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Levante vai cobrar Estátua de Iemanjá em Santos

Imagem permanece no Teatro Municipal, longe dos olhos do povo

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23 JUL 2020Por Carlos Ratton07h00
Pedestal vazio e imagem de Iemanjá escondida no TeatroFoto: Nair Bueno/DL e Reprodução

A necessidade de instalação da Estátua de Iemanjá no pedestal de concreto vazio, na Praça Vereador Luiz La Scala, próxima ao Canal 6, será lembrada no Levante Tereza de Benguela: Baixada Santista contra o Racismo e a Intolerância Religiosa, neste sábado (25), das 11 às 13 horas, na Praça do Aquário, Santos.

Por enquanto, para frustração de pelos menos oito mil adeptos à religião afro e milhares de outros simpatizantes à diversidade religiosa, a escultura se encontra escondida no Teatro Municipal por conta da intolerância de católicos e evangélicos radicais e a falta de iniciativa da Prefeitura, que insiste em jogar a responsabilidade da não instalação à Câmara, talvez por conta do momento eleitoral.

O ato é organizado por diversas mulheres pretas, sindicatos, partidos políticos de esquerda e movimentos sociais da região.

"O local foi escolhido por ser um lugar onde o povo preto não é bem-vindo e porque, no lugar, não foi permitida a instalação da estátua de Iemanjá preta encomendada ao escultor Luís Garcia Jorge. O dia da inauguração da estátua seria o dia dois de fevereiro, dia da tradicional procissão de Iemanjá", explica a jornalista Cidinha Santos, da organização do Levante.

Líder

Tereza de Benguela foi líder quilombola, símbolo da resistência das mulheres negras. No sábado, Todos os cuidados serão observados como o uso de máscara, álcool em gel, detergente e água, luvas, além de evitar a participação das pessoas dos grupos de risco.

A sereia negra, representando o orixá, seria instalada na orla no Dia da Rainha do Mar, quando da 20ª procissão que ocorreu na Ponta da Praia. Porém, a Administração Municipal sequer permite que alguém a contemple no teatro. A Reportagem foi impedida de fotografá-la no último dia 17 e só conseguiu a imagem porque o autor a cedeu.

Pressão

Informações extraoficiais dão conta que a pressão para impedir a instalação aumenta próxima da Festa de Iemanjá, quando o endereço eletrônico da Secult é "bombardeado" de mensagem intolerantes. Meses atrás, a possibilidade da estátua perto do Aquário gerou um abaixo-assinado online contra a iniciativa. Uma igreja evangélica conhecida na Cidade chegou a fazer uma postagem nas redes contra a instalação.

Santos é umas das únicas cidades que ainda não tem a imagem de Iemanjá. Ela seria também para representar o movimento negro, o empoderamento feminino, a religião de origem africana. O projeto da instalação da estátua é do babalorixá Pai Marcelo de Logunedé. Ele conseguiu a petição das pessoas para colocarem a estátua.

Conforme já revelado, a estátua é fruto de investimento privado e não público e foge das demais vistas em todo o Brasil: totalmente afro, respeitando os dogmas da religião e a mitologia africana. Uma Iemanjá negra, de cabelos black, corpo e rabo de sereia.

Não precisava

A questão chegou a tramitar na Câmara de Santos, em fevereiro, pelas mãos do ex-vereador Jorge Vieira da Silva Filho, o Carabina (PSDB), mas nem precisava. Segundo parecer da Procuradoria do Legislativo, o Executivo (prefeito Paulo Alexandre Barbosa - PSDB) "não necessita da autorização prévia para a prática de atos de administração, cuja iniciativa já é de sua competência privativa". Ou seja, há meses que a instalação da estátua aguarda uma "canetada" do prefeito e, no entanto, a Prefeitura insiste em mantê-la guardada no teatro.

O Governo Paulo Alexandre Barbosa, mesmo sabendo do parecer da Câmara desde 19 de fevereiro, insiste que, de acordo com o artigo 246 da Lei Orgânica do Município, os jardins da praia e a plataforma do Emissário Submarino são considerados patrimônio inalienável da coletividade, cujas modificações que visem a alterar suas características, composição estética e utilização só poderão ser efetuadas após autorização da Câmara. (Carlos Ratton)