grupo é conhecido como “Geração Sanduíche”, mulheres que vivem comprimidas entre duas demandas que não param: a criação dos filhos e o envelhecimento dos pais.
A média de idade dessas cuidadoras é de 48 anos. Pesquisadoras da PUCPR apontam que elas dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e de cuidado, o que representa mais de mil horas por ano de trabalho invisível e sem remuneração.
Para o Dr. Alexandre Araújo, médico psiquiatra com atuação em psiquiatria geral, psicoterapia e dependências químicas, o problema vai muito além do cansaço físico.
“O que vejo na prática clínica é uma mulher que chegou ao limite sem perceber. Ela foi adiando os próprios sinais de alerta — a insônia, a irritabilidade, a sensação de vazio, porque sempre havia alguém mais urgente para cuidar. Quando finalmente se dá conta, já está num quadro de esgotamento severo”, afirma.
Pressão cultural e culpa agravam o quadro
O cenário se agrava por uma pressão cultural que ainda coloca sobre a mulher a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado da família. Especialistas apontam que a cobrança social para que ela dê conta de tudo sozinha contribui diretamente para o aumento dos casos de burnout. Nesse contexto, a culpa se torna um fator tão adoecedor quanto a sobrecarga em si.
“Ela não pede ajuda porque sente que pedir seria admitir fraqueza. E quando alguém sugere que ela precisa de tratamento, a primeira reação é resistência: ‘Como vou me ausentar se ninguém mais faz isso por mim?'”, conta o psiquiatra.
Abordagem clínica precisa ir além do consultório
Do ponto de vista clínico, esse perfil exige uma abordagem diferenciada. Segundo o médico, tratar o esgotamento nessas mulheres sem considerar o contexto em que vivem é insuficiente.
“Não adianta só medicar ou só fazer terapia se a estrutura de vida continua a mesma. O tratamento precisa incluir reorganização de vínculos, construção de rede de apoio e, muitas vezes, um trabalho com a família inteira. O problema raramente é só dela”, afirma Alexandre.
A psiquiatria tem avançado no reconhecimento de que transtornos como depressão, ansiedade generalizada e burnout se manifestam de forma distinta em mulheres cuidadoras, com mais sintomas somáticos, maior dificuldade de descanso e uma tendência a minimizar o próprio sofrimento.
Dados confirmam realidade dos consultórios
Dados do relatório “Esgotadas”, da ONG Think Olga, mostram que 57% das mulheres entre 36 e 55 anos cuidam de alguém, e 86% delas consideram ter muita carga de responsabilidades.
“Esses números confirmam o que chega ao consultório. São mulheres funcionais, que aparecem bem para o mundo, mas que por dentro estão operando no limite há anos”, diz o médico.
Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, a tendência é que esse quadro se intensifique nas próximas décadas. Para o Dr. Alexandre Araújo, a mudança começa quando a sociedade, e a própria mulher, para de tratar o autocuidado como luxo.
“Cuidar de si não é egoísmo. É o que permite que ela continue presente para os filhos, para os pais, para o trabalho. Quando ela adoece, todo o sistema que depende dela adoece junto”.
