Ilha carioca tem 700 gatos abandonados e vira ameaça fatal para golfinhos

Superpopulação de felinos na Ilha Furtada mobiliza Fiocruz e universidades após cientistas identificarem a circulação de parasita

Gatos abandonados em ilha localizada no Rio de Janeiro

A Ilha Furtada abriga uma população estimada em mais de 700 gatos/Diego Lara/Território Audiovisual

A Ilha Furtada, localizada entre Mangaratiba e Angra dos Reis, virou alvo de preocupação devido ao abandono de mais de 700 felinos. A região, conhecida como “Ilha dos Gatos“, mobilizou pesquisadores, autoridades e organizações ambientais diante dos possíveis impactos para a fauna marinha e a saúde pública.

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Segundo moradores da região fluminense, o abandono dos animais teria começado ainda nos anos 1950, quando os primeiros gatos foram deixados no local. Desde então, o problema se agravou e deu origem a uma população que cresce em um ambiente sem fontes naturais de água doce e sem condições adequadas para sustentar tantos animais.

Os gatos dependem da ajuda de voluntários e organizações de proteção animal para sobreviver. Grupos da sociedade civil realizam ações frequentes para fornecer alimento, água e assistência veterinária, além de resgatar animais doentes ou feridos encontrados na ilha fluminense.

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Confira algumas curiosidades sobre o comportamento dos gatos

Projeto reúne cientistas para investigar impactos

A superpopulação felina levantou preocupações que ultrapassam a questão do bem-estar animal. Em março deste ano, a situação da Ilha Furtada foi tema de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

A partir das discussões, foi criada uma força-tarefa envolvendo a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), o Instituto Boto Cinza e a Prefeitura de Mangaratiba.

O grupo desenvolve o projeto “Uma Só Saúde na Ilha Furtada”, iniciativa que busca compreender os efeitos da presença massiva de gatos sobre o ecossistema local e identificar possíveis riscos para animais silvestres e seres humanos.

A proposta segue o conceito conhecido como “One Health” ou “Uma Só Saúde”, que considera a saúde humana, animal e ambiental como elementos interligados. Segundo os pesquisadores, a realidade da ilha exemplifica como problemas restritos ao abandono de animais podem gerar consequências amplas para o ambiente ao redor.

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Parasita da toxoplasmose acende alerta

Uma das principais preocupações está relacionada ao protozoário Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose. Os pesquisadores da UFRRJ identificaram anticorpos contra o parasita em 40% dos gatos analisados na ilha. O resultado foi publicado na revista científica internacional EcoHealth e abriu novas investigações sobre a circulação do agente infeccioso na região.

A toxoplasmose é uma doença relativamente comum e, em muitos casos, não provoca sintomas. No entanto, pode representar riscos mais significativos para gestantes e pessoas imunossuprimidas.

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Apesar disso, o problema está no fato de que gatos infectados eliminam oocistos (estruturas microscópicas do parasita) por meio das fezes. Em períodos de chuva, o material pode ser carregado para o solo e alcançar áreas costeiras.

Uma vez no ambiente marinho, os oocistos podem contaminar organismos filtradores, como ostras e mexilhões, que posteriormente podem ser consumidos por seres humanos.

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Especialistas ressaltam que a transmissão da doença não ocorre pelo simples contato com os gatos. O risco está associado principalmente ao contato com fezes contaminadas ou ao consumo de alimentos contaminados pelo parasita.

Golfinhos também estão sob monitoramento

A preocupação dos pesquisadores não se limita aos seres humanos. O Instituto Boto Cinza, que acompanha populações de mamíferos marinhos na Costa Verde, investiga possíveis impactos do parasita sobre espécies que vivem na região.

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Estudos realizados após episódios de mortalidade de golfinhos na Baía de Sepetiba identificaram casos de toxoplasmose em parte dos animais. Embora ainda não exista comprovação de ligação, os pesquisadores buscam entender se a Ilha Furtada pode contribuir para a disseminação do parasita no ambiente marinho.

A hipótese ainda está em investigação, já que outras fontes de contaminação, como o lançamento de esgoto nos rios e baías da região, também podem desempenhar papel importante neste processo.

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Abandono de animais está na origem do problema

Pesquisadores e defensores da causa animal lamentam o abandono dos felinos domésticos na Ilha Furtada. Os gatos encontrados no local são considerados vítimas de uma prática que se perpetuou por décadas.

Muitos dos animais foram deixados na região fluminense, enquanto outros nasceram ali e passaram a integrar uma população sem controle reprodutivo. A situação parece não ter controle ambiental.

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Especialistas alertam que a retirada dos gatos não resolveria os riscos ambientais, porque os oocistos do parasita podem permanecer viáveis no ambiente por meses ou até anos, exigindo monitoramento contínuo.

Região controlada pela União

A Ilha Furtada foi retomada pela União em meados de 2024 após processos judiciais. A região fluminense passou a contar com legislação municipal específica voltada ao manejo da população felina e ao endurecimento das punições para casos de abandono de animais.