Há pessoas que acompanham a história pelos livros. Outras, pelas fotografias. José Alexandre teve um privilégio raro: assistiu às transformações do Porto de Santos acontecerem diante dos seus próprios olhos, navegando diariamente pelo estuário que ajudou a moldar sua vida e sua trajetória profissional.
Quando ele começou a trabalhar na região, ainda na década de 1960, o maior porto da América Latina operava em uma realidade completamente diferente da atual. Os navios permaneciam atracados por semanas, boa parte das operações era realizada manualmente e a paisagem portuária estava longe da complexidade que hoje caracteriza o complexo santista.
Sessenta anos depois, José – que é servidor aposentado da Prefeitura santista – continua cruzando as mesmas águas, agora cercado por terminais automatizados, embarcações gigantescas e uma movimentação de cargas que coloca Santos entre os principais portos do mundo.
“Em setembro do ano passado completei 60 anos aqui”, conta o empresário, em entrevista ao Diário durante um dos muitos “passeios” que ele comanda pelo canal.
Enquanto conversava com esta repórter, guiava a lancha com maestria e observava a movimentação do canal com a naturalidade de quem conhece cada curva, cada terminal e cada trecho do estuário. Não é exagero dizer que sua história se confunde com a do próprio porto.

Ao longo dessas seis décadas, José viu a cidade crescer, o comércio exterior brasileiro se expandir e o Porto de Santos se transformar em uma engrenagem fundamental para a economia nacional. Mais do que um observador, ele participou ativamente desse processo por meio da Fabiana Transportes Marítimos, empresa que se tornou referência em apoio portuário e transporte aquaviário na região.
Uma vida construída ao redor do porto
A ligação de José Alexandre com a Baixada Santista vem de família. Sua mãe nasceu no Guarujá, seus irmãos também, e diversos parentes tiveram a vida profissional ligada às atividades portuárias. O mar e o porto sempre estiveram presentes em sua rotina, muito antes de ele imaginar que dedicaria praticamente toda a sua vida ao estuário, já que o canal era a principal ligação entre a cidade em que morava e a cidade em que trabalhava.
Até sua chegada ao mundo guarda uma história curiosa. José é gêmeo de uma irmã e, segundo ele, o parto foi complicado porque o cordão umbilical não havia sido cortado após o nascimento dela. O problema dificultou sua chegada ao mundo e exigiu a intervenção de um médico chamado às pressas pela família.
Ao falar sobre o Porto de Santos, José não recorre a mapas ou registros históricos para se localizar. Ele aponta para os terminais, identifica estruturas inauguradas há décadas e relembra mudanças que poucos ainda conseguem recordar. Sua memória funciona como um arquivo vivo da evolução portuária da região.
Quando afirma que o porto é sua casa, não utiliza uma figura de linguagem. “Aqui é minha casa”, resume.
A frase ganha sentido quando se observa a quantidade de tempo que ele passou navegando pelo canal. Foram milhares de dias acompanhando chegadas e partidas de embarcações, observando obras, testemunhando modernizações e convivendo com gerações de trabalhadores que ajudaram a construir a história do complexo portuário.

O porto que mudou diante dos seus olhos
Entre as lembranças mais marcantes está a transformação operacional vivida pelo Porto de Santos ao longo das últimas décadas. Segundo José, a diferença entre o porto do passado e o atual é difícil até mesmo de dimensionar. “A mudança foi brutal”, afirma.
Ele recorda que, em décadas passadas, era comum que navios permanecessem longos períodos atracados para realizar operações de carga e descarga. A infraestrutura disponível era mais limitada, os equipamentos eram menos eficientes e grande parte das atividades dependia do trabalho manual.
Hoje, a realidade é completamente diferente. “Antigamente um navio ficava quarenta dias operando. Hoje ele fica quarenta e oito horas. Tudo é automatizado.”
A declaração ajuda a ilustrar a revolução silenciosa que ocorreu no complexo santista. O avanço tecnológico, a mecanização dos terminais e a profissionalização das operações transformaram o Porto de Santos em uma estrutura altamente especializada, capaz de movimentar volumes cada vez maiores de cargas em períodos significativamente menores.
José também acompanhou o surgimento de empreendimentos que hoje fazem parte da paisagem portuária. Um dos exemplos que cita é a inauguração do primeiro terminal químico da região, em 1984, marco importante para a expansão das atividades ligadas ao setor industrial e logístico.
Enquanto aponta para diferentes áreas do porto, ele relembra locais que permanecem praticamente inalterados ao longo do tempo, como a comunidade da Conceiçãozinha, que continua fazendo parte da paisagem observada diariamente por quem navega pelo canal.

