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Pedrinho (nome fictício) não tinha mais do que sete anos. No meio do entra e sai de moradores, carregando restos de móveis e eletrodomésticos numa das vielas escuras e mal cuidadas, ele chorava copiosamente. Nas mãos, dois sacos plásticos — um com poucas roupas e o outro com alguns brinquedos — tudo que restou de seu barraco, totalmente destruído pelo fogo devastador que dizimou mais de 200 palafitas sobre o mangue de Favela México 70, em São Vicente, na madrugada de ontem.
Pedrinho pouco levantava a cabeça e, quando o fez, seu olhar, inundado por lágrimas, era o retrato da desolação. Ele mal conseguia se mexer. Ao seu lado, uma menina mais nova, certamente sua vizinha, gritava desesperadamente: “o moço da Prefeitura disse para não pegar brinquedo e sair rápido daqui”.
Pedrinho chegou a virar o rosto para a amiga em um dos poucos segundos que conseguiu se livrar do choque. Porém, sem mudar uma linha sequer de expressão, voltou o olhar para o resto que sobrou do incêndio, que começou por volta das 3h30, certamente por conta de um curto circuito, segundo dois agentes da Polícia Científica. “Será muito difícil descobrir a causa em função da destruição. Há diversos focos de incêndio”, revelou um dos policiais que não quis se identificar.
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A cerca de 10 metros do local onde estava o menino, a visão era aterradora: aproximadamente 7 mil metros quadrados de madeiras queimadas e, no meio da fumaça e destroços, dezenas de crianças, como o pequeno Pedrinho, junto com os pais, literalmente, garimpando roupas, documentos e objetos pessoais. Recuperar mais do que isso seria um verdadeiro milagre.
Na Avenida Brasil, onde começam os barracos que chegam até a maré e se estendem entre as pontes do Mar Pequeno e Barreiros, dezenas de pessoas se acomodavam como podiam, sobre móveis e pilhas de eletrodomésticos, como geladeiras, máquinas de lavar e fogões.
“Eu acredito que cerca de 800 pessoas perderam tudo. Não há como recuperar os barracos e nem condições de morar aqui. O que mais dificultou a nossa ação e a dos bombeiros foi a largura das vielas. Tivemos que quebrar alguns barracos para tirar as pessoas, que estão sendo cadastradas e deverão ser encaminhadas para um abrigo”, disse, na manhã de ontem, o agente da Defesa Civil de São Vicente, Ariston Souza de Jesus.
Cerca de 100 funcionários públicos de diversas áreas, principalmente social e saúde, bombeiros (mais de 10 viaturas) e voluntários estavam no local para amparar as vítimas do incêndio que durou cerca de duas horas e, por sorte, não deixou vítimas fatais. “Eu moro aqui há anos e nunca vi uma situação como essa. Por sorte, eu estava acordada e consegui salvar meus filhos”, disse Julia Regina da Silva, mãe de cinco filhos e grávida do sexto. Nada sobrou de seu barraco.
Enoque de Jesus Cajuí conseguiu ajudar muita gente. “Eu acordei com os gritos e pânico total. Eu e meus vizinhos nos preocupamos em salvar vidas. Fomos acordando e tirando as pessoas das casas. Bens materiais nós deixamos de lado. O fogo veio da beira do mangue para a Avenida Brasil. Não há como evitar incêndio em função dos ‘gatos’ (redes elétricas clandestinas). Estamos nas mãos de Deus”.
Sérgio Silva do Bonfim morava sozinho e contou com a família no momento do incêndio que, por metros, não atingiu sua residência. “O vento estava trazendo o fogo para a minha casa. Desesperadamente, tiramos tudo de dentro e, graças a Deus, não fiquei desamparado”, afirma, completando em tom de desabafo: “estamos para sair daqui desde o ano passado, sob a promessa de moradias populares. Até agora, só houve recadastramentos. O Governo Federal já encaminhou verba e até hoje nada”, disse o rapaz.
Desaparecida
Durante toda a operação de resgate das famílias, a preocupação girava em torno de uma jovem grávida de sete meses, conhecida por Driele Ladina, de 27 anos, e suas duas filhas — uma de três e outra de seis anos. A família não foi encontrada no que restou do barraco que habitava. “Já procuramos no hospital e em todos os lugares e nenhuma notícia dela e das crianças. Os bombeiros só encontraram fotos”, disse Juliana Rodrigues de Queiroz, comadre de Driele. Até as 18 horas de ontem, não havia notícia da família.
Segundo contaram alguns moradores, mesmo no momento difícil, houve quem se aproveitou da situação. “Muitos barracos que não foram queimados foram saqueados após serem desocupados pelas famílias com medo do incêndio. Pegavam televisão, DVDs, máquinas fotográficas e celulares. Um horror!”, disse uma senhora que acompanhava o martírio dos vizinhos.
Situação da favela e das famílias
Atualmente, mais de duas mil famílias moram na México 70. Um projeto do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) pretendia extinguir a favela até o ano passado, transferindo parte das pessoas para conjuntos habitacionais e realizando regularização fundiária e urbanização das áreas para aqueles que deveriam permanecer no local.
Com relação ao incêndio de ontem, as famílias que ficaram desabrigadas foram encaminhadas para a Escola Municipal Lúcio Martins Rodrigues, na Vila Margarida. Os alunos da escola não tiveram aula ontem, nem hoje e talvez amanhã, mas segundo a Secretaria de Educação, as mesmas serão repostas.
A Prefeitura fará um cadastro das pessoas para incluí-las em programas habitacionais. Parte dos moradores da Favela do México 70 também está se dirigindo para a casa de parentes. Técnicos da assistência social estão fazendo um levantamento das necessidades emergenciais das famílias. Somente após o cadastro será informado o número oficial de pessoas atingidas.
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Doações
A Prefeitura está arrecadando roupas, cobertores, alimentos não perecíveis, leite, produtos de higiene, equipamentos e fraldas descartáveis. Os postos são: Fundo Social de Solidariedade de São Vicente, à Rua Benedito Calixto, 205 - Boa Vista; Escola Professor Lúcio Martins Rodrigues (Rua Odair Miller Marques, 434, México 70) e na Associação dos Mototaxistas de São Vicente (Rua Tenente Durval do Amaral, 664, Catiapoã, telefone: 3466-6330). Outras informações de doações pelos telefones: 3467-9118/ 3468-3201/3466-9089.
A deputada estadual Telma de Souza (PT) disponibilizou seus escritórios políticos e a sede de seu Espaço Cultural, em Santos, para ajudar na campanha de arrecadação. A campanha SOS México 70 recebe doações em três endereços: Avenida Afonso Pena, 123 (Macuco) e Avenida Santo Antônio do Valongo, 383 (Morro São Bento). O Espaço Cultural Telma de Souza fica na Avenida Álvaro Guimarães, nº 396, (Jardim Rádio Clube, na Zona Noroeste).
O prefeito Luís Claudio Bili (PP) disse estar fazendo o levantamento de quantas pessoas ficaram desabrigadas. De acordo com ele, mesmo as famílias que não estão cadastradas em programas sociais serão atendidas. Bili disse ainda que campanhas de ajuda aos desabrigados estão sendo projetadas.
Ontem, o secretário de Habitação de São Vicente, Emerson Santos, disse que estão sendo construídas 200 moradias, no bairro Jardim Rio Branco, com previsão de entrega em junho. Até o final do ano, mais 400 habitações devem estar concluídas no bairro e mais 200 atrás do Centro de Convenções, próximo à favela.