Enquanto o debate sobre o possível fim da escala 6×1 segue sem avanços no Congresso Nacional, uma gigante do entretenimento brasileiro decidiu testar outro caminho por conta própria.
O parque temático Beto Carrero World, situado em Penha, no litoral de Santa Catarina, iniciou um cronograma de trabalho 4×2 para alguns funcionários há cerca de dois anos e afirma que já vê resultados positivos em suas operações e na experiência de suas equipes.
A configuração é simples, pois abrange quatro dias de trabalho, seguidos por outros dois dias de folga, utilizando um sistema de rotação contínua.
Ao contrário de um cronograma 5×2, os dias de folga ocorrem em vários dias ao longo do mês, o que é altamente estratégico para negócios que funcionam todos os dias da semana.
No caso do parque catarinense, a mudança começou gradualmente em áreas diretamente ligadas ao atendimento ao público, como a operação de brinquedos, o receptivo aos visitantes e o setor de alimentação.
Após a análise dos primeiros resultados satisfatórios, o modelo foi ampliado para outros setores da empresa.
Dinâmica operacional do cronograma 4×2
Para implementar o sistema, o parque dividiu seus departamentos em 3 grupos separados, de modo que, onde dois grupos trabalham, um permanece em descanso.
A gestão da empresa concluiu que, para sustentar a qualidade, segurança e confiabilidade dos serviços apresentados aos turistas, o novo modelo exigiria um aumento substancial de pessoal trabalhando por área (isso foi estrategicamente considerado um investimento).
A jornada de trabalho ainda é de oito horas por dia.
Segundo informações divulgadas pela empresa, houve um aumento entre 25% e 35% na folha salarial, mas os ganhos financeiros e operacionais vieram em outras frentes, como a menor necessidade de horas extras, a maior previsibilidade da jornada e uma melhor distribuição das equipes nos horários de maior movimento do parque.
O diretor executivo da empresa, Alex Murad acrescentou que os benefícios observados do modelo incentivaram a implementação em novos departamento.
Discussões trabalhistas no Brasil
Nos últimos meses, houve muitas discussões em torno dos cronogramas de trabalho na agenda nacional brasileira, principalmente em relação a modelos que estendem os períodos de descanso e tornam o agendamento mais flexível.
O cronograma mais comumente praticado é o 6×1 — seis dias trabalhados e um dia de folga — que é mais amplamente praticado em setores como comércio, alimentação, turismo e serviços gerais.
Por outro lado, o cronograma 4×2 é aplicado mais comumente nas áreas de operações contínuas, como segurança privada, saúde, indústrias ou atividades complicadas que exigem operações diárias sem interrupção.
Especialistas trabalhistas alertam, porém, que a implementação desse sistema exige atenção rigorosa às regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), especialmente no que diz respeito ao limite semanal de horas, ao pagamento de horas extras e ao descanso legal.
Dependendo do formato adotado, as jornadas podem ultrapassar o teto legal de 44 horas semanais em alguns ciclos, abrindo margem para questionamentos jurídicos.
O TST tem uma doutrina que precisa exigir ajustes exatos do volume de trabalho para que não ocorra violação contratual.
Expansão bilionária e o futuro da gestão de pessoas
A mudança na gestão de pessoas ocorre em um período de rápida expansão para os negócios.
O Beto Carrero World, amplamente conhecido como o maior parque temático da América Latina, revelou um plano de expansão no valor de R$ 2 bilhões, para o desenvolvimento de novas áreas temáticas, seu próprio hotel e construção da estrutura geral.
A gestão prevê trazer quase o dobro de visitantes e também de funcionários para o local nos próximos anos.
O parque, de fato, funciona todos os dias e recebe milhões de visitantes por ano.
Devido à operação contínua do negócio, longas horas com frequentes períodos de excesso de demanda e frequentes férias e feriados, um dos principais desafios operacionais que a empresa enfrenta é a gestão de seu pessoal.
Segundo a empresa, equipes mais descansadas ajudam a reduzir falhas operacionais, melhoram a qualidade do atendimento e influenciam diretamente a experiência do visitante.
Enquanto o debate sobre as jornadas de trabalho continua em Brasília, o experimento catarinense já virou referência entre empresas que buscam novas formas de equilibrar produtividade, qualidade de serviço e bem-estar dos trabalhadores.















