Experimentos indicam que o veneno da jararaca-ilhoa pode ser mais potente em aves do que em mamÃferos / Ligia Amorim
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Pesquisadores do Instituto Butantan realizaram o sequenciamento genético mais completo já feito de uma jararaca. O estudo analisou o genoma da jararaca-ilhoa, uma espécie rara que vive apenas na Ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo, e que é considerada uma das serpentes mais venenosas do planeta.
O foco do trabalho foi entender melhor os genes responsáveis pelo veneno. Como grande parte desses genes é compartilhada com as outras 48 espécies de jararacas, os resultados também ajudam a compreender melhor a evolução dessas serpentes e de suas toxinas. O estudo tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
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Experimentos indicam que o veneno da jararaca-ilhoa pode ser mais potente em aves do que em mamÃferos. Mesmo assim, os pesquisadores não encontraram grandes diferenças nos genes de toxinas..
Segundo o pesquisador Pedro Nachtigall, primeiro autor do estudo, pequenas diferenças em proteÃnas ou em partes delas podem explicar essa maior letalidade em aves.
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"Por ser uma população isolada, essas mudanças poderiam estar se dando de forma aleatória, como resultado de uma baixa variabilidade genética. Não foi o que vimos. Há uma distribuição mais especÃfica, uma assinatura de que existe pressão seletiva. Ela pode ter se dado tanto pela alimentação como pelo próprio fato de a espécie ter ficado restrita a uma área muito pequena".
O genoma também revelou que o veneno da jararaca-ilhoa é rico em enzimas e proteÃnas capazes de provocar hemorragias e distúrbios de coagulação. Além disso, o veneno pode causar outros efeitos comuns em jararacas, como queda de pressão e lesões nos tecidos.
Os cientistas também observaram que as variações no genoma da espécie não acontecem apenas por acaso processo conhecido como deriva genética. As análises indicam um forte sinal de seleção natural, possivelmente relacionado ao isolamento da espécie e ao tipo de alimentação disponÃvel na ilha.
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Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores sequenciaram o genoma completo de um macho da ilha e também analisaram o material genético de outros oito indivÃduos sete encontrados na natureza e um mantido em um programa de conservação no próprio Instituto Butantan.
A comparação entre esses genomas ajuda os cientistas a entender melhor a variabilidade genética da espécie e pode contribuir para estratégias de conservação.
Entre as possÃveis aplicações do estudo está a comparação entre a população selvagem e a criada em cativeiro, permitindo avaliar a saúde genética da espécie. As informações também podem ajudar a orientar polÃticas de preservação da jararaca-ilhoa, considerada criticamente ameaçada de extinção.
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A jararaca-ilhoa foi descrita como uma espécie diferente da jararaca do continente em 1921. O isolamento na Ilha da Queimada Grande, que ocorreu há cerca de 100 mil anos após a subida do nÃvel do mar, fez com que a população evoluÃsse de forma independente até se tornar uma nova espécie.
Além da coloração mais amarelada, a jararaca-ilhoa tem hábitos semiarborÃcolas e se alimenta principalmente de aves quando adulta. Já as jararacas do continente costumam ter cor mais escura e caçam pequenos mamÃferos, como ratos, no chão da floresta.
Hoje, toda a população selvagem da espécie está restrita aos 43 hectares da Ilha da Queimada Grande, uma das ilhas formadas no litoral paulista após a última glaciação.
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Modelos cientÃficos indicam que, há cerca de 100 mil anos, parte de uma grande população continental estimada em cerca de 140 mil indivÃduos acabou ficando isolada em uma montanha que, com a subida do nÃvel do mar, deu origem à atual ilha.
Mais informações sobre o estudo podem ser encontradas no portal da Agência FAPESP, em reportagem do jornalista André Julião.