Estudos indicam que o silêncio de muitos homens aposentados pode esconder uma crise profunda de identidade e propósito / Pixabay
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Ele permanece sentado, olhando para a televisão sem realmente acompanhar o que está passando. Quando alguém pergunta se está tudo bem, responde com um simples “sim” e não acrescenta nada.
Esse comportamento é comum nos primeiros meses ou anos depois da aposentadoria. À primeira vista, pode parecer apenas descanso ou falta de assunto, mas especialistas apontam outra explicação.
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Segundo a psicologia, o silêncio pode refletir algo mais profundo: a perda do papel que definiu a vida inteira daquele homem. E isso pode gerar um vazio difícil de explicar.
Por décadas, muitos homens foram educados a acreditar que seu valor dependia da capacidade de produzir e sustentar. O reconhecimento vinha do desempenho e das responsabilidades assumidas.
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Pesquisadores descrevem esse padrão como autoestima ligada à masculinidade tradicional. O sentimento de valor pessoal surge quando o homem cumpre expectativas como prover, conquistar e não demonstrar fragilidade.
Nesse contexto, a profissão funcionava como eixo central da identidade. Ela oferecia status, rotina e propósito. Ao se aposentar, essa base desaparece, deixando a pergunta “Quem sou eu?” sem resposta clara.
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Um levantamento da Universidade de Gotemburgo destacou três fatores essenciais para uma boa adaptação: reconstruir a identidade, manter interações sociais e preservar a autonomia. Entre eles, a identidade foi decisiva.
Muitos participantes relataram sensação de inutilidade após deixar o emprego. O trabalho não fornecia apenas salário, mas também reconhecimento, convivência e um objetivo diário.
Pesquisa publicada na revista BMC Geriatrics em 2024 mostrou que homens que atribuíam grande significado ao trabalho apresentaram maior risco de sintomas depressivos após a aposentadoria. Quanto maior o vínculo, maior o impacto da perda.
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Outro fator importante é cultural. Muitos homens foram ensinados desde cedo que demonstrar sofrimento é sinal de fraqueza e que devem lidar com problemas sozinhos.
Estudos indicam que redes de apoio masculinas costumam ser mais limitadas justamente por essa dificuldade de falar sobre emoções. Compartilhar sentimentos nem sempre é visto como aceitável.
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O psiquiatra Igor Galynker observa, em entrevista ao portal norte-americano Geediting, que homens frequentemente priorizam conquistas profissionais em detrimento de vínculos sociais. Ao se aposentar, perdem simultaneamente o ambiente de trabalho e parte das conexões.
O silêncio não é apenas uma característica de personalidade. Dados do Centers for Disease Control and Prevention apontam taxas elevadas de suicídio entre homens idosos, especialmente após grandes transições de vida.
Especialistas como Yeates Conwell destacam a combinação de fatores como isolamento, doenças, perda de autonomia e depressão. A aposentadoria frequentemente atua como gatilho.
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Uma análise publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health estimou que cerca de 28% dos aposentados apresentam sintomas depressivos, com índices maiores quando a saída do trabalho não foi planejada.
Durante grande parte da vida, a questão dirigida a esses homens foi simples: “Qual é a sua profissão?”. Pouco se perguntava sobre interesses pessoais ou sonhos fora do trabalho.
Quando a carreira termina, muitos precisam construir uma nova identidade praticamente do zero. Trata-se de um processo complexo de adaptação e busca por sentido.
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Por isso, especialistas sugerem uma mudança de abordagem. Em vez de perguntar como ele está ocupando o tempo, vale questionar o que realmente importa agora. O silêncio pode não significar tranquilidade. Pode ser um pedido de ajuda que nunca foi verbalizado.