Com preços mais competitivos e carga tributária menor, o filé vietnamita avança no mercado brasileiro e ameaça uma cadeia produtiva que cresceu 28% em Minas Gerais no último ano / Reprodução/Pexels
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Pela primeira vez desde 1997, o estado de Minas Gerais registrou a compra de tilápia importada. O que, à primeira vista, parece um movimento comercial rotineiro, revela, na verdade, uma crise de competitividade na piscicultura mineira e acende um alerta em todo o país.
Em fevereiro de 2026, foram adquiridas 122 toneladas do Vietnã, segundo dados do Comex Stat, o primeiro registro da série histórica no estado.
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O movimento acompanha uma tendência nacional já que no mesmo período, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé de tilápia do país asiático, volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Pela primeira vez, as importações superaram as exportações, passando a representar 6,5% da produção mensal brasileira.
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Segundo a analista de agronegócios do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, o dado chama a atenção porque Minas Gerais vem se consolidando como um dos principais polos da piscicultura no país, com expansão acima da média nacional.
Especialistas afirmam que a importação não está ligada à falta de oferta interna, mas a fatores econômicos. O filé vietnamita chega ao mercado com preços mais competitivos, fruto da produção em larga escala e custos operacionais reduzidos.
O cenário exige atenção, já que a entrada do produto estrangeiro afeta diretamente a cadeia produtiva estadual.
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Apesar do avanço das importações, a produção nacional segue em crescimento. Dados do IBGE mostram que o Brasil produziu 442 mil toneladas em 2023, saltando para 499 mil toneladas em 2024 (alta de 12,8%).
Em Minas Gerais, o salto foi ainda mais expressivo: a produção subiu de 45,5 mil para 58,4 mil toneladas no mesmo período, um aumento de 28%. Atualmente, o estado responde por 11,7% da produção nacional, ocupando a terceira posição no ranking, atrás de Paraná e São Paulo.
O setor mineiro tem ampliado investimentos em tecnologia, genética e nutrição. No entanto, produtores apontam os impactos da concorrência externa. Segundo o produtor Carlos Junior de Faria Ribeiro, em entrevista ao Canal Rural, estados como Paraná, Santa Catarina e São Paulo já adotaram medidas de proteção.
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Segundo Ribeiro, enquanto a indústria e o produto mineiro arcam com o pagamento do ICMS, o filé vindo do Vietnã entra no estado sem a mesma carga tributária.
Ele avalia que, na prática, Minas Gerais acaba por subsidiar o produtor estrangeiro em vez de priorizar o fortalecimento de quem produz localmente.
A biosseguridade é outra preocupação central. A entrada de pescados importados eleva o risco de introdução de doenças exóticas, como o vírus da tilápia do lago (TiLV). O Brasil é considerado livre da enfermidade, e uma eventual contaminação causaria prejuízos bilionários.
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Além disso, há um debate regulatório em curso, a possível classificação da tilápia como espécie exótica invasora. Em 2025, a discussão avançou na Comissão Nacional de Biodiversidade, mas a revisão da lista foi suspensa para reavaliação de critérios.
No setor, a avaliação é de que o cenário atual pode frear investimentos, prejudicar especialmente os pequenos produtores e comprometer a competitividade do Brasil no mercado internacional de pescados.