“Eu aceitei a Síndrome de Down ao nascer, o autismo com três anos de idade, mas a cegueira eu não consigo aceitar”. Sentada na cozinha de uma humilde casa, no bairro Água Fria, em Cubatão, Janeide Santos da Conceição contou, com muita dor no coração, a triste história do pequeno Gabriel, terceiro de seus quatro filhos, cego em função de um acidente ocorrido no fatídico dia 7 de agosto do ano passado, em Santos.
Gabriel, às vésperas de completar sete anos, segundo a mãe, é vítima da junção de três palavras já bastante conhecidas por milhares de brasileiros: irresponsabilidade, omissão e negligência. Essa última, por sinal, mudou a vida não só do pequeno Gabriel (uma criança especial), mas da própria Janete, que está buscando alento após quase um ano de angústia e incertezas sobre o futuro do filho.

O acidente
Às 16 horas, após sair de uma consulta no Hospital Guilherme Álvaro (Avenida Siqueira Campos), em Santos, Janeide, com Gabriel no colo um pouco alterado, resolveu subir em um ônibus coletivo somente para seguir algumas quadras à frente, onde embarcaria, na Avenida Afonso Pena, em outro ônibus com destino a Cubatão.
Cansada em função dos cuidados com o filho especial, Janeide não percebeu que o motorista parou um pouco à frente do ponto, onde havia uma guia rebaixada de garagem. Ao tentar desembarcar, Janeide não atentou à distância entre o último degrau do ônibus e o chão, acabando caindo com Gabriel.
“Ele caiu para um lado e eu para o outro. As pessoas que estavam no ponto vieram prestar socorro e o motorista somente ficou olhando. Quando eu me levantei, ele acelerou e foi bora”, conta.
Após ter sido atendida no Hospital Municipal de Cubatão, Janeide ligou para a empresa com objetivo de buscar responsabilidades sobre o acidente, mas não obteve retorno. Uma tomografia em Gabriel não teria detectado nada de anormal. Porém, 48 horas depois, Janeide percebeu que um dos olhos de Gabriel começou a inchar.
O menino ficou estrábico (perdeu o paralelismo entre os olhos) e, em um novo exame, foi diagnosticado traumatismo craniano leve. “Antes do acidente, no Guilherme Álvaro, Gabriel havia feito uma tomografia e nada havia de anormal. Depois do acidente, passei a viver entre o neurologista e oftalmologista, sem que ninguém soubesse me dizer o que Gabriel tinha na cabeça”.
Em 18 de setembro (pouco mais de um mês do acidente), Gabriel perdeu totalmente a visão. “Descobri sozinha ao ver Gabriel enfiar a mão dentro de uma panela”, conta a mãe, demonstrando, por intermédio da expressão facial, o momento mais difícil de sua vida.
A saga de Janeide
Mal sabia a mãe que sua saga seria iniciada à partir desse pequeno fato envolvendo a criança cujas pupilas permaneciam dilatadas dia após dia. Após uma bateria de exames, os médicos nada detectaram em Gabriel, que já se recusava a andar, talvez por não conseguir enxergar.
“Ele passou a colocar a mão na cabeça e fazer gestos como se estivesse sofrendo uma dor intensa. O médico dizia que não era nada, mas uma mãe conhece quando seu filho está sofrendo”, afirma.
Após várias idas e vindas a convênios, hospitais, ambulatórios e outros equipamentos de saúde da região, sempre em busca de respostas para o problema de Gabriel, Janeide seguiu, com poucos recursos, para São Paulo (Capital), onde ouviu de um médico que nenhum plano de saúde iria ajudá-la.
“Seu filho tem algum problema na cabeça e precisa de um tratamento especial, só encontrado na Universidade Paulista de Medicina”, teria dito o profissional. Após três dias dentro do hospital-escola, Janeide ouviu que Gabriel corria risco de morte por ser diagnosticado com um tumor no cérebro, em que a perda da visão teria sido, até então, a última consequência.
Os médicos disseram que era preciso uma operação urgente em Gabriel. Em 5 de outubro de 2012, Gabriel iniciou a primeira de uma série de pulsões lombares – coleta de excesso de líquido da medula – que estaria subindo para a cabeça do menino, causando pressão intracraniana e dores quase que insuportáveis.
“Gabriel teve crises de choro em função das dores, só amenizadas com a implantação de um dreno para impedir o fluxo do líquido para a cabeça, cirurgia realizada somente este mês. A cegueira de meu filho poderia ser evitada, caso houvesse um diagnóstico logo após o acidente”. Gabriel – que tem nome de anjo – resiste.
Muito amoroso, ele insiste em buscar a felicidade com a ajuda da mãe, que ouviu do médico que os próximos seis meses serão cruciais para o menino, mas adianta que ele tem poucas chances de voltar a enxergar. “Eu continuo com muita esperança”, finaliza a mãe, que luta para dar uma vida normal ao menino.
Com Gabriel sempre nos braços, Janeide vive com o marido (motorista de ônibus) e mais três filhos numa pequena casa, fria e úmida, totalmente imprópria para uma criança especial. Atualmente, a família aguarda a possibilidade de ser contemplada com uma casa dentro de um dos programas habitacionais oferecidos pelos governos estadual e federal.