Mãe de dançarino morto recusa convite para se encontrar com governador do Rio

Douglas Rafael Pereira foi encontrado morto com um tiro na terça-feira, 22, numa creche no Morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana

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25 ABR 201419h44

A auxiliar de enfermagem Maria de Fátima Silva, mãe do dançarino Douglas Rafael Pereira, o DG, disse que, na manhã desta sexta-feira, 25, foi contactada por assessores do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) para se encontrar com ele, mas recusou o convite. DG foi encontrado morto com um tiro na terça-feira, 22, numa creche no Morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, zona sul do Rio.

"Eu não vou ao Palácio Guanabara (sede do governo do Rio). O governador está querendo se projetar em cima da imagem do meu filho. Mas eu não vou deixar nenhum político fazer isso. Existem outros crimes iguais ao do meu filho que não foram solucionados, como o da servente Claúdia (Ferreira, que teve o corpo arrastado por uma viatura da Polícia Militar em março), o do Amarildo, e o do filho da Ciça Guimarães (Rafael Mascarenhas) e da engenheira Patrícia Amieiro". A família de Cláudia Ferreira, contudo, reuniu-se com o então governador Sérgio Cabral no palácio dias após o episódio.

Pezão reiterou ontem que as investigações estão sendo feitas com rigor. "Não vamos prejulgar, vamos dar a chance aos policiais de se defenderem, darem seus depoimentos. Não iremos acobertar nenhuma irregularidade. Se tivermos que cortar na própria carne, cortaremos. A família pode confiar no nosso empenho em chegar aos envolvidos". Ele também lamentou a morte do dançarino. "Eu me solidarizo com a mãe do Douglas, com a família dele. Para nós que somos pais, é inimaginável perder um filho. É um sofrimento, uma angústia para todos".

A mãe de DG também disse ontem que está tentando convencer uma funcionária da creche que estaria no local no momento em que o rapaz foi morto a prestar depoimento. "Ela está morrendo de medo, já até saiu da comunidade. Mas é uma testemunha-chave para provar que meu filho foi morto pelos policiais militares". Por sua vez, o delegado Gilberto Ribeiro, da 13ª DP, responsável pela investigação da morte de DG e de Edilson da Silva dos Santos (baleado na cabeça durante o protesto de terça-feira), afirmou ontem que, quando foi ouvida, Maria de Fátima não citou a existência dessa testemunha.

Maria de Fátima Silva recusou convite para se encontrar com governador do Rio (Foto: Agência Brasil)

O delegado reafirmou que as lesões encontradas no corpo do dançarino não são compatíveis com tortura e agressões, como Maria de Fátima vem acusando. "A mãe da vítima fala o que bem entender. Eu falo com base naquilo que eu apurar", declarou. Ribeiro confirmou que a posição em que DG foi encontrado corresponde à foto divulgada na edição de ontem do jornal Extra. Na imagem, o dançarino está de costas e é possível observar claramente em suas costas um orifício causado por objeto pérfuro-contundente.

No entanto, o delegado minimizou o resultado do laudo de perícia de local que apontou que os ferimentos na vítima eram compatíveis com aqueles causados por uma queda. "O perito não deve ter tido condições de afirmar, no momento, que aquele orifício era de projétil de arma de fogo. O objetivo da perícia de local não é exclusivamente apontar a causa da morte. Isso cabe ao laudo de necropsia feito no Instituto Médico-Legal. A perícia de local deve apontar a dinâmica do que houve no local do crime". A primeira foto do corpo de Douglas, que o mostra agachado em posição de defesa, foi divulgada na quarta-feira por parentes da vítima. Até então, imaginava-se que DG havia sido encontrado naquela posição.

Foi ouvido nesta sexta-feira na 13ª DP mais um dos dez PMs que teriam participado do suposto confronto com traficantes do Pavão-Pavãozinho na madrugada de terça, poucas horas antes de o corpo de DG ter sido encontrado no pátio de uma creche no alto da favela. Nove PMs já depuseram no inquérito.