De operador de rádio a herói na África: a incrível história do técnico brasileiro que revolucionou o futebol do Marrocos

Da várzea carioca para o mundo: descubra como o treinador ajudou a revelar craques e mudou o futebol africano.

Fotografia horizontal mostrando um homem idoso de boné recebendo uma homenagem com flores e um certificado ao lado de um jogador com camisa do Real Madrid no gramado de um estádio

Antes de morrer, Mehdi Faria foi homenageado por suas façanhas no futebol marroquino / Facebook / Jose Mehdi Faria

Você sabia que a seleção do Marrocos tem um capítulo inteiro da sua história escrito por um brasileiro? Pois é! Embora a comissão técnica atual dos “Leões do Atlas” não conte com nenhum profissional nascido por aqui, a ligação do país africano com o nosso futebol nos bastidores é antiga, forte e cheia de glórias.

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Se você adora descobrir curiosidades sobre os mundiais e os bastidores da bola, prepare-se para conhecer a trajetória de um treinador que transformou o patamar do esporte marroquino e se tornou um verdadeiro ídolo nacional. Estamos falando de José Faria, que mais tarde adotaria o nome de Mehdi Faria. Ele colocou o Marrocos nos livros de história pois, sob sua batuta na Copa do Mundo de 1986, no México, o time se tornou a primeira seleção africana a se classificar para a fase de mata-mata do torneio.

No entanto, para entender o tamanho desse feito, precisamos voltar no tempo. A história desse verdadeiro milagre esportivo não começou nos luxuosos gramados internacionais, mas sim na simplicidade dos subúrbios do Rio de Janeiro.

Das praias do Rio de Janeiro para os campos do mundo

Nascido em 1933 e criado no bairro de Ramos, José Faria teve uma relação modesta com a bola nos pés. Diferente de muitos de seus colegas de profissão, ele não construiu uma carreira estrelada como jogador. Na verdade, para sustentar a esposa e os filhos em uma pequena quitinete em Laranjeiras, ele trabalhava como operador de rádio na Petrobras, conciliando o emprego formal com a sua grande paixão pelo esporte.

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Seus primeiros passos como treinador aconteceram nas categorias de base do Bonsucesso e do Fluminense. Nessa época, ele dedicava seu tempo livre para observar partidas na várzea e nas praias em busca de novos talentos. Com um coração gigante, Faria costumava levar lanches para os garotos e rapidamente conquistava a confiança das famílias.

Foi assim que ajudou a revelar nomes de peso, como Edinho, futuro capitão da Seleção Brasileira. Conhecido por incentivar o drible e a técnica, ele costumava dizer com orgulho que era um “treinador de campo, e não de quadro-negro”.

A escolha do Rei Hassan II e a explosão na África

A grande virada na sua vida financeira e profissional aconteceu em 1979. Através de contatos, Faria foi convidado para trabalhar no Catar, onde assumiu o Al-Sadd e empilhou títulos nacionais. O sucesso no Oriente Médio fez o seu nome ecoar até o Marrocos, que vivia uma entressafra e buscava um novo comandante para o FAR Rabat, clube ligado às Forças Armadas.

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A escolha do novo treinador teve a participação direta do próprio rei do país, Hassan II. Nomes famosos como os brasileiros Vavá e Esquerdinha estavam na mesa, mas foi a visão de Faria que conquistou o monarca. A aposta foi mais do que certeira.

Em pouco tempo, o carioca encerrou um jejum de 14 anos sem títulos do FAR Rabat e, em 1985, levou o time à conquista inédita da Copa dos Campeões da África. O sucesso estrondoso o credenciou para assumir também a seleção marroquina.

O “Pelé dos treinadores” e o nascimento de Mehdi Faria

No comando da seleção, Faria montou um time baseado em forte disciplina tática, mas sem tirar a liberdade criativa que aprendeu no Brasil. Mais do que esquemas de jogo, ele se tornou uma figura paterna para o elenco. O tratamento carinhoso e acessível rendeu a ele o apelido de “O Mago” entre os torcedores apaixonados.

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A fama alcançou níveis astronômicos. “Não sou o Pelé, mas eles me tratam como se eu fosse o Pelé dos treinadores. Não posso caminhar tranquilo pelas ruas”, declarou certa vez ao Jornal do Brasil. A proximidade com o rei Hassan II era tanta que o monarca chegava a ligar para o banco de reservas durante as partidas para conversar.

Foi nesse ambiente de acolhimento que José Faria tomou uma decisão de foro íntimo. Encantado com os valores de tolerância, solidariedade e compaixão do povo local, ele se converteu ao islamismo por pura convicção pessoal. Pouco antes da Copa de 1986, passou a ser chamado oficialmente de Mehdi Faria.

A inesquecível e heroica Copa do Mundo de 1986

Classificado para o Mundial do México, o Marrocos caiu no chamado “grupo da morte”, ao lado de Inglaterra, Polônia e Portugal. Ninguém apostava nos africanos. Contrariando os críticos, a equipe arrancou dois empates sem gols contra Polônia e Inglaterra. Tudo ficou para a última rodada contra Portugal.

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O que se viu em campo foi um baile histórico: vitória do Marrocos por 3 a 1. A equipe não só se classificou para as oitavas de final (algo inédito para o continente africano), como passou em primeiro lugar no grupo. O feito rendeu uma ligação emocionada do Rei Hassan II, que cravou: enquanto ele era o rei da política, o brasileiro havia se tornado o “rei do futebol marroquino”.

A jornada terminou nas oitavas, com uma derrota suada por 1 a 0 para a Alemanha Ocidental (com gol de falta de Matthäus nos minutos finais), mas os marroquinos deixaram o México sob aplausos de pé do mundo inteiro.

Um legado de amor que o tempo jamais apagará

Recebidos como heróis em carro aberto no retorno ao Marrocos, os jogadores e a comissão técnica pavimentaram o orgulho esportivo do país. Mehdi Faria continuou no comando da seleção até 1988 e, mesmo após a aposentadoria, jamais perdeu o status de ídolo nacional.

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Em 2013, o treinador recebeu uma linda homenagem em um evento especial em Tânger, cercado pelo carinho de milhares de torcedores. Três dias depois, faleceu aos 80 anos. Em nota oficial, a família real destacou a perda irreparável do seu “Mago”.

Para os jogadores que conviveram com ele, a dor foi a de perder um familiar. Como bem resumiu o ex-jogador e técnico Abdelmalek El Aziz ao jornal Les Temps: “Faria foi um professor, um esportista e um psicólogo. Perdi um irmão e um grande amigo”.