Estudo da USP com estrelas de 10 bilhões de anos desafia origem da Via Láctea

Novas evidências indicam que parte da galáxia se formou antes do previsto, contrariando modelos tradicionais de fusão estelar

Uma pesquisa da USP está revolucionando a compreensão sobre a cronologia de formação da Via Láctea

Uma pesquisa da USP está revolucionando a compreensão sobre a cronologia de formação da Via Láctea | Pexels

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) está revolucionando a compreensão sobre a cronologia de formação da Via Láctea. O estudo, publicado recentemente no periódico científico The Astrophysical Journal, identificou um grupo de estrelas com idades superiores a 10 bilhões de anos localizadas no chamado “disco fino”, a estrutura galáctica onde o Sol está inserido.

A descoberta é considerada um marco, pois as idades desses astros são anteriores à última grande fusão de galáxias que, segundo os modelos tradicionais, teria sido o evento necessário para dar origem a essa parte da nossa galáxia.

Para chegar a esses resultados, a equipe utilizou o código de computador StarHorse, uma ferramenta desenvolvida com forte participação brasileira que integra dados de fotometria, espectroscopia e astrometria. Ao combinar informações sobre temperatura, composição química e distância da Terra, os pesquisadores conseguiram datar as estrelas com precisão inédita.

O cenário clássico da astronomia propunha que o “disco espesso” teria se formado primeiro e que o “disco fino” seria um componente mais jovem, surgido apenas após a colisão com uma galáxia satélite. No entanto, a presença de centenas de estrelas anciãs no disco fino invalida essa teoria de sucessão temporal.

@@NOTICIA_GALERIA@@

A pesquisadora Lais Borbolato, doutoranda do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e primeira autora do artigo, explica que os dados colhidos forçam a comunidade científica a repensar a evolução galáctica.

“Identificamos centenas de estrelas com características do disco fino que possuem idades anteriores à fusão, comparáveis às idades das estrelas do disco espesso”, afirma Lais em entrevista ao Jornal da USP.

Segundo ela, esses resultados sugerem que o disco fino não é um “filho” tardio da fusão galáctica, mas sim uma estrutura que pode ter se desenvolvido simultaneamente ao disco espesso.

As implicações do estudo são profundas, pois apontam para a necessidade de revisar os modelos de simulação do Universo. Se o disco fino começou a se formar mais cedo do que se pensava, outros mecanismos físicos, além das fusões de galáxias, devem ter desempenhado papéis fundamentais na organização da Via Láctea.

“Esses resultados indicam que o disco fino pode ter começado a se formar mais cedo do que se pensava. Isso aponta para a necessidade de investigar outros mecanismos de formação capazes de explicar a origem conjunta desses dois componentes”, ressalta a pesquisadora.