Cotidiano
Pesquisa no Journal of Hazardous Materials mostra que zooplâncton ingere resíduos e os transporta para as profundezas, prejudicando o sequestro de CO2
O zooplâncton ingere esses resíduos ininterruptamente, 24 horas por dia / Pexels/Francesco Ungaro
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O que aconteceria se um dos principais elos da vida marinha se tornasse um distribuidor de poluentes? Um estudo publicado no Journal of Hazardous Materials confirma que esse cenário já é realidade.
Os copépodes, minúsculos crustáceos considerados o zooplâncton mais abundante do planeta, estão transportando centenas de partículas de microplástico da superfície para as profundezas.
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A pesquisa conseguiu registrar, pela primeira vez em tempo real, a dinâmica desse processo: o poluente permanece cerca de 40 minutos no trato digestivo do animal antes de ser eliminado.
O problema reside na forma como esse material é expelido. Ao sair dentro de pelotas fecais densas e pesadas, o microplástico ganha uma espécie de passagem só de ida para o leito marinho.
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Embora o processo acabe limpando a superfície, ele polui sedimentos profundos onde a luz não chega, tornando a remoção do lixo virtualmente impossível. De acordo com a coautora do estudo, Valentina Fagiano, o zooplâncton ingere esses resíduos ininterruptamente, 24 horas por dia.
Os copépodes ocupam a base da cadeia alimentar / Brandon Antonio Segura Torres & Priscilla Vieto Bonilla/Wikimedia CommonsOs copépodes ocupam a base da cadeia alimentar e são frequentemente chamados de insetos dos mares devido à sua imensa população.
No Canal da Mancha, por exemplo, estima-se que esses organismos transportem 271 partículas de microplástico por metro cúbico de água diariamente para as camadas abissais.
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Esse mecanismo transforma as fezes, que deveriam ser uma fonte vital de nutrientes para larvas de peixes e seres do fundo do mar, em veículos prejudiciais que realimentam toda a teia alimentar com poluição.
Além da poluição física, o estudo indica uma ameaça climática severa. Os microplásticos estão interferindo na chamada bomba biológica de carbono, o processo natural pelo qual o oceano retira CO da atmosfera e o armazena nas profundezas.
Segundo o Dr. Ihsanullah Obaidullah, professor da Universidade de Sharjah, os resíduos afetam o metabolismo do zooplâncton e a produtividade do fitoplâncton, enfraquecendo esse escudo natural contra o aquecimento global.
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Outro gargalo identificado pelos pesquisadores é o desenvolvimento da plastisfera, comunidades microbianas que crescem sobre as partículas plásticas.
À medida que esses materiais se degradam no oceano, podem emitir gases de efeito estufa, agravando ainda mais as mudanças climáticas.
Obaidullah revelou à Oceanographic Magazine que, com o tempo, essas alterações podem levar à acidificação das águas e à perda de biodiversidade, ameaçando a segurança alimentar global.
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Para Valentina Fagiano, os resultados da pesquisa são fundamentais para prever onde os microplásticos vão parar e quais espécies estão mais expostas.
O artigo deixa uma lição clara sobre a interconectividade dos oceanos: as ações individuais de minúsculos animais podem, coletivamente, provocar mudanças drásticas em nível ecossistêmico, comprometendo o maior sumidouro de carbono do planeta.