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Jovem vende paçocas em semáforo para pagar sua faculdade em Santos

Carlos Raphael Lindoso dos Santos tem 21 anos e está no 2º semestre do curso de economia

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22 FEV 2020Por Jeferson Marques13h31
Carlos Raphael Lindoso dos Santos, trabalhando na Divisa.Foto: Facebook/Denize Marques

"Optei por cursar economia para ter o conhecimento necessário para empreender". Essa foi uma das frases de Carlos Raphael Lindoso dos Santos, de 21 anos, que vende paçocas nos semáforos da Divisa entre Santos e São Vicente para pagar as suas mensalidades do curso de economia em uma universidade de Santos. O jovem, aliás, também ajuda nas despesas de casa, já que mora de aluguel com sua mãe, no Centro de São Vicente.

Lindoso trabalha, normalmente, das 10h as 17h. "Um pouco mais, um pouco menos', diz. Ele chega a arrecadar, em dias considerados bons para venda, R$100. Já em outros momentos, como ele diz, "é preciso ter paciência". Porém, o que o rapaz não perde nunca é a vontade de vencer na vida. 

"Penso que o meu futuro virá através dos estudos. Já trabalhei de garçom e, inclusive, já vendi brigadeiros na rua. Mas percebi que a paçoca foi mais rentável. E assim eu sigo em frente, pois tenho outros projetos de vida que dependem da minha formação superior", explica.

No bate-papo com a Reportagem, Lindoso foi perguntado sobre as maiores dificuldades que encontra por trabalhar na rua. E, segundo a sua análise, o preconceito consigo mesmo é uma barreira que deve ser ultrapassada. 

"Muitas pessoas entendem que ser vendedor no semáforo significa que você é um fracassado, e não é verdade. Hoje em dia as pessoas precisam encontrar formas de ganhar o seu dinheiro, e eu encontrei a minha. Não é vergonhoso para ninguém vender nos semáforos. Só que muitos acham que isso significa situação de pobreza extrema", lembra.

A Reportagem questionou, ainda, sobre a plaquinha que ele carrega no pescoço (Me ajude a fazer faculdade, paçoca R$1,00). "Foi uma estratégia que encontrei para me comunicar com as pessoas que chegam com os vidros do carro fechados. Elas leem isso e acabam até abrindo os vidros e criando uma certa conexão com o que estou fazendo ali. Elas acreditam no meu sonho junto comigo e querem ajudar", revela.

FUTURO

Lindoso pensa em iniciar, daqui há alguns semestres, um estágio dentro da sua área. Porém, ele salienta que seu foco está em ser aprovado em algum concurso público. "Área bancária, com certeza. E aí encaminhar alguns projetos pessoais que tenho e que não abandonarão as habilidade e experiências que adquiri sendo vendedor na rua", planeja.

"Você nota que tem um lado empreendedor na necessidade. E foi assim que aflorou em mim. Sei que para empreender do jeito correto preciso de uma formação e da base que os estudos me dão. Tenho planos, metas e quero alcançá-los com maior segurança", reflete.

INFÂNCIA E MARCAS

Com muito cuidado e respeito o jovem falou sobre a sua infância e a não presença do pai na sua vida. "Minha mãe me criou sozinho e a última vez que vi meu pai foi há 11 anos. Ele nunca deu importância para nós. Mas eu o perdoou. E isso serviu de exemplo do pai que pretendo me tornar, fazendo diferente do que ele fez. Quero ser um pai presente e que participe da vida do meu filho, educando-o e dando o direcionamento correto para o seu futuro", desabafa.

"Você conversaria com ele, caso o encontrasse no semáforo"? Perguntamos.

"Sim, conversaria. Como falei, eu o perdoo. Estou construindo a minha vida sem ele".

MENSAGEM PARA OUTRAS PESSOAS

Lindoso encerrou a conversa encorajando as pessoas a buscarem conhecimento e a não terem medo de frustrações, decepções ou dificuldades. "Que a minha história sirva de inspiração para outras pessoas que estejam enfrentando momentos complicados. Que elas não tenham vergonha de vender num semáforo, na praia ou onde quer que seja. Acreditem no seu potencial e nos seus sonhos", diz.

"A criminalidade não deve, nunca, ser uma opção. Há sempre caminhos corretos a serem percorridos', finaliza.