Gay e vivendo com o HIV, jovem usa a música para combater o preconceito

Vinícius Silvino, de 25 anos, produz disco para contar sua história e promover o respeito à diversidade; álbum será lançado em maio

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16 ABR 2017Por Diário do Litoral10h30
Silvino compõe desde os 14 anos, mas foi após a descoberta do vírus que decidiu reforçar o dom e usar a música para contar a sua história e combater o preconceitoSilvino compõe desde os 14 anos, mas foi após a descoberta do vírus que decidiu reforçar o dom e usar a música para contar a sua história e combater o preconceitoFoto: Matheus Tagé/DL

A Páscoa remete ao renascimento. A festividade cristã marca a passagem da morte para a vida e traz reflexões sobre o amor ao próximo e à ressignificação. Vinicius Silvino, 25 anos, é homossexual e soropositivo. Sua condição é julgado diariamente com palavras e olhares. Na música, encontrou forças para lutar contra o preconceito e contar a história de pessoas que, como ele, querem viver - e existir - em uma sociedade que preza o ­respeito.

“O projeto chama Húmus. Húmus é um reduto orgânico. Adubo. Resíduo que apodrece, mas alimenta, ao tornar o solo mais fértil. O que eu trago nas letras é isso. Tentam a todo tempo, quando você é um LGBT ou uma pessoa que vive com HIV, ou vive dentro de qualquer questão que fuja de uma norma, dizer que você é errado. Que você não presta”, afirmou Silvino. O EP tem cinco músicas, está em fase produção e deve ser lançado na segunda quinzena de maio.

Silvino nasceu em Santos, mas foi em São Vicente, cidade em que reside com a mãe, que encontrou abrigo. Um dia depois de completar 24 anos descobriu que havia contraído o vírus HIV.  “O primeiro momento é complicado. Até você ter uma compreensão de como o seu organismo está levam semanas. E essas semanas são complicadas. Levam a uma reflexão muito profunda”, disse.

Foi nesse período, o de reflexão, que reforçou sua paixão pela música. “Sempre gostei de música e rascunhei melodias. Não fazia nada com aquilo. Eu pensava muito nessas semanas. Como, Deus? Eu não posso desembarcar agora. Eu tenho coisas a propor, coisas que quero falar, que quero ler, filmes que quero ver”, destacou ­Silvino.

O músico sofreu muita pressão familiar para não assumir publicamente o vírus. “Senti a mesma pressão quando assumi a minha orientação sexual. Aquele velho discurso de que ninguém precisa saber. Se o diabético fala normalmente sobre a questão dele, por que quem tem HIV não? Eu me torno menor enquanto ser humano, enquanto pessoa, por ter  o vírus do HIV? Em nada. Deveria ser um assunto do cotidiano”, afirmou.

No entanto, enfrentar a sociedade, que já o julgava por ser gay, foi um desafio que decidiu encarar. “Sabia que tinha o vírus e que há um tratamento. A expectativa de vida hoje de uma pessoa que vive com HIV é praticamente a mesma de uma pessoa negativa. Mas existe um ‘monstro’ social. Viver com HIV é você não existir. Você socialmente não existe. Existe até o momento que a pessoa não sabe. A questão de ser gay é uma violência diária. Violência verbal. É constantemente receber xingos e olhares. O olhar diz muito”, disse Silvino.

O jovem diz que a fórmula para eliminar o preconceito contra a Aids é falar sobre a doença. “O maior sonho de uma pessoa que vive nessa condição é a cura biológica, isso não está ao meu alcance, mas a cura social está ao alcance de qualquer pessoa. Toda pessoa é capaz de fomentar e possibilitar que exista uma cura social, que é possibilitar que as pessoas que vivem com Aids existam”, destacou.

Mesmo ateu, Silvino faz um link da sua história com o sentido da Páscoa. “O que eu levo desse meu processo é sentir que sou uma pessoa mais humana. Eu não consigo mais olhar para as pessoas com a mínima possibilidade de me sentir superior, julgando. Se tem uma coisa que saiu de mim nesse renascimento, foi esse julgo. Acho que ninguém está aqui para julgar e condenar ninguém. Acho que a diversidade e a troca nos amplia muito”, afirmou.

Educação.

O músico é mais um jovem, dos milhares que receberam o diagnóstico da Aids nos últimos anos. O Brasil enfrenta a maior epidemia desde o início da década de 1980. Para ele, a diminuição nas campanhas preventivas e repressão sexual nos espaços de educação contribuíram para o aumento da doença. “No meio do pico de epidemia temos a informação de que a orientação sexual e identidade de gênero foi retirada da base nacional comum curricular. Falam muito de comportamento de risco, de grupos de risco, mas não se fala de uma sociedade de risco. De uma sociedade onde jovens estão se infectando. Joga a questão para as pessoas, mas não se faz uma reflexão social”, disse Silvino.

‘Tive que lidar com meus preconceitos’, diz maestro

Há oito meses, Silvino procurou o produtor musical Theo Cancello em uma rede social. O maestro gostou da proposta do artista e, desde então, formaram uma parceria. Uma das canções do EP já tocada por vários DJs em festas na Baixada Santista.

“Havia vários planos de trabalho. Fomos delimitando o que ia acontecer. Fui entendendo o Vinicius, porque não é um universo o qual estava acostumado a trabalhar. Uma coisa é você ler essas coisas na revista, no jornal, outra coisa é produzir um artista que milita sobre essas causas. Teria de estar mais dentro daquilo. Tive que lidar com os meus próprios preconceitos”, destacou Cancello.

O projeto, que até então era solo, se tornou duplo. Aliou a vivência de Silvino e a técnica do maestro.

“Tive longas conversas com ele. Música é uma coisa tão subjetiva e a pessoa precisa se expressar. Expressão tem a ver com sentimento. Sentimento tem a ver com a própria história e com a vida. Ele trouxe várias ideias de letras. Fomos conversando e fui formatando com ele essas ideias para que a música tivesse começo, meio e fim, produção, arranjo”, afirmou Cancello.