Famílias recebem comida e abrigo na Vila Telma

Depois da tragédia, vizinhos, igreja e comércio prestam solidariedade

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18 JAN 201311h05

A favela da Vila Telma amanheceu sob as cinzas do que já foram casas de pelo menos 204 famílias. No rosto de quem perdeu tudo, lágrimas e desolação, mas um conforto: todos sobreviveram.

Na manhã de 11 de maio, o que sobrou do incêndio que consumiu cerca de 125 barracos foram carcaças queimadas de máquinas de lavar, geladeira, fogão a até um berço. Sucata que virou dinheiro na mão de quem recolheu, antes da maré subir, no mangue. A causa do incêndio teria sido um curto-circuito em uma cafeteira.

Passado o pânico, o desespero e uma noite em claro, poucas vítimas do incêndio reuniram coragem e voltaram ao local do cenário desolador. Em uma área de aproximadamente 20 mil metros quadrados, onde existiam 125 casas sob palafitas, até às 16h30 do dia 10 de maio, restou somente restos de eletrodomésticos chamuscados e madeira que ainda queimava em alguns pontos. Os focos de incêndio seriam logo apagados pelo avanço da água.

O ajudante geral, Cristiano Francisco Gonçalves, de 33 anos de idade, morava sozinho. Ao ser abordado pela reportagem, mostrou, com lágrimas nos olhos, um assoalho queimado ainda sustentado por palafitas, no meio do mangue, onde existia sua casa.

Ele perdeu tudo. Cristiano apontava para o que sobrou de sua geladeira e fogão, que aos poucos eram encobertos pela maré que subia. “Não consegui salvar nada, queimou tudo, mas eu estava mais preocupado em ajudar minhas vizinhas. Ajudei a levar televisão, fogão e peguei a filha de uma vizinha”. Mas, Cristiano estava indignado com o roubo do pouco que sobrou para algumas famílias, por moradores das proximidades, que se aproveitaram da confusão no dia do incêndio.

A sucata dos bens das famílias desabrigadas era recolhida por moradores de outras comunidades para vender nos ferros-velhos. Tudo que fosse reaproveitado era resgatado. Entre os homens que garimpavam as carcaças estava o auxiliar de serviços gerais Amílton Marques de Oliveira, que saiu do local do incêndio empurrando um carrinho de mão abarrotado.

Na sede da igreja Assembleia de Deus (Ministério de Santos-Congregação Vila Telma), famílias faziam fila para receber comida, roupas e cobertores. Segundo o pastor Abnésio Lopes da Cruz, a congregação se preparava para o culto do início da noite de segunda-feira, quando aconteceu o incêndio.

A igreja foi transformada em um posto de atendimento e acolhimento. “Desde ontem estamos fornecendo alimentação e roupa e, principalmente apoio espiritual às pessoas que vão chegando desesperadas. Pelo menos seis famílias estão abrigadas aqui na igreja”, disse o pastor Abnésio, que mostrou ainda as doações de roupas, alimentos, colchões e roupas de cama, que recebeu de supermercados, entidades assistenciais e da própria comunidade.

‘Missionárias na área’

A solidariedade na igreja Assembleia de Deus era impressionante e até comovente. Na cozinha improvisada estava a dona de casa evangélica Luciene do Carmo Assunção, uma voluntária, moradora do bairro Bom Retiro, que encontramos cozinhando um caldeirão de salsichas. Apesar do cansaço, Luciene mantinha o bom humor e a alegria depois de 17 horas ajudando na cozinha.

Luciene se ofereceu para ajudar com as famílias na igreja às 20 horas de segunda-feira e não havia dormido ou descansado até as 13 horas de ontem, quando falou com a reportagem. Juntamente com Luciene, havia uma “frente de senhoras voluntárias”, que sorrindo e servindo a comida, se denominavam “missionárias na área”.

Doações

As voluntárias pedem doações de fraldas descartáveis, alimentos não perecíveis, chupetas, mamadeiras e cobertores. Os donativos podem ser entregues na igreja, próximo ao local do incêndio.

Abrigos

As vítimas do incêndio foram abrigadas no Centro Comunitário São José, no bairro Rádio Clube, em escolas próximas à comunidade da Vila Telma, na casa de vizinhos e parentes.

No Centro Comunitário, famílias aguardavam pelo preenchimento do cadastro, entre elas, a diarista Rosana de Souza Santiago, que morava com os quatro filhos e o marido, no Caminho São Sebastião, na Vila Telma. Rosana carregava apenas a bolsa e o coelho de estimação da família, que voltou para resgatar.

Foi que conseguiu salvar do incêndio. Ela tinha acabado de chegar em casa do serviço, quando viu o fogo que se alastrou rapidamente com os ventos, atingindo sua casa, a última do beco, em cerca de 20 minutos. Ela se enrolou em um tapete e saiu da casa. Os filhos já haviam saído. Apesar da perda total de seus bens e da casa que comprara por R$ 3 mil, há dois meses, Rosana encontrava conforto no fato de sua família ter saído ilesa das chamas.

Rosana ainda estava pagando os bens que queimaram junto com os respectivos carnês no sinistro de segunda-feira — fogão, geladeira e móveis. Rosana também se preocupava com sua carteira de trabalho, que foi destruída, apagando todo o seu histórico de empregos.