O nome de uma das maiores pioneiras da saúde no Brasil está prestes a navegar pelos rios da Amazônia. A Marinha do Brasil prepara o batismo oficial do Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Anna Nery, embarcação que será utilizada para levar atendimento médico a comunidades ribeirinhas de difícil acesso.
O navio fará história ao se tornar o primeiro navio da força atual a receber um nome feminino.
A homenagem resgata a trajetória de Anna Justina Ferreira Nery, a primeira enfermeira voluntária do Brasil e patrona da enfermagem brasileira.
Reconhecida pelo trabalho realizado durante a Guerra do Paraguai, ela se tornou símbolo de solidariedade, cuidado e dedicação à saúde em um período em que a profissão ainda não era oficialmente estruturada no país.
Um hospital flutuante de alta tecnologia
Atualmente em fase final de testes no Estaleiro Bibi, em Manaus, o NAsH Anna Nery foi construído com tecnologia nacional e recursos do Fundo Nacional de Saúde, ligado ao Ministério da Saúde.
A expectativa da Marinha é que a embarcação entre em operação ainda no segundo semestre deste ano.
A embarcação funcionará como uma verdadeira unidade hospitalar flutuante.
Segundo a Marinha do Brasil, o NAsH terá capacidade para realizar cerca de 500 atendimentos diários em regiões isoladas da Amazônia Oriental.
Para isso, o navio contará com uma estrutura completa que engloba seis consultórios médicos e odontológicos, centro cirúrgico para procedimentos de pequena complexidade, equipamentos de mamografia, ultrassonografia e raios-X, além de laboratório de análises clínicas, farmácia e leitos de internação.
O objetivo é ampliar o acesso à saúde para populações que vivem em áreas onde o deslocamento até hospitais pode levar horas ou até dias pelos rios amazônicos.
Acessibilidade e expansão do atendimento
Outro diferencial da embarcação será o calado reduzido, característica que permite a navegação em rios com menor profundidade. Isso possibilitará que o navio alcance comunidades onde embarcações maiores enfrentam limitações operacionais.
A expectativa é que o novo meio reforce as missões atualmente realizadas pelo Navio-Auxiliar Pará e pelo Navio de Assistência Hospitalar Sargento Lima, ampliando a cobertura nos estados do Pará, Amapá, Maranhão e Piauí.
Segundo o futuro comandante, o capitão de fragata Diego Luiz de Sá Rodrigues, a chegada do novo navio representa um avanço importante na presença do Estado em áreas vulneráveis, o que significa mais pessoas em condição de vulnerabilidade social, que residem em comunidades ribeirinhas, sendo assistidas.
A trajetória da Mãe dos Brasileiros
Natural de Cachoeira, na Bahia, Anna Justina Ferreira Nery nasceu em 1814. Viúva ainda jovem, dedicava-se à criação dos filhos quando sua vida mudou completamente por causa da Guerra do Paraguai.
Em 1865, ao saber que dois de seus filhos haviam sido convocados para o conflito, tomou uma decisão considerada extremamente incomum para uma mulher da época, oferecendo-se voluntariamente para trabalhar nos hospitais militares que atendiam os combatentes.
Antes de seguir para a guerra, recebeu treinamento com as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, aprendendo técnicas básicas de enfermagem.
Depois disso, passou a atuar em hospitais militares e hospitais de campanha, enfrentando condições extremamente precárias, escassez de recursos e um grande número de feridos.
Mesmo diante das dificuldades, Anna destacou-se pelo cuidado humanizado e pelo esforço para melhorar as condições de higiene e atendimento aos pacientes, ajudando a consolidar os primeiros alicerces da enfermagem no Brasil.
Uma frase que atravessou gerações
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi a carta enviada ao presidente da Província da Bahia em agosto de 1865, quando pediu autorização para atuar como voluntária na guerra.
Na mensagem, escreveu uma frase que atravessou gerações, pedindo que Vossa Excelência se dignasse de acolher benigno aquele seu espontâneo oferecimento, ditado tão somente pela voz do coração.
Legado e reconhecimento nacional
Após a guerra, Anna Nery passou a ser reconhecida como uma das figuras mais importantes da história da saúde brasileira.
Pela dedicação aos soldados feridos, recebeu homenagens do Império e ganhou o apelido de Mãe dos Brasileiros. Seu legado permanece vivo até hoje.
A primeira escola oficial de enfermagem de alto padrão do país, criada em 1923 e atualmente vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recebeu seu nome como Escola de Enfermagem Anna Nery.
Além disso, sua trajetória foi eternizada no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, reconhecimento concedido a personalidades que tiveram papel fundamental na construção da história brasileira.
Simbolismo e representatividade na Marinha
A homenagem também possui um significado simbólico para a própria Marinha, pois o NAsH Anna Nery será o primeiro navio da história recente da instituição a receber um nome feminino.
Embora existam registros históricos de embarcações batizadas em homenagem a mulheres durante o período imperial, casos semelhantes tornaram-se raros ao longo das décadas.
Para Solange Nery, trineta da enfermeira, a escolha do nome representa uma conexão direta entre a história da antepassada e a missão da nova embarcação.
Segundo ela, Anna Nery possuía um perfil discreto, mas certamente se identificaria com o propósito do navio de levar cuidado, assistência e acolhimento a populações que vivem longe dos grandes centros urbanos.
Ao cruzar os rios da Amazônia transportando atendimento médico, exames, medicamentos e equipes de saúde, o NAsH Anna Nery carregará não apenas uma estrutura hospitalar moderna, mas também o legado de uma mulher que ajudou a transformar a história da enfermagem brasileira e que, mais de 150 anos depois, continuará inspirando ações de cuidado em todo o país.





