Cotidiano

Hemorragias: cientistas investigam o poderoso veneno da jararaca-ilhoa, um dos mais letais do mundo

O foco do trabalho foi entender melhor os genes responsáveis pelo veneno

Márcio Ribeiro, de Peruíbe para o Diário

Publicado em 06/03/2026 às 19:01

Compartilhe:

Compartilhe no WhatsApp Compartilhe no Facebook Compartilhe no Twitter Compartilhe por E-mail

Experimentos indicam que o veneno da jararaca-ilhoa pode ser mais potente em aves do que em mamíferos / Ligia Amorim

Continua depois da publicidade

Pesquisadores do Instituto Butantan realizaram o sequenciamento genético mais completo já feito de uma jararaca. O estudo analisou o genoma da jararaca-ilhoa, uma espécie rara que vive apenas na Ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo, e que é considerada uma das serpentes mais venenosas do planeta.

Faça parte do grupo do Diário no WhatsApp e Telegram.
Mantenha-se bem informado.

O foco do trabalho foi entender melhor os genes responsáveis pelo veneno. Como grande parte desses genes é compartilhada com as outras 48 espécies de jararacas, os resultados também ajudam a compreender melhor a evolução dessas serpentes e de suas toxinas. O estudo tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Continua depois da publicidade

Leia Também

• 'Renascimento das serpentes': Por que a troca de pele das cobras é mais radical do que pensamos

• Cobra gigante surpreende pesquisadores e desafia a ciência

• Ilha das cobras: passeio turístico leva você a um dos locais mais perigosos do mundo

Experimentos indicam que o veneno da jararaca-ilhoa pode ser mais potente em aves do que em mamíferos. Mesmo assim, os pesquisadores não encontraram grandes diferenças nos genes de toxinas..

Segundo o pesquisador Pedro Nachtigall, primeiro autor do estudo, pequenas diferenças em proteínas ou em partes delas podem explicar essa maior letalidade em aves.

Continua depois da publicidade

"Por ser uma população isolada, essas mudanças poderiam estar se dando de forma aleatória, como resultado de uma baixa variabilidade genética. Não foi o que vimos. Há uma distribuição mais específica, uma assinatura de que existe pressão seletiva. Ela pode ter se dado tanto pela alimentação como pelo próprio fato de a espécie ter ficado restrita a uma área muito pequena".

O genoma também revelou que o veneno da jararaca-ilhoa é rico em enzimas e proteínas capazes de provocar hemorragias e distúrbios de coagulação. Além disso, o veneno pode causar outros efeitos comuns em jararacas, como queda de pressão e lesões nos tecidos.

Os cientistas também observaram que as variações no genoma da espécie não acontecem apenas por acaso processo conhecido como deriva genética. As análises indicam um forte sinal de seleção natural, possivelmente relacionado ao isolamento da espécie e ao tipo de alimentação disponível na ilha.

Continua depois da publicidade

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores sequenciaram o genoma completo de um macho da ilha e também analisaram o material genético de outros oito indivíduos sete encontrados na natureza e um mantido em um programa de conservação no próprio Instituto Butantan.

A comparação entre esses genomas ajuda os cientistas a entender melhor a variabilidade genética da espécie e pode contribuir para estratégias de conservação.

Entre as possíveis aplicações do estudo está a comparação entre a população selvagem e a criada em cativeiro, permitindo avaliar a saúde genética da espécie. As informações também podem ajudar a orientar políticas de preservação da jararaca-ilhoa, considerada criticamente ameaçada de extinção.

Continua depois da publicidade

Jararaca-ilhoa

A jararaca-ilhoa foi descrita como uma espécie diferente da jararaca do continente em 1921. O isolamento na Ilha da Queimada Grande, que ocorreu há cerca de 100 mil anos após a subida do nível do mar, fez com que a população evoluísse de forma independente até se tornar uma nova espécie.

Além da coloração mais amarelada, a jararaca-ilhoa tem hábitos semiarborícolas e se alimenta principalmente de aves quando adulta. Já as jararacas do continente costumam ter cor mais escura e caçam pequenos mamíferos, como ratos, no chão da floresta.

Hoje, toda a população selvagem da espécie está restrita aos 43 hectares da Ilha da Queimada Grande, uma das ilhas formadas no litoral paulista após a última glaciação.

Continua depois da publicidade

Modelos científicos indicam que, há cerca de 100 mil anos, parte de uma grande população continental estimada em cerca de 140 mil indivíduos acabou ficando isolada em uma montanha que, com a subida do nível do mar, deu origem à atual ilha.

Mais informações sobre o estudo podem ser encontradas no portal da Agência FAPESP, em reportagem do jornalista André Julião.

TAGS :

Conteúdos Recomendados

©2026 Diário do Litoral. Todos os Direitos Reservados.

Software