Homem pede emprego em semáforo há cinco meses enquanto vende balas em Santos

A decisão de Nei Roberto Alves Júnior, 36 anos, veio após ser xingado repetidamente por um motorista que passava por onde ele vende balas quase todo dia

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13 MAI 2019Por Vanessa Pimentel07h00
Homem mora há um ano e meio no Centro da cidade, em um quartinho sem janelas, com um gatoFoto: Nair Bueno/DL

Nei Roberto Alves Júnior, 36 anos, se espanta ao ouvir a pergunta se seu nome é escrito com i ou y. "Nunca me perguntaram isso. Tenho até documento escrito errado", conta. Nascido em Santos, foi embora ainda jovem para São Paulo, cidade onde ficou por 14 anos, para fugir dos maus-tratos da mãe alcoólatra. Sem escolaridade, trabalhou como auxiliar de serviços gerais e fez "bicos" para se sustentar.

E se a vida tem muitos caminhos, em um deles Nei se deparou com o crack, droga barata e extremamente viciante que encontra morada, na maioria das vezes, em gente como Nei: solitária e de passado doloroso.

Não bastasse o vício, descobriu que contraiu o vírus HIV. Ele diz que não faz tratamento, prefere lidar com a doença do jeito que ela é. Fisicamente, a enfermidade se mostra presente apenas pelo baixo peso.

Nei conta sua história com algumas interrupções enquanto raciocina. Vez ou outra costura trechos que não fazem sentido em ordem cronológica, mas devem ter acontecido em algum momento da vida, visto a clareza de detalhes.

Para se livrar do vício passou por clínicas de reabilitação e, entre idas e vindas, sentiu vontade de voltar para casa. A mãe já não está mais viva, morreu um mês depois que decidiu parar de beber.

Há um ano e meio Nei está em Santos. Mora no Centro da cidade, em um quartinho sem janelas, com um gato e um rato. "Lá é tão pequeno, escuro e fechado, que até os bichos cansam de ficar ali. Então, de vez em quando, eu trago um ou outro pra trabalhar comigo".

O trabalho atual é vender balas em um semáforo que fica entre a Avenida Francisco Glicério e a Washington Luiz. "Queria vender água também, mas ainda não consegui o dinheiro para comprar o gelo", explica.

De real em real ele, geralmente, consegue os R$ 30 para pagar a diária do quartinho onde mora, mais a janta dele e dos animais.

Pedido de emprego

Há cinco meses Nei expõe no semáforo, além das balas, placas pedindo emprego. A decisão veio após ser xingado repetidamente por um motorista que passava por ali quase todo dia.

"Ele parava e falava: 'vai trabalhar, (xingamento). Qualquer hora vou passar aqui e meter bala na sua cara'. Fiz a placa pra mostrar pra ele que estou trabalhando e procurando emprego. Ele viu as placas e não xingou mais, mas também não ofereceu emprego. É fácil falar", conta.

O motorista sem empatia faz coro aos que sabem julgar, mas ainda não aprenderam as várias formas de ajudar. Enquanto isso, Nei destaca que aprende rápido qualquer serviço. O possível candidato atende pelo telefone (13) 99167-4481.
 

 

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