Fábio Mello: 'Estamos fabricando analfabetos funcionais e uma sociedade débil'

Ele é dirigente sindical, petroleiro e, agora, que está licenciado, pretende uma cadeira de deputado na Câmara Federal

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30 AGO 2018Por Carlos Ratton12h21
Em entrevista ao Diário, Fábio Melo (PSOL) fez críticas aos governos Estadual e FederalEm entrevista ao Diário, Fábio Melo (PSOL) fez críticas aos governos Estadual e FederalFoto: Reprodução

Ele é dirigente sindical, petroleiro e, agora, que está licenciado, pretende uma cadeira de deputado na Câmara Federal. Em entrevista ao Diário, Fábio Melo (PSOL) fez críticas aos governos Estadual e Federal. Confira os melhores trechos da entrevista:  

Diário – Quais suas bandeiras?

Fábio Mello – Defesa da Petrobrás, soberania nacional e política energética do País. São bandeiras da categoria e que estão inseridas no dia a dia do cidadão brasileiro, principalmente após a greve dos caminhoneiros. Em todos ataques que ocorreram após o golpe de 2016, não vi nenhum deputado da região promover audiência pública para discutir o que foi imposto ao País. Por isso sou candidato. Nossos parlamentares se apropriam do mandato para obter vantagens pessoais.  É preciso mudar a relação de força. Quero defender a classe trabalhadora e a soberania nacional. Nossa luta vai ter voz.        

Diário – Piorou a situação do País?

Fábio Mello – Desde o golpe jurídico-parlamentar que, para os que não gostam de falar em golpe, a troca intempestiva do poder. E a classe trabalhadora foi a mais prejudicada. Temer (Michel) vem impondo uma agenda totalmente integrista. Tem um candidato da região que afirma que não votou a favor de investigar Temer porque acredita que o Brasil não suportaria um novo impeachment. Um absurdo total. Temer transformou o Brasil em um grande balcão de negócios. Voltamos a ser uma colônia.  

Diário – Dá um exemplo. 

Fábio Mello – A PL 131 do senador José Serra, sancionada sem vetos pela Presidência da República, que se tornou lei, que revogou a obrigatoriedade da participação da Petrobras na exploração do petróleo da camada pré-sal. A legislação anterior garantia à Petrobrás uma participação mínima de 30% nas operações. A nova lei tirou da empresa brasileira o controle operacional, ecológico e outros. O Sindicato dos Petroleiros lutou muito contra isso, mas não houve jeito. Os deputados cederam.

Diário – Os prejuízos foram grandes ao Brasil?

Fábio Mello -  Só na Bacia de Santos, temos 12 plataformas que, junto com outras espalhadas pelo País, já conseguem extrair 50% do petróleo produzido no Brasil. São 2,6 milhões de barris por dia. O pré-sal é muito rentável. Então, fica claro o interesse em desqualificar a Patrobrás, que é uma das únicas empresas no Mundo que detém a tecnologia de exploração e que vive sob ameaça de privatização.  

Diário – Tem mais exemplos?

Fábio Mello – A conhecida PEC do Trilhão, que concedeu isenções tributárias para multinacionais do petróleo. Nos dois últimos anos, o foco foi fragilizar a soberania nacional. A crise energética e o custo alto dos combustíveis são reflexos da fragilização da Petrobrás que, quando foi criada em 1953, tinha o objetivo de proporcionar autonomia em relação ao mercado internacional. Hoje, que temos tecnologia e poços de petróleo, a terceira maior reserva do Mundo e estamos entre os 10 maiores países produtores de petróleo, o Governo Federal e deputados proporcionam esse ataque à empresa brasileira.

Diário – A Reforma Trabalhista foi prejudicial ao trabalhador?

Fábio Mello – Começou com a terceirização indiscriminada de até as atividades fins, atingindo também as indústrias, causando uma rotatividade enorme e a precarização do trabalho. Os trabalhadores vivem de rescisão em rescisão. Depois, chegou a Reforma Trabalhista, que vem acabando com todos os direitos.

Diário – O que você diz da Reforma da Previdência?

Fábio Mello – Foi instituída uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), encabeçada pelo senador Paulo Paim (PT), que chegou à conclusão que não há déficit. O que ocorre é um verdadeiro saque na Previdência. O trabalhador contribui de forma compulsória, pois não incide apenas no salário, mas também em todo bem de consumo que ele adquiri. A receita da Previdência abrange tudo isso. Ocorre que o Governo Michel Temer subiu de 20 para 30% a Desvinculação das Receitas da União (DRU). Ou seja, pode-se usar até esse percentual da Previdência para cobrir outras despesas. Além disso, aumentou a idade para aposentadoria. Hoje, pessoas a partir de 45 anos de idade não estão sendo aproveitadas, principalmente na área industrial. Acabam caindo no trabalho informal. É preciso discutir a Reforma da Previdência de forma clara, bem como a Política. 

Diário – Muitos partidos

Fábio Mello – O PSOL é um partido de ideologia e de forte militância. Mas tem partidos de aluguel, que se organizam apenas em período eleitoral e que fogem das amplas discussões nacionais. Essa onda de direita que está surgindo eu vejo com muito temor, pois tem gente pedindo intervenção militar sem ter noção o que isso representa. Quem viveu ou leu sobre o Golpe de 64 sabe o que foi aquela violência física e psicológica. Sem contar a perda de direitos. Há uma precariedade na educação, que fabricam pessoas que desconhecem o passado. Veja o que é a aprovação automática em São Paulo e essa ideia absurda de Escola Sem Partido. Estamos, infelizmente, fabricando analfabetos funcionais e uma sociedade débil, em que coloca Jair Bolsonaro entre os escolhidos para ocupar a Presidência do Brasil. A democracia foi conquistada e precisa ser exercida de forma plena.