Maior ave que já existiu pode voltar à vida com projeto bilionário que desafia a ciência

Pesquisadores da Colossal Biosciences anunciaram o nascimento dos primeiros pintinhos desenvolvidos em um sistema de ovo artificial

Divulgação/Colossal Laboratories & Biosciences

A chamada moa-do-sul gigante podia ultrapassar 3,5 metros de altura quando esticava o pescoço para alcançar folhas nas árvores

A corrida da ciência para ressuscitar espécies extintas e restaurá-las no planeta acaba de se aproximar de uma conquista que antes parecia ficção científica.

Pesquisadores da empresa americana Colossal Biosciences anunciaram o nascimento dos primeiros pintinhos desenvolvidos integralmente em um sistema de ovo artificial, uma tecnologia inédita que pode revolucionar a reprodução de aves e abrir caminho para projetos de desextinção animal.

A notícia foi divulgada nesta semana e representa uma inovação marcante na biologia reprodutiva de aves, pois pela primeira vez tornou-se possível incubar embriões de aves fora de uma casca natural usando uma estrutura sintética criada por meio de bioengenharia.

Segundo a empresa, 26 filhotes saudáveis já foram gerados usando o novo sistema.

Essa inovação faz parte de um projeto ambicioso que busca recriar espécies extintas, incluindo o dodô, o mamute-lanoso e a moa gigante da Nova Zelândia, uma das maiores aves que já existiram no planeta, que desapareceu há cerca de 600 anos após intensa pressão humana e caça predatória.

O papel da estrutura sintética

O sistema Colossal substitui completamente a casca orgânica tradicional. No lugar dela, os embriões crescem dentro de uma estrutura transparente composta por uma espécie de treliça sintética integrada a uma membrana de silicone bioengenheirada, com o objetivo de reproduzir fielmente as condições naturais necessárias para o desenvolvimento do embrião.

Durante décadas, os cientistas enfrentaram o desafio quase impossível de reproduzir com precisão a transferência de oxigênio que ocorre naturalmente em uma casca de ovo.

Os esforços feitos desde a década de 1980 dependiam de ambientes com altas concentrações de oxigênio, o que frequentemente causava danos genéticos e comprometia o desenvolvimento dos embriões.

A nova tecnologia agora é capaz de replicar a permeabilidade gasosa de um ovo vivo sem precisar de condições extremas, acrescentou a empresa.

O fundador da Colossal Biosciences, Ben Lamm, apontou o resultado como um avanço para a biologia do desenvolvimento e destacou que, além de ser prático, o sistema foi projetado para ser reutilizável, escalável e compatível com incubadoras comerciais existentes, o que pode ajudar em futuras aplicações em larga escala.

Apoio de Hollywood para o desafio do moa gigante

O projeto mais ousado associado ao avanço é o esforço para reconstruir o moa gigante da Nova Zelândia.

A chamada moa-do-sul gigante podia ultrapassar 3,5 metros de altura quando esticava o pescoço para alcançar folhas nas árvores, e algumas fêmeas chegavam perto de 250 kg, tornando o animal uma das maiores aves já registradas pela ciência.

O ovo sempre foi um grande desafio, já que nenhuma ave viva atualmente tem a capacidade física de incubar ovos que se ajustem ao tamanho da espécie.

Portanto, o desenvolvimento do ovo artificial tornou-se uma parte fundamental da estratégia de desextinção.

O projeto conta com o apoio do cineasta Peter Jackson, diretor da franquia O Senhor dos Anéis, que atua como investidor no projeto e possui uma coleção de fósseis de moa.

Discussões e impactos na conservação atual

Apesar de todo o entusiasmo, no entanto, especialistas permanecem cautelosos com as iniciativas de desextinção.

Parte da comunidade científica cita questões éticas, ecológicas e genéticas próprias, particularmente notando que o DNA de espécies extintas muitas vezes está degradado, tornando quase impossível reproduzir um animal exatamente igual ao seu antecessor.

Pesquisadores também observam que quaisquer animais criados seriam organismos geneticamente modificados, não clones perfeitamente reeditados das espécies outrora extintas.

Além disso, um argumento importante apresentado por alguns cientistas é que os recursos poderiam ser gastos para salvar espécies ameaçadas atuais, prestando mais atenção à proteção das espécies atuais em risco de extinção.

Ainda assim, especialistas avaliam que o impacto imediato da tecnologia pode ser enorme para programas de preservação animal.

O sistema pode permitir a incubação de embriões ameaçados fora de ovos biológicos, a recuperação de material genético armazenado em biobancos e o aumento das chances de sobrevivência de espécies raras.

Independentemente de a moa gigante voltar ou não a caminhar pela Terra, o nascimento dos primeiros pintinhos em ovos artificiais já é tratado como um marco histórico para a biotecnologia, engenharia genética e conservação animal.