Feirante de São Vicente deu emprego a dois refugiados

Solidariedade. A ideia surgiu quando ela teve conhecimento da situação de refugiados que chegam a São Paulo

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20 MAR 2017Por Vanessa Pimentel11h00
Após os negócios fracassarem, Magali Cordeiro de Lima e o marido deram uma guinada na vida ao assumirem uma barraca de frangos na feiraFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Magali Cordeiro de Lima, de 53 anos, seria mais uma pessoa comum, não fosse a solidariedade lhe tornar um pouquinho mais especial.

Nascida em São Paulo, foi bancária e corretora na bolsa de valores. Aos 28 anos, casou-se com o engenheiro Julio Cesar da Silva. Na época, jovens e cheios de sonhos, decidiram abrir seus próprios negócios – ele, em sociedade, uma construtora; ela, uma loja de roupas.

Não durou. Em pouco tempo as dívidas foram maiores que os lucros e as portas se fecharam. Recém-casados, com o aluguel do apartamento novo por pagar, a vida adulta chegou antes do que esperavam.

“Durante um tempo meu pai precisou pagar nosso aluguel. Um dia, ele me avisou que iria à Praia Grande para visitar meu tio e perguntou se eu queria ir junto. Eu fui”, explica ela ao começar a contar a parte da história em que sua vida começou a mudar.

Em conversa com o tio, Magali comentou sobre a fase difícil que ela e o marido passavam. “Um conhecido meu está vendendo uma barraca de frango na feira. Quer comprar? Dá pelo menos mil reais de lucro por semana. Se não der, tiro do meu bolso até as coisas se ajeitarem”, afirmou o tio, que era feirante.

A proposta foi inusitada para quem, segundo ela, não sabia nem cortar o frango que comprava no mercado. “Mesmo assim, conversei com meu marido e como não tínhamos opções, decidimos aceitar”.

Tiveram dois dias para aprender o serviço. Em seguida, assumiram a barraca. “Foi uma grata surpresa: em um mês pagamos nossas dívidas e em um ano, compramos nossa casa em Praia Grande”, conta ela.

O casal trabalha junto até hoje e tem três filhas. A de 24 anos, já é dona da própria barraca, também de frango e miúdos, em outra feira da cidade. “Uma faz faculdade em São Paulo e a mais novinha ainda está pensando no que fazer”, declara Magali. Todas já trabalharam com os pais e ainda ajudam quando necessário.

Refugiados

Quando estava de folga, o casal ia a São Paulo visitar os sogros. “Eles perguntaram se a gente estava precisando de funcionários porque a igreja que eles frequentam abriga refugiados que precisavam trabalhar”, explica.

O casal foi conversar com o padre que só autorizava a saída dos haitianos da capela se o emprego fosse registrado em carteira com salário de, no mínimo, R$ 1.200,00, além de um local onde pudessem morar enquanto não tinham dinheiro para pagar aluguel. As exigências eram uma forma de evitar a exploração sofrida pela maioria dos refugiados quando chegam a novos países.

Magali e o marido aceitaram as condições e voltaram para casa com dois haitianos. “Eu tinha um terreno com uma edícula que precisava de reforma. Então, os levei para a minha casa”, explica ela.

O trabalho

A reforma da casa durou um mês. Durante este tempo, os dois moraram com o casal. Como Magali fala inglês, a comunicação não foi difícil.

De acordo com eles, alguns feirantes não viram com bons olhos o emprego oferecido aos refugiados e achavam perigoso abrigar dentro de casa pessoas que eles não conheciam bem. “Eu segui minha intuição.

Senti que precisavam de ajuda e que eram boas pessoas”, relata Magali. “Às vezes, isso pode ser confundido com ingenuidade, mas acho que é empatia, sabe? Esse pessoal chega em São Paulo e fica lá encostado num muro em busca de alguém que possa ajudar. Não dá para ver isso e não fazer nada, se você pode fazer”, declara.

Toda segunda-feira, único dia de folga para quem trabalha na feira, Magali levava os dois para almoçar no shopping. “Quando receberam o primeiro salário, não me deixaram pagar dizendo que era a vez deles retribuírem o que eu estava fazendo por eles. Fiquei emocionada”, relembra.

Em pouco tempo, a amizade da família com os haitianos cresceu. De acordo com eles, os dois eram extremamente esforçados para aprender o serviço e o idioma e logo conquistaram a autonomia no trabalho e a simpatia dos clientes.

Depois de um ano na feira, eles receberam uma proposta da fábrica da Perdigão, no sul do País, que mantém um programa para empregar refugiados e decidiram aceitar. Um deles se destacou tanto que hoje é chefe de sessão. Magali diz que foi triste se despedir. “A gente se apega né”, declara com os olhos marejados.  

A amizade continua em mensagens trocadas pelo celular e o convite para conhecer a sonhada vida nova de quem geralmente foge das condições impostas pelo país de origem. Questionados se pensam em trabalhar novamente com refugiados, o casal diz que sim e que já está conversando sobre isso.

“A Magali é dessas pessoas de coração bom, fora o corte do peito de frango que ela faz! Não encontro melhor”, afirma a cliente Maria Aparecida, confirmando que para quem não sabia nem cortar o frango do mercado, a prática, de fato, leva à perfeição.

Antes da entrevista terminar, Magali lembrou de um fato: “Quando acabava o trabalho na feira, eu fazia igual professora e ficava perguntando quais palavras eles tinham aprendido no dia. Sabe qual foi a palavra que eles mais gostaram de aprender? Revolução”, declara.