Cotidiano

Importações de tilápia superam exportações brasileiras pela primeira vez na história e acende alerta

Mesmo com produção recorde no Brasil, filé importado chega com preços agressivos e gera crise na competitividade do setor

Nathalia Alves

Publicado em 11/04/2026 às 20:05

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Com preços mais competitivos e carga tributária menor, o filé vietnamita avança no mercado brasileiro e ameaça uma cadeia produtiva que cresceu 28% em Minas Gerais no último ano / Reprodução/Pexels

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Pela primeira vez desde 1997, o estado de Minas Gerais registrou a compra de tilápia importada. O que, à primeira vista, parece um movimento comercial rotineiro, revela, na verdade, uma crise de competitividade na piscicultura mineira e acende um alerta em todo o país.

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Em fevereiro de 2026, foram adquiridas 122 toneladas do Vietnã, segundo dados do Comex Stat, o primeiro registro da série histórica no estado.

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O movimento acompanha uma tendência nacional já que no mesmo período, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé de tilápia do país asiático, volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Pela primeira vez, as importações superaram as exportações, passando a representar 6,5% da produção mensal brasileira.

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Minas Gerais cresceu 28% na produção de tilápia em um único ano e ocupa hoje a terceira posição no ranking nacional. Mesmo assim, o estado registrou em fevereiro de 2026 a primeira compra do peixe importado desde 1997  um sinal de que produzir bem não é suficiente quando a concorrência chega com custos menores/Pexels
Minas Gerais cresceu 28% na produção de tilápia em um único ano e ocupa hoje a terceira posição no ranking nacional. Mesmo assim, o estado registrou em fevereiro de 2026 a primeira compra do peixe importado desde 1997 um sinal de que produzir bem não é suficiente quando a concorrência chega com custos menores/Pexels
O filé vietnamita chega ao mercado brasileiro com preço mais competitivo, fruto de produção em larga escala e custos operacionais reduzidos. Em fevereiro de 2026, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas do produto  volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo/Pexels
O filé vietnamita chega ao mercado brasileiro com preço mais competitivo, fruto de produção em larga escala e custos operacionais reduzidos. Em fevereiro de 2026, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas do produto volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo/Pexels

Enquanto o produtor mineiro paga ICMS sobre cada quilo de tilápia comercializado, o filé importado do Vietnã entra no estado sem a mesma carga tributária. Para quem vive da piscicultura, a sensação é de que o mercado pune quem produz localmente/Pexels
Enquanto o produtor mineiro paga ICMS sobre cada quilo de tilápia comercializado, o filé importado do Vietnã entra no estado sem a mesma carga tributária. Para quem vive da piscicultura, a sensação é de que o mercado pune quem produz localmente/Pexels
Pela primeira vez na série histórica, as importações brasileiras de tilápia superaram as exportações  representando 6,5% da produção mensal do país. O dado acende um alerta sobre os riscos sanitários, tributários e competitivos que o setor enfrenta diante da entrada do pescado vietnamita/Pexels
Pela primeira vez na série histórica, as importações brasileiras de tilápia superaram as exportações representando 6,5% da produção mensal do país. O dado acende um alerta sobre os riscos sanitários, tributários e competitivos que o setor enfrenta diante da entrada do pescado vietnamita/Pexels

Contradição econômica

Segundo a analista de agronegócios do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, o dado chama a atenção porque Minas Gerais vem se consolidando como um dos principais polos da piscicultura no país, com expansão acima da média nacional.

Especialistas afirmam que a importação não está ligada à falta de oferta interna, mas a fatores econômicos. O filé vietnamita chega ao mercado com preços mais competitivos, fruto da produção em larga escala e custos operacionais reduzidos.

O cenário exige atenção, já que a entrada do produto estrangeiro afeta diretamente a cadeia produtiva estadual.

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Produção em alta, mas sob pressão

Apesar do avanço das importações, a produção nacional segue em crescimento. Dados do IBGE mostram que o Brasil produziu 442 mil toneladas em 2023, saltando para 499 mil toneladas em 2024 (alta de 12,8%).

Em Minas Gerais, o salto foi ainda mais expressivo: a produção subiu de 45,5 mil para 58,4 mil toneladas no mesmo período, um aumento de 28%. Atualmente, o estado responde por 11,7% da produção nacional, ocupando a terceira posição no ranking, atrás de Paraná e São Paulo.

O setor mineiro tem ampliado investimentos em tecnologia, genética e nutrição. No entanto, produtores apontam os impactos da concorrência externa. Segundo o produtor Carlos Junior de Faria Ribeiro, em entrevista ao Canal Rural, estados como Paraná, Santa Catarina e São Paulo já adotaram medidas de proteção.

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Segundo Ribeiro, enquanto a indústria e o produto mineiro arcam com o pagamento do ICMS, o filé vindo do Vietnã entra no estado sem a mesma carga tributária.

Ele avalia que, na prática, Minas Gerais acaba por subsidiar o produtor estrangeiro em vez de priorizar o fortalecimento de quem produz localmente.

Riscos sanitários e regulatórios

A biosseguridade é outra preocupação central. A entrada de pescados importados eleva o risco de introdução de doenças exóticas, como o vírus da tilápia do lago (TiLV). O Brasil é considerado livre da enfermidade, e uma eventual contaminação causaria prejuízos bilionários.

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Além disso, há um debate regulatório em curso, a possível classificação da tilápia como espécie exótica invasora. Em 2025, a discussão avançou na Comissão Nacional de Biodiversidade, mas a revisão da lista foi suspensa para reavaliação de critérios.

No setor, a avaliação é de que o cenário atual pode frear investimentos, prejudicar especialmente os pequenos produtores e comprometer a competitividade do Brasil no mercado internacional de pescados.

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