A história da Fabiana Transportes Marítimos
Foi nesse ambiente de transformação constante que nasceu a Fabiana Transportes Marítimos, empresa que hoje integra a rotina operacional do Porto de Santos e cuja trajetória acompanha boa parte da modernização do complexo portuário.
Curiosamente, o nome da empresa surgiu de forma bastante simples. Durante o processo de regularização do negócio, José precisou buscar uma nova identidade para a companhia após o falecimento de um familiar cujo nome estava ligado à operação anterior. A solução estava atracada no cais: uma das embarcações da frota se chamava Fabiana. O nome agradou e acabou sendo adotado.
Com o passar dos anos, a empresa cresceu e consolidou sua presença no setor. Atualmente, a Fabiana Transportes Marítimos conta com 34 embarcações e aproximadamente 150 funcionários distribuídos entre as atividades de navegação e amarração de navios.
A atuação da empresa é fundamental para o funcionamento cotidiano do porto. Sempre que uma embarcação necessita de suporte, as equipes entram em ação para transportar tripulantes, entregar alimentação, óleo lubrificante, mantimentos e outros insumos necessários para a operação marítima.
Além disso, a companhia atua em um serviço pouco conhecido pelo público em geral, mas indispensável para a atividade portuária: a amarração de navios. Trata-se do trabalho realizado pelas equipes responsáveis por receber e fixar os cabos das embarcações nos pontos de atracação, garantindo a segurança durante as operações.
Ao longo dos anos, a empresa ampliou sua presença no complexo santista e, em 2022, reforçou sua posição ao vencer uma licitação para ocupação comercial de áreas destinadas ao apoio portuário e transporte aquaviário. A autorização garantiu duas décadas de operação, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período.
Histórias que ficaram nas águas do estuário
Embora a evolução do Porto esteja entre as lembranças mais marcantes, algumas das histórias que José guarda não aparecem em relatórios, estatísticas ou documentos oficiais.
Durante as décadas de 1970 e 1980, por exemplo, os protocolos de segurança eram muito diferentes dos atuais. Em uma época em que a estrutura de monitoramento ainda era limitada e as exigências de proteção eram menores, situações de emergência faziam parte da rotina de quem trabalhava no canal.
“Muitas vezes apareciam pessoas na água”, relembra. Nessas ocasiões, as embarcações que circulavam pelo estuário frequentemente assumiam a responsabilidade pelos primeiros socorros. Dependendo da situação, a equipe realizava o resgate diretamente ou acionava o Corpo de Bombeiros para o atendimento.
São episódios que ajudam a retratar um período em que o porto possuía uma dimensão menor, mas uma convivência muito mais próxima entre trabalhadores, comunidades e embarcações que circulavam diariamente pelo canal.
Um legado construído sobre a água
Ao observar os navios que cruzam o estuário atualmente, José Alexandre enxerga muito mais do que operações logísticas. Cada embarcação que passa carrega, de alguma forma, fragmentos de uma história que ele acompanhou desde o início.
Em seis décadas de convivência com o Porto de Santos, viu terminais surgirem, tecnologias substituírem antigos métodos de trabalho e empresas crescerem junto com o desenvolvimento do comércio marítimo brasileiro. Viu também a Fabiana Transportes Marítimos se consolidar como uma das referências do apoio portuário na região.
Por isso, quando fala sobre o porto, José não parece descrever apenas um local de trabalho. Fala de um espaço que se tornou parte da sua identidade.
Entre uma margem e outra do canal, acompanhando a passagem dos navios e as mudanças do tempo, ele construiu uma trajetória que ajuda a contar a própria história do Porto de Santos. Uma história que continua sendo escrita todos os dias, sobre as mesmas águas que há 60 anos ele chama de casa.
