Cotidiano
Com prejuízos bilionários e 26 invasores agressivos já identificados, Brasil lança plataforma para rastrear espécies que ameaçam de tartarugas a recifes de corais
Uma única ação de remoção do coral invasor conhecido como Coral-sol pode custar R$ 3.600,00 por dia / Keidy Beranger/Flickr
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Debaixo das águas cristalinas do litoral brasileiro, uma batalha invisível e extremamente cara está sendo travada. Longe de ser apenas um problema de poluição, o mar do Brasil enfrenta agora uma "bioinvasão" sem precedentes: são 175 espécies exóticas que viajaram em cascos de navios ou foram descartadas de aquários e agora ameaçam extinguir a vida nativa.
De corais australianos que dominam as rochas de Angra dos Reis a organismos que custam bilhões à economia, o avanço desses invasores acendeu um alerta vermelho para cientistas e autoridades, que correm contra o tempo para evitar um colapso nos ecossistemas marinhos.
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Dependendo das características do local e da própria espécie introduzida, o resultado pode ir além da simples adaptação e se transformar em um processo de bioinvasão, com consequências ambientais, econômicas e até para a saúde humana.
Os custos desse problema já são expressivos. Estimativas globais indicam que, entre 1970 e 2022, os gastos com manejo de espécies exóticas invasoras e os prejuízos associados alcançaram cerca de R$ 2,88 trilhões de dólares.
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No Brasil, os danos acumulados entre 1984 e 2019 chegaram a R$ 104,33 bilhões de dólares.
No ambiente marinho, ainda não há cálculos consolidados sobre os custos totais no país. No entanto, uma única ação de remoção do coral invasor conhecido como Coral-sol pode custar R$ 3.600,00 por dia, valor que evidencia o peso financeiro de operações que precisam ser contínuas para surtir efeito.
Com cerca de 8 mil quilômetros de litoral e uma diversidade de ambientes que vão de recifes de corais a manguezais, marismas, estuários, lagoas e ilhas oceânicas, o Brasil ocupa posição estratégica como doador e receptor de espécies marinhas.
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Essa variedade de ecossistemas, somada ao intenso fluxo marítimo, amplia as possibilidades de introdução de organismos vindos de outras regiões.
Embarcações e estruturas móveis funcionam como vetores. A água de lastro utilizada por navios para manter estabilidade durante a navegação pode transportar organismos de um porto a outro.
Cascos de navios, plataformas de petróleo, boias submersas, lixo marinho e até a abertura de canais de navegação também servem de suporte para espécies que liberam larvas ao longo do trajeto.
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Em 2019, um levantamento do Laboratório de Ecologia Marinha Bêntica da Uerj apontava 138 espécies marinhas não nativas registradas no país.
A maior parte havia sido introduzida no Sudeste e já estava presente nos 17 estados costeiros. Entre elas, estavam gastrópodes, crustáceos, acídias, poliquetas, corais, peixes e organismos do plâncton.
Naquele momento, pesquisadores destacavam a ausência de um banco de dados nacional específico como uma fragilidade no enfrentamento da bioinvasão.
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Seis anos depois, o cenário apresenta avanços e preocupações. O Brasil passou a contar com a Plataforma Brasileira de Bioinvasão, que reúne registros de espécies exóticas invasoras marinhas e permite que a sociedade contribua com notificações analisadas por especialistas.
Apesar da iniciativa, o número de ocorrências aumentou. Hoje, o litoral brasileiro registra 175 espécies exóticas.
Considerando dados mais amplos da plataforma, o total chega a 339, incluindo espécies criptogênicas, cuja origem não é totalmente conhecida, e espécies contidas, restritas a cativeiro ou cultivo.
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Também cresceu o número de invasores efetivos, aqueles que provocam impactos mensuráveis no meio ambiente, em atividades socioeconômicas ou na saúde humana. Em seis anos, os registros passaram de 19 para 26.
A maior parte é composta por antozoários, grupo que inclui corais e organismos aparentados às águas-vivas, mas que permanecem fixos no fundo do mar.
O comércio de aquários surge como outra via de introdução. Um exemplo é o coral mole azul Latissimia ningalooensis, nativo da Austrália, descartado em um costão rochoso de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro.
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Em oito anos, a espécie ampliou sua área de distribuição, alcançou uma ilha dentro de unidade de conservação e, em alguns pontos, tornou-se dominante, ocupando espaços antes preenchidos por espécies nativas como o coral babão Palythoa caribaeorum e a alga Sargassum, importante fonte de alimento para tartarugas marinhas.
O avanço das introduções evidencia um crescimento contínuo do problema. Embora o país conte hoje com instrumentos como a Plataforma Brasileira de Bioinvasão e a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, especialistas apontam que os mecanismos regulatórios ainda são considerados superficiais e que as ações de enfrentamento permanecem caras e pontuais.
A adoção de estratégias integradas entre estados, municípios e governo federal é vista como essencial para ampliar a eficácia das medidas.
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Também é destacada a necessidade de engajamento de diferentes setores da sociedade, além de investimentos em recursos financeiros, qualificação profissional e infraestrutura para prevenção, detecção precoce e resposta rápida.
No caso das espécies invasoras, a lógica se aproxima da área da saúde pública: prevenir continua sendo mais eficiente e menos oneroso do que lidar com os danos já instalados.