Eventos de economia criativa na região atraem produtores de São Paulo

Até a sexta edição, o Encontro de Criadores atraiu mais de 35 mil visitantes, movimentou mais de R$750 mil durante os eventos

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19 NOV 2017Por Vanessa Pimentel10h30
Evento foi realizado na Casa da Frontaria AzulejadaFoto: Fernando Yokota

No final de semana passado, a Casa da Frontaria Azulejada, no centro histórico de Santos, recebeu a 7ª edição do Encontro de Criadores, um evento que reúne expositores independentes de diversos segmentos, da moda à decoração. A feira tem atraído a atenção dos pequenos produtores de São Paulo, que tem apostado no público da região.

Segundo o idealizador do evento, Heitor Cabral, cada edição reúne em média 45 expositores e desse total, cerca de 15 (35%) vem da Capital.

“Tenho empreendedores de lá (SP) que estão comigo desde a primeira edição, em 2015. Mas, no início, não foi fácil trazer esse pessoal porque em São Paulo esse tipo de feira já era conhecido e tinha público certo, diferente de Santos, que por mais que tenha uma veia cultural forte, ainda estava começando a explorar o nicho”, explica Heitor. A última edição do ano registrou um público de quatro mil pessoas e não para de crescer.

“Eu tinha uma marca e sentia muita dificuldade para expor em Santos. Era difícil mostrar para o cliente o que era produzido e isso prejudicava a venda. Aí comecei a expor em São Paulo porque lá essas feiras já estavam a todo vapor. Mas, sempre achei que Santos tinha potencial para esse tipo de comércio, então montei a primeira edição do Encontro de Criadores na garagem de casa. Deu certo e continuamos”, detalha Heitor.   

Até a sexta edição, o Encontro de Criadores atraiu mais de 35 mil visitantes, movimentou mais de R$750 mil durante os eventos e mais de R$150 mil gerados em parcerias.

Economia Criativa

De acordo com o SEBRAE, economia criativa é o conjunto de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade que tem capacidade de gerar valor econômico. Popularizando: é quando uma pessoa tem uma ideia, consegue tirá-la do papel e obter renda com ela.

Essa forma de empreender tem movimentado a economia em todo o país – segundo pesquisa divulgada em outubro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os micros e pequenos negócios (empresas com até 5 pessoas) foram responsáveis por empregar, no ano passado, 50,1% dos trabalhadores.

Ainda segundo a pesquisa, entre 2012 e 2016, o percentual de trabalhadores ocupados em microempresas foi de 38,3% para 42,1% no Sudeste.  Neste período, os dados apontam que houve uma migração de trabalhadores das empresas de grande porte para as de pequeno porte, o que para alguns foi considerado o lado bom da crise econômica que o país enfrenta.

É o caso de Ana Paula Felipe, que em um corte de funcionários no ano passado, foi demitida da empresa onde trabalhava, em São Paulo.

Profissional no ramo da moda, conheceu Sara Sampaio, fundadora da marca de roupas ‘Jezebel’. “Fui convidada pela Sara para ser modelo da confecção. Na mesma época, a sócia da marca estava saindo e fiz a proposta de assumir a parte dela. Já fazia muito tempo que eu queria empreender, então foi uma oportunidade que não deixei passar”, conta Ana, que hoje se declara mais feliz do que antes.

Slow Fashion

“Nosso propósito é conscientizar sobre o impacto causado pela indústria de moda e ao mesmo tempo inspirar uma maneira mais consciente de viver e de se relacionar com a moda”, explica Sara Sampaio.
Por isso, o público alvo são mulheres acima dos 30 anos - fase conhecida pelo autoconhecimento e com preocupações mais maduras - entre elas, a forma como os hábitos de consumo impactam o planeta.

 

Além das duas sócias, duas costureiras produzem as roupas, sempre com tecidos nacionais que seriam inutilizados por fazerem parte de coleções passadas. Dessa forma, elas ajudam a reciclar matéria-prima. Vale lembrar que, segundo dados levantados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Brasil gera, por ano, 170 mil toneladas de lixo têxtil.

Esta é a segunda vez que a Jezebel expõe em Santos. Para elas, o público da região ainda está conhecendo a proposta da marca, que tem tudo para fazer sucesso por aqui, já que a maioria das peças são soltinhas, no estilo cidade-praia.

Este tipo de produção local, mais artesanal e em pequena escala, segue a linha slow fashion, um conceito que vem crescendo desde 2008 e oferece uma alternativa à produção em massa das grandes indústrias, envolvidas constantemente em denúncias de trabalho escravo. É o caso da M.Officer, que no início deste mês foi condenada em 1ª instância por submeter trabalhadores a condições análogas à de escravidão.

Essa conscientização sobre o verdadeiro custo da moda tem crescido também, principalmente, depois de 24 de abril de 2013, quando um acidente em uma fábrica têxtil em Bangladesh matou mais de mil pessoas e feriu cerca de 2500.

O fato deu início a uma campanha online, onde através da #whomademyclothes (quem fez minha roupa?), consumidores verificavam o processo e a condição de trabalho de quem produzia as peças.

Slow Food

Na mesma vertente, surge na década de 80 o slow food, um movimento mundial que também tem como objetivo promover uma nova forma de consumir os alimentos, buscando menos produtos industrializados e valorizando os naturais e os pequenos produtores.

É nessa linha que o casal Egon e Karina Jais trabalham. Os dois desceram a serra para expor seus produtos no evento santista: geleias, chutneys, conservas, manteigas temperadas e defumados, tudo feito em casa, sem aditivos químicos ou conservantes.

Egon é fotógrafo, Karina estilista. Cansados do ritmo de São Paulo, decidiram mudar de vida. Por isso, Egon resgatou receitas da família alemã que, segundo conta, já tinha tradição na cozinha e passou a produzi-las novamente.

“Há seis meses nasceu a marca e começamos a participar das feiras de economia criativa. O plano agora é mudar para o interior, plantar, produzir de acordo com a sazonalidade da horta e ter um ofício que nos permita uma vida mais tranquila”, diz Egon.

Questionados se estão otimistas em relação ao crescimento do consumo sustentável, o casal diz que sim.

“Nós somos propagadores dessa ideia e notamos que o público está se conscientizando. Então, tudo leva a crer que o futuro reserva sim um bom lugar para os pequenos produtores”, declara.