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História da Igreja Matriz de São Vicente retrata fundação da primeira vila do Brasil

Com túmulos, imagens e arquitetura a matriz da cidade é retrato de hábitos e costumes dos séculos passados

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28 FEV 2018Por Da Reportagem19h01
A Igreja Matriz é um dos pontos turísticos mais antigos da cidadeFoto: Divulgação/PMSV

A Igreja Matriz de São Vicente Mártir é um dos pontos turísticos mais antigos da cidade. Inaugurada em 1757, traz em sua estruturamarcas de resistência e renovação preservando itens religiosos e históricos, que remetem aos primórdios da primeira vila do País. O prédio atual (Praça João Pessoa, s/nº) é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) e abriga acervo de imagens sacras e lápides de personalidades religiosas e cidadãos comuns.

Em 1532, a mando de Martim Afonso de Sousa, a primeira Igreja Matriz em solo brasileiro foi construída, recebendo o nome de NossaSenhora da Assunção. Entretanto, em 1542, uma grande ressaca destruiu o prédio e boa parte da primeira vila. A população cobrou de Pedro Colaço, procurador da Casa do Conselho, que fossem retirados do mar o pelourinho e os sinos da antiga edificação. Os itens foram encontrados em 1545 eestãono Museu Paulista (do Ipiranga), atualmente fechado para visitação.

Somente em 1559 uma nova Matriz foi construída – mais afastada do mar –onde hoje se encontra a Praça João Pessoa. A comprovação histórica dessa segunda edificação foi possível graças à inscrição talhada em uma pedraencontrada em 1880, durante escavaçõesno entorno da construção da atual igreja. O frontispíciotambém se encontra no Museu Paulista.

Alguns anos depois, a igreja sofreu dois grandes ataques de corsários: em 1583, pelo inglês Thomas Cavendish; e em 1615, pelo holandês Joris Van Spielbergen, que atacou São Vicente e Santos, deixando a igreja totalmente devastada. O Bispo Dom Antônio de Madre de Deus ordenou a demolição das ruínas do prédio, em 1756. Neste período, teve início a construção da terceira e atual Matriz, inaugurada em 1759.

Reformas

Com o passar do tempo, a igreja sofreu várias modificações com obras e reparos. Em 2000, um incêndio destruiu a edificação. Conforme o historiador Marcos Braga, o incidente resultou em uma decisão importante. “Por uma questão de autenticidade histórica decidiram não recriar a Matriz e, sim, deixá-la mais simples. Foi um problema, porque as pessoas se viam representadas emocionalmente naquela igreja com muitos ornamentos”.

Apesar disso, alguns itens históricos ainda estão presentes, como a imagem de barro cozido de Santo Antônio, vinda da extinta paróquia com o nome do santo. Também se encontra na Matriz a imagem de Nossa Senhora do Rosário, originada no século XVIII.

Lápides

Outra curiosidade no local são as lápides que remetem ao Século XIX. Segundo Braga,este era um costume da época.  “As pessoas com posses eram enterradas dentro das igrejas ou ao seu redor. Então, quem tinha ligação com o padroeiro daquela igreja ou comunidade, era enterrado lá”.

A Matriz de São Vicente possui em seu interior quatro lápides identificadas em exposição. As sepulturas foram descobertas ao longo das obras de revitalização da igreja em 2002.

As lápides pertencem a Paulo Freire de Andrade, citado como“chefe da esquadra”;D.FlorisbellaMa. Fogaça de Araujo, sem descrição; Pe. Manuel D’ascenção Costa,ex-pároco da Matriz; e B. J. Vianna Fº, uma criança que sequer completou um ano de vida.

Segundo Marcos Braga,outras ossadas foram encontradas durante obras e escavações da igreja, mas sem lápides. Naquela época, somente pessoas com dinheiro e posses conseguiam ser enterradas dentro da igreja e estas lápides eram caras para serem feitas.

Os séculos se passaram e a visão sobre a morte também foi alterada. Atualmente,é comum as pessoas terem receios ou não gostarem das lápides da igreja.  “As pessoas, ao se casarem, escolhem cobrir os túmulos presentes no piso da Igreja”, cita Marcos Braga.

O mártir

São Vicente Mártir, santo espanhol da cidade de Huesca, sofreu perseguições do império espanhol de Diocleciano enquanto era diácono, sofrendo torturas.

De acordo com o padre Renan Fonseca, pároco da Matriz há dois anos, o santo teve seu corpo mutilado e jogado ao mar, mas seu corpo reaparece trazido pelas ondas. “Ele foi escolhido como padroeiro da paróquia de São Vicente após pedido da população, passando de Igreja Nossa Senhora da Assunção para receber o nome de São Vicente”.

Por ser espanhol, São Vicente Mártir é padroeiro de apenas duas igrejas brasileiras: uma localizada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, enquanto a mais antiga é a Matriz vicentina.