Um levantamento científico inédito revelou 13 novas espécies de aves marinhas no estado de São Paulo, elevando para 68 o total de espécies registradas no litoral paulista. O estudo, publicado na revista Papéis Avulsos de Zoologia (USP), é a revisão mais ampla já realizada sobre a avifauna marinha da região.
A pesquisa integra a dissertação de mestrado em biodiversidade de ambientes costeiros de Robson Silva e Silva (CLP – UNESP), sob orientação de Edison Barbieri, do Instituto de Pesca, com colaboração do pesquisador Fábio Olmos. O trabalho reúne mais de um século de registros e atualiza dados essenciais para a conservação no Atlântico Sul.
Os pesquisadores compilaram informações de coleções científicas nacionais e internacionais, bancos de dados de anilhamento, literatura taxonômica recente e plataformas de ciência cidadã, como WikiAves e eBird.
O levantamento também incorporou registros inéditos do Programa de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), executado sob supervisão do IBAMA e da Petrobras.
Com a análise integrada, o número de espécies confirmadas passou de 55 para 68 — sendo 18 residentes (seis delas reprodutivas no litoral paulista) e 50 migratórias, oriundas do hemisfério norte e do sul.
Entre as 13 espécies registradas pela primeira vez no estado estão aves raras no Brasil, como:
• Oceanites chilensis — pardela-do-Fuego
• Pelagodroma marina — alma-negra-de-face-branca
• Xema sabini — gaivota-de-Sabine
• Chlidonias niger — trinta-réis-escuro
• Phaethon aethereus — rabijunco-de-bico-vermelho
Segundo Barbieri, as novas ocorrências ‘evidenciam a complexidade ecológica do litoral paulista, que funciona como área de reprodução, alimentação e descanso para espécies de longas rotas migratórias’.
O estudo alerta que 35% das aves marinhas registradas no estado estão em algum grau de ameaça, segundo listas da IUCN, Ministério do Meio Ambiente e Secretaria Estadual de Meio Ambiente.
Espécies emblemáticas, como o trinta-réis-real (Thalasseus maximus), que nidifica apenas em pequenas ilhas paulistas, aparecem como ameaçadas em todas as esferas de proteção.
Os autores defendem que os dados devem nortear:
• criação de áreas marinhas protegidas;
• planos de manejo costeiro;
• mitigação de impactos da pesca industrial;
• avaliação de empreendimentos offshore, portuários e eólicos.
Pressões no litoral paulista
Com 860 km de costa, São Paulo abriga áreas produtivas e sensíveis do Atlântico Sul, mas enfrenta:
• urbanização acelerada,
• poluição,
• tráfego marítimo intenso,
• expansão de atividades energéticas.
As aves marinhas — bioindicadoras da saúde oceânica — refletem mudanças climáticas, sobrepesca e contaminação por plástico e metais pesados.
Registros fotográficos de observadores independentes foram essenciais para confirmar novas espécies. A pesquisa demonstra o papel crescente da sociedade no avanço científico.
Para Barbieri, os dados ‘precisam orientar políticas públicas de conservação, monitoramento contínuo da avifauna e fortalecimento de programas de educação ambiental’.
