Lavanderia promove inclusão produtiva para mulheres em Santos

Projeto nos moldes de uma cooperativa tem a renda revertida às trabalhadoras, que chegam encaminhadas por órgãos da assistência social de Santos

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08 MAR 2017Por Rafaella Martinez10h50
Atualmente sete mulheres mantém o funcionamento do espaçoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Maria Aparecida de Oliveira separa com agilidade as roupas que serão encaminhadas para as máquinas de lavar. Embora sejam suas mãos as principais responsáveis pelo trabalho a ser executado, é o sorriso da senhora de 64 anos que mais chama atenção durante todo o processo. Tendo o imóvel localizado na Rua Amador Bueno, 309, no Centro de Santos, como endereço do trabalho há oito anos, Maria paga as despesas da casa onde vive sozinha com o suor do seu próprio trabalho na lavanderia que traz no nome a data do dia internacional da mulher: 8 de Março.

É também ali, no espaço repleto de significado, que mais de 50 mulheres já tiveram a oportunidade de ressignificar suas próprias histórias. Santistas do Centro, das palafitas e dos morros: mulheres em situação de vulnerabilidade e risco social que encontraram no trabalho digno e colaborativo, pautado na economia solidária, a chance de serem protagonistas de suas histórias.

O projeto, criado em 2009 sob gerência da Coordenadoria de Desenvolvimento Social da Prefeitura, tem a renda revertida às trabalhadoras, que chegam encaminhadas por órgãos da assistência social.

“O projeto surgiu no governo de João Paulo Tavares Papa, com o apoio da Petrobras e com a proposta de fazer uma lavanderia comunitária para atender a população que reside nos cortiço. Alteramos o projeto para que também pudesse gerar renda, principalmente para mulheres que estão em situação de vulnerabilidade e risco social e têm dificuldade em se inserir no mercado de trabalho”, destaca Márcia Reis, gestora da Lavandeira.

É o caso, por exemplo, de Andréa Ferreira. Egressa do sistema penitenciário, Andréa sustenta há sete anos a família, composta pelos dois filhos, pelo marido e por dez animais de estimação. “ Passei por algumas situações bem difíceis na vida e aqui encontrei a oportunidade de estudar e reescrever a minha história”.

Atualmente sete mulheres mantém o funcionamento do espaço. Todas passaram por cursos de qualificação na área de lavagem e aprenderam sobre atendimento a clientes e economia solidária. Todas as etapas foram realizadas em assembleias, onde a partir do pensamento de todas foi tirado um modelo de atuação. A proposta é que, em curto prazo, as mulheres criem uma própria cooperativa de lavagem, desvinculada do Poder Público, que hoje arca com os custos do aluguel, água e luz.

Cooperativa

Tudo na lavanderia é compartilhado: desde o momento em que a roupa chega até quando vai embora todas sabem fazer o trabalho.

Entre receita e despesas, 70% do que sobra é distribuído entre as trabalhadoras. Os outros 30% são divididos igualmente para insumos, manutenção de maquinário e um fundo gerido pelo próprio empreendimento, ao qual todas podem recorrer para empréstimos, além de retirar a própria parte quando deixam a atividade. As mulheres também recebem quando saem de férias e recebem, no final do ano, um abono de Natal.

A gestora ressalta que essa é uma iniciativa pioneira de economia solidária na cidade e que é preciso investir mais no setor. “O custo de manter esse trabalho é muito menor do que se essas mulheres estivessem inseridas nos programas de Assistência Social”, conta.

No Centro, reforço de vínculos e resgate da autoestima

Além de garantir renda, a Lavanderia 8 de Março também busca resgatar os vínculos e reinserir as trabalhadoras no mercado de trabalho, através da capacitação e educação. Duas delas retomaram os estudos e concluíram o ensino fundamental e médio. Outras duas se aperfeiçoaram em cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). O horário em que as trabalhadoras estudavam foi considerado como tempo de trabalho e reembolsado como tal, uma vez que os conhecimentos adquiridos trarão retorno para o projeto.

“É algo transformador. Hoje essas meninas se sentem pertencentes a uma sociedade que em algum momento da vida delas as excluiu. A lavanderia reinseriu essas mulheres na sociedade, não apenas pelo fato de hoje elas terem um emprego, mas sim por elas saberem dos seus direitos e deveres. Essa transformação impacta suas relações fora daqui. É um circulo virtuoso”, enfatiza Márcia.

Ex-catadora do antigo lixão do Alemoa, Cleuza Feliciano, de 37 anos, conta que a lavanderia trouxe novas oportunidades para ela. “Quando a frente de trabalho fechou eu fiquei preocupada, pois ia ficar desempregada. A minha sorte foi o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) ter me encaminhado para cá. Sou feliz demais aqui”, conta.

Lena, de 38 anos, trabalha na lavanderia há apenas um mês. O salário é a única fonte de renda da família, que mora no Centro da cidade. “Meu marido está desempregado e como a crise está complicada eu comemoro essa oportunidade. É um horário que dá para levar minha filha para creche e fazer as coisas de casa. Estar aqui é ter a oportunidade de comandar a minha própria vida. Estou feliz”, finaliza.

Serviço

Endereço: Rua Amador Bueno, 309, Centro
Telefone: 3221-7717
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e sábado, das 9h às 13h
 
EXEMPLOS DE SERVIÇOS E PREÇOS ATUAIS
(MARÇO DE 2017):
Cesta com 10 peças de roupa (não delicadas): R$ 30
Cesta com 20 peças de roupa (não delicadas): R$ 55
Dois edredons de solteiro: R$ 30
Dois edredons de casal: R$ 36
Terno: R$ 45
Tênis: R$ 15
Mochila: a partir de R$ 15