Falta mão de obra qualificada na Baixada Santista

Enquanto trabalhadores lutam por emprego na indústria, comércio aponta pessoas cada vez menos preparadas. Você já passou por algum problema com atendimento? Envie seu depoimento no Facebook do DL

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18 MAR 201511h14

Dezenas de desempregados realizaram, nos últimos dias, protestos em frente ao Polo Industrial de Cubatão. O pedido do grupo era claro “queremos emprego”. A manifestação, que causou transtorno com congestionamento no trânsito, na entrada e saída da Cidade, mostra outro lado da situação na região: a qualificação profissional.

Em relação à situação dos trabalhadores desempregados do polo, o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Cubatão explicou que uma comissão foi criada para reafirmar o compromisso firmado na Agenda 21 do Município, que tem como diretriz priorizar a empregabilidade dos moradores de Cubatão. Foi realizado um levantamento das vagas abertas para seleção imediata, colocadas à disposição do PAT, que irá gerenciar o processo de encaminhamento dos candidatos. Também foi firmado o compromisso para acompanhamento dos processos seletivos futuros, o que será feito em conjunto pelas entidades representadas na comissão.

O Ciesp disse que depende dos novos investimentos das empresas, que frente à situação econômica do País estão aguardando incentivos para a criação de novos empregos.
Quando questionado sobre a situação referente à qualificação profissional, o órgão ressaltou que  realiza o Programa de Qualificação de Munícipes, que está em consonância com as diretrizes da Agenda 21 do município. Destacando que já qualificou profissionalmente centenas de moradores da Cidade. Em 2013, teve o patrocínio da Vale Fertilizantes e em 2014 da VLI – Valor da Logística Integrada, contribuindo para a especialização da mão de obra local.

Apesar de oferecer programas de qualificação, o Ciesp não respondeu se há falta de mão de obra qualificada na região.

Desempregados reivindicaram emprego (Foto: Matheus Tagé/DL)

Comércio encara problemas

Já no setor do comércio, os problemas com a falta de mão de obra preparada são claros. Essa é a opinião do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Santos Praia, Nicolau Miguel Obeidi.

“As pessoas estão cada vez menos preparadas. Santos tem um agravante um pouco maior em função da faixa salarial, bem menor do que a Capital. Uma mão de obra mais qualificada acaba indo para São Paulo”, disse Obeidi.

Assim como no caso do Ciesp Cubatão, a CDL Santos Praia também realiza cursos de formação, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Mas, segundo o presidente do órgão, não há adesão. “As pessoas não querem se preparar. Elas tratam como um subemprego, não como um trabalho que necessite se especializar. Isso reflete na qualidade do atendimento”.

Segundo Obeidi, o reflexo se dá no mau atendimento dentro dos estabelecimentos comerciais. “Eu não estou falando mal ou criticando. Isso é a realidade. A situação hoje é difícil”.
O presidente citou que o comportamento das pessoas também prejudica a contratação de funcionários. “É um problema básico. Educação primária. Saber como se direcionar às pessoas, ser cordial. As pessoas não tem mais isso. Elas gritam, falam alto, gargalhadas em determinadas situações, conversas durante o expediente ou por WhatsApp”.

Nicolau comentou sobre um caso em que um atendente falou diversos palavrões para explicar uma situação. “O cara parecia que estava sentado em um boteco, tomando chope e conversando com um amigo de infância. Já fui em uma loja no shopping e a funcionária estava fazendo a unha no balcão. É esse o comportamento que estamos vendo”.

Para Obeidi, a situação tem piorado nos últimos dez anos. “Essa geração não quer se qualificar, não quer aprender e não tem educação. Você fica o tempo todo brigando com o funcionário. São coisas básicas que eles não sabem falar, nem é por mal, mas por costume. Eles não sabem diferenciar a relação entre estar em casa, na escola, sentado no bar ou no ambiente de trabalho. Para eles é uma coisa só. Falta ser profissional no que faz”.

Para ele, a união entre uma melhor educação e qualificação profissional é a chave para a melhora na questão do emprego. “Comércio é muito mais complicado do que as pessoas imaginam. Hoje, o consumidor presta mais atenção no atendimento, na gentileza. As lojas pequenas existem ainda por causa do atendimento. Mas as pessoas estão perdendo isso. Eu sou de uma família tradicional do comércio, estou nisso há 35 anos, eu sei bem como é isso. Todos podem mudar, é só querer isso.”