História ameaçada: Santuário do Valongo sob risco de extinção

Arqueólogo vai pedir ao Ministério Público para embargar as obras da Petrobras por, entre outras coisas, desrespeitar limites legais de patrimônio tombado

A construção da nova sede da Unidade de Exploração e Produção de Gás e Petróleo da Bacia de Santos, da Petrobras, deverá acabar com todo o acervo histórico, arquitetônico e arqueológico do Valongo – um dos bairros mais antigo de Santos, que remonta um santuário cuja pedra fundamental foi assentada em julho de 1640 – quase 375 anos atrás.

A informação em tom de denúncia é do arqueólogo-professor-doutor Manoel Mateus Bueno Gonzalez, diretor do Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas, responsável por um amplo trabalho de pesquisa de pelo menos uma década. “Eu tenho um projeto chamado Mapeamento do Centro Expandido de Santos que, em 2004, registrou a existência de um sítio arqueológico no Santuário do Valongo”, afirma Gonzalez, primeiro arqueólogo a estudar o subsolo da área do santuário.

O arqueólogo afirma que vai entrar com uma ação junto ao Ministério Público no sentido de exigir o embargo das obras da Petrobras. “Não só pelos prejuízos arqueológicos como também os arquitetônicos”, ressalta Gonzalez, alertando que não foram respeitados nem os limites para construções próximas a prédios tombados, que são de 300 metros.

Segundo Gonzalez, as obras já iniciaram uma verdadeira destruição ao cortar ao meio um galpão histórico, que possuía telhas francesas, material semelhante apenas encontrado na Hospedaria dos Imigrantes, localizado na Rua Silva Jardim, nº 95, que será recuperada pelo Governo do Estado.

“Atrás e no entorno da Igreja do Valongo eu encontrei cemitérios (primeiros santistas), cujos sepultamentos foram iniciados em 1700, de valor histórico inestimável para resgatar tudo que ocorreu durante as primeiras ocupações em Santos. Tenho um cadastro com nomes de 250 pessoas que foram enterradas no local”, conta Gonzalez, garantindo que a empresa estaria agindo de forma “irregular e criminosa” perante o Valongo.

A maior indagação do arqueólogo diz respeito a estudos realizados pela Petrobras dando conta que nada existe no subsolo da área de entorno do santuário. “Eu liguei para o IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), pedi para que os técnicos levantassem a ficha cadastral e eles confirmaram o sítio arqueológico. Liguei para a Promotoria Pública que confirmou a situação e pediu relatórios à Petrobras, mas os documentos nunca foram enviados”, disse Gonzalez.

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O arqueólogo garante que não é contra as torres da Petrobras, desde que, antes de tudo, o material arqueológico fosse retirado com cuidados técnicos. “Cemitério é fundamental para a arqueologia. Por intermédio dos restos mortais pode-se identificar a razão sexual, biotipo, altura, os problemas de saúde, datas das mortes e outros dados valiosos, que permitem identificar e estudar a sociedade”, garante Gonzalez.

Igreja pode desabar Além do sítio arqueológico, Gonzalez revela que as obras da Petrobrás estariam destruindo o prédio da Igreja do Valongo, que foi construída com pedra, cal de sambaqui (conchas moídas), óleo de baleia e areia, e não aguenta impacto, pois não possui alicerce. “Existem grandes rachaduras, o teto está desabando e há descolamentos de paredes e vigas de sustentação que são de madeira. A probabilidade da parede cair em cima das pessoas é muito grande”.

Ele lembra a campanha do frei Rozântimo (responsável pela restauração do Santuário do Valongo) pela proibição do tráfego de caminhões pesados nas ruas do entorno, porque estariam comprometendo estrutura da Estação do Trem e da Igreja do Valongo, que podem não resistir.

“Hoje existe um projeto chamado Gestão do Patrimônio Arqueológico do Convento de Santo Antônio do Valongo, em parceria com a SOS Orquidário, que me credencia como responsável por tudo relacionado à história desse patrimônio. Posso garantir que, em pouco tempo, os prédios da Petrobras vão ficar e a igreja vai sumir”, explica.

