Lavanderia promove inclusão produtiva para mulheres em Santos

Projeto nos moldes de uma cooperativa tem a renda revertida às trabalhadoras, que chegam encaminhadas por órgãos da assistência social de Santos

Maria Aparecida de Oliveira separa com agilidade as roupas que serão encaminhadas para as máquinas de lavar. Embora sejam suas mãos as principais responsáveis pelo trabalho a ser executado, é o sorriso da senhora de 64 anos que mais chama atenção durante todo o processo. Tendo o imóvel localizado na Rua Amador Bueno, 309, no Centro de Santos, como endereço do trabalho há oito anos, Maria paga as despesas da casa onde vive sozinha com o suor do seu próprio trabalho na lavanderia que traz no nome a data do dia internacional da mulher: 8 de Março.

É também ali, no espaço repleto de significado, que mais de 50 mulheres já tiveram a oportunidade de ressignificar suas próprias histórias. Santistas do Centro, das palafitas e dos morros: mulheres em situação de vulnerabilidade e risco social que encontraram no trabalho digno e colaborativo, pautado na economia solidária, a chance de serem protagonistas de suas histórias.

O projeto, criado em 2009 sob gerência da Coordenadoria de Desenvolvimento Social da Prefeitura, tem a renda revertida às trabalhadoras, que chegam encaminhadas por órgãos da assistência social.

“O projeto surgiu no governo de João Paulo Tavares Papa, com o apoio da Petrobras e com a proposta de fazer uma lavanderia comunitária para atender a população que reside nos cortiço. Alteramos o projeto para que também pudesse gerar renda, principalmente para mulheres que estão em situação de vulnerabilidade e risco social e têm dificuldade em se inserir no mercado de trabalho”, destaca Márcia Reis, gestora da Lavandeira.

É o caso, por exemplo, de Andréa Ferreira. Egressa do sistema penitenciário, Andréa sustenta há sete anos a família, composta pelos dois filhos, pelo marido e por dez animais de estimação. “ Passei por algumas situações bem difíceis na vida e aqui encontrei a oportunidade de estudar e reescrever a minha história”.

Atualmente sete mulheres mantém o funcionamento do espaço. Todas passaram por cursos de qualificação na área de lavagem e aprenderam sobre atendimento a clientes e economia solidária. Todas as etapas foram realizadas em assembleias, onde a partir do pensamento de todas foi tirado um modelo de atuação. A proposta é que, em curto prazo, as mulheres criem uma própria cooperativa de lavagem, desvinculada do Poder Público, que hoje arca com os custos do aluguel, água e luz.

Cooperativa

Tudo na lavanderia é compartilhado: desde o momento em que a roupa chega até quando vai embora todas sabem fazer o trabalho.

Entre receita e despesas, 70% do que sobra é distribuído entre as trabalhadoras. Os outros 30% são divididos igualmente para insumos, manutenção de maquinário e um fundo gerido pelo próprio empreendimento, ao qual todas podem recorrer para empréstimos, além de retirar a própria parte quando deixam a atividade. As mulheres também recebem quando saem de férias e recebem, no final do ano, um abono de Natal.

A gestora ressalta que essa é uma iniciativa pioneira de economia solidária na cidade e que é preciso investir mais no setor. “O custo de manter esse trabalho é muito menor do que se essas mulheres estivessem inseridas nos programas de Assistência Social”, conta.

No Centro, reforço de vínculos e resgate da autoestima

Além de garantir renda, a Lavanderia 8 de Março também busca resgatar os vínculos e reinserir as trabalhadoras no mercado de trabalho, através da capacitação e educação. Duas delas retomaram os estudos e concluíram o ensino fundamental e médio. Outras duas se aperfeiçoaram em cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). O horário em que as trabalhadoras estudavam foi considerado como tempo de trabalho e reembolsado como tal, uma vez que os conhecimentos adquiridos trarão retorno para o projeto.

“É algo transformador. Hoje essas meninas se sentem pertencentes a uma sociedade que em algum momento da vida delas as excluiu. A lavanderia reinseriu essas mulheres na sociedade, não apenas pelo fato de hoje elas terem um emprego, mas sim por elas saberem dos seus direitos e deveres. Essa transformação impacta suas relações fora daqui. É um circulo virtuoso”, enfatiza Márcia.

Ex-catadora do antigo lixão do Alemoa, Cleuza Feliciano, de 37 anos, conta que a lavanderia trouxe novas oportunidades para ela. “Quando a frente de trabalho fechou eu fiquei preocupada, pois ia ficar desempregada. A minha sorte foi o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) ter me encaminhado para cá. Sou feliz demais aqui”, conta.

Lena, de 38 anos, trabalha na lavanderia há apenas um mês. O salário é a única fonte de renda da família, que mora no Centro da cidade. “Meu marido está desempregado e como a crise está complicada eu comemoro essa oportunidade. É um horário que dá para levar minha filha para creche e fazer as coisas de casa. Estar aqui é ter a oportunidade de comandar a minha própria vida. Estou feliz”, finaliza.

Serviço

Endereço: Rua Amador Bueno, 309, Centro
Telefone: 3221-7717
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e sábado, das 9h às 13h
 
EXEMPLOS DE SERVIÇOS E PREÇOS ATUAIS
(MARÇO DE 2017):
Cesta com 10 peças de roupa (não delicadas): R$ 30
Cesta com 20 peças de roupa (não delicadas): R$ 55
Dois edredons de solteiro: R$ 30
Dois edredons de casal: R$ 36
Terno: R$ 45
Tênis: R$ 15
Mochila: a partir de R$ 15