Destaque

Em estilo barroco, a Igreja do Valongo tem fachada com um dos mais expressivos trabalhos do século XVIII e importantes obras de arte. O terreno para a construção da igreja foi doado aos franciscanos por quatro proprietários de terras da Vila de Santos.

Quarenta e nove anos depois, os franciscanos construíram a Capela da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, anexa à igreja. Nessa capela está a imagem de São Francisco, em estilo barroco e tamanho real, orando diante de um Cristo místico alado.

Seu altar-mor apresenta um dos únicos tronos rotativos do País – de um lado está uma raríssima representação da Santíssima Trindade e, do outro, um ostensório para Adoração Perpétua.

No pátio encontram-se as imagens de Nossa Senhora da Conceição, de 1698, e da Padroeira dos Enforcados, onde os escravos condenados à morte costumavam rezar.

O Sino dos Enforcados foi arrancado pelo povo desde a promulgação da Lei Áurea e está guardado na sacristia, junto com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, do século XVII.

Em 1859, Irineu Evangelista de Souza, barão de Mauá, comprou parte do imóvel para a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí. O convento foi demolido, mas não houve força capaz de retirar a imagem de Santo Antônio do altar. O fato, considerado milagre, impediu o desaparecimento da igreja, elevada a santuário em 1987.

Petrobras iniciou obras em 2011

Em julho de 2008, a prefeitura oficializou a venda do terreno do Valongo à Petrobras para abrigar a sede própria da empresa na cidade, necessária com a expansão das atividades de exploração e produção na Bacia de Santos.

A Petrobras começou a construção da nova sede da Unidade de Exploração e Produção de Gás e Petróleo da Bacia de Santos em julho de 2011. A estimativa é que a primeira fase do empreendimento seja entregue até o final de 2013 e abrigue 2.200 funcionários.

A empresa ocupará uma área de 25 mil metros quadrados no Largo Marquês de Monte Alegre. No seu entorno, onde já se encontram a antiga Estação Ferroviária e o Santuário Santo Antônio do Valongo, está sendo erguido o Museu Pelé, e projetado o complexo turístico, náutico e empresarial Porto Valongo Santos.

Com as três torres de escritórios e salas de trabalho, a pedido do governo municipal, a sede da Petrobras terá parque e praça do conhecimento abertos ao público, que retratarão fases importantes da história econômica da cidade. Além disso, o Museu do Petróleo ocupará o antigo armazém ferroviário no local.

A primeira torre terá 15,5 mil metros quadrados. Os investimentos da Petrobras com a nova sede em Santos são de R$ 380 milhões. As outras duas torres serão construídas de acordo com a demanda das operações de petróleo e gás na Bacia de Santos.

Sobre as denúncias do arqueólogo, o Diário do Litoral aguardou até a última sexta-feira por um posicionamento da empresa. Até às 17 horas, nenhuma resposta foi encaminhada.

Vereadora quer ampliar discussão

Nos próximos dias, a vereadora santista Fernanda Vannucci (PPS) vai apresentar um pedido na Câmara solicitando a promoção de audiências públicas para discutir o assunto com técnicos, representantes de entidades relacionadas ao Valongo e a comunidade. Fernanda é membro de duas entidades relacionadas ao santuário – Valongo Minha Casa e Amigos de Antônio.

“A estrutura da Igreja é delicada e a Petrobras não poderia ter erguido um prédio de apoio às obras praticamente colado à edificação que é histórica. Começamos a constatar rachaduras, trincas, descolamentos e vãos de quase um centímetro de largura, enfim. Um patrimônio histórico está sendo destruído”, afirma a vereadora.

A vereadora lembra que, há alguns anos, o frei Rozântimo promoveu algumas reformas que foram condenadas pelo Ministério Público (MP), que o obrigou a refazer todo o serviço.

“O MP foi rígido e, agora, não se vê a mesma preocupação. O prédio de apoio tem cerca de três andares. Isso causa impacto à igreja. As coisas têm que ser feitas com responsabilidade. Os engenheiros da Petrobras já vistoriaram a igreja e dizem que não é culpa da empresa. Então de quem é? O estudo de impacto de vizinhança, que deveria ser feito por um órgão independente vem, no entanto, sendo feito pela própria Petrobras”, finaliza a parlamentar.