Esta cidade chinesa eliminou 70% da poluição em uma década e hoje respira melhor que São Paulo

Enquanto a capital chinesa celebra recorde histórico, São Paulo ocupa o primeiro lugar no ranking das cidades mais poluídas do mundo

Com 311 dias de ar limpo em 2025, Pequim celebra uma virada histórica enquanto uma névoa de microplásticos invisíveis emerge como o próximo grande desafio das megacidades

Com 311 dias de ar limpo em 2025, Pequim celebra uma virada histórica enquanto uma névoa de microplásticos invisíveis emerge como o próximo grande desafio das megacidades | Reprodução/Wikimedia communs

A média anual de PM2,5 em Pequim caiu para 27 µg/m³ em 2025, o menor nível desde o início do monitoramento.

A cidade registrou apenas um dia de poluição intensa e os moradores desfrutaram de 311 dias com qualidade do ar boa ou moderada, um recorde que pareceria impossível na época em que a poluição atmosférica costumava obscurecer a paisagem urbana.

Os números, provenientes de relatórios oficiais de avaliação ambiental, mostram uma mudança real e mensurável no ar que as pessoas respiram diariamente.

Uma década de recuperação

A recuperação da cidade começou em 2013, quando os níveis de PM2,5 atingiram uma média de 89,5 µg/m³ e a pressão pública aumentou em relação aos riscos à saúde e à poluição que prejudicava a visibilidade.

Em 2025, essa média anual havia caído para 27 µg/m³, uma queda de cerca de 70% em pouco mais de uma década. É a primeira vez que Pequim fica abaixo do limite de 30 µg/m³ usado nos próprios padrões da China.

A fuligem recuou, os escapamentos poluem menos e o céu ficou mais azul — mas algo que você não consegue ver ainda paira sobre as grandes cidades chinesas/Wikimedia communs 

A melhoria não se limita às médias. Os episódios de poluição severa praticamente desapareceram. O relatório ecológico mais recente de Pequim também aponta para reduções generalizadas em outros poluentes, incluindo PM10 e dióxido de nitrogênio, enquanto o ozônio continua sendo um problema sazonal persistente.

Benefícios reais, mas padrões globais ainda distantes

As partículas PM2,5 representam um risco à saúde, pois podem penetrar profundamente nos pulmões e até mesmo entrar na corrente sanguínea.

Menos dias de confinamento são uma grande vitória, especialmente para idosos e pessoas com asma ou doenças cardíacas. Mas Pequim ainda está bem acima dos padrões globais de saúde.

A diretriz de 2021 da Organização Mundial da Saúde recomenda 5 µg/m³ como meta anual, e o padrão anual dos Estados Unidos é de 9 µg/m³.

O nível de 27 µg/m³ em Pequim é muito melhor do que era antes, mas ainda representa um nível de exposição a longo prazo que especialistas em saúde pública gostariam de ver diminuir ainda mais.

Em comparação, São Paulo ultrapassou Pequim em 2024 e foi apontada como a cidade com o ar mais poluído do mundo, segundo levantamento da agência suíça IQAir.

No ranking, Pequim — tão conhecida por seu ar “irrespirável” — aparece na 8ª posição, enquanto a capital paulista ocupa o primeiro lugar. A trajetória de recuperação de Pequim pode servir de espelho para o que São Paulo ainda precisa alcançar.

Enquanto Pequim atinge o menor nível de partículas poluentes da história, a capital paulista assume o topo do ranking das cidades com o pior ar do mundo/Freepik

As políticas que fizeram a diferença

O progresso de Pequim não se deveu a uma única solução mágica. As autoridades intensificaram progressivamente as medidas de controle das emissões industriais, eliminaram gradualmente os veículos mais antigos e incentivaram a adoção de padrões mais limpos para os carros novos, comparáveis ao Euro 6.

A cidade também utilizou medidas de controle de tráfego, como a restrição de placas pares e ímpares, durante períodos de alta poluição. Igualmente importante, a cidade expandiu o transporte público e incentivou as pessoas a deixarem os carros particulares para deslocamentos diários.

Mobilidade elétrica e desafios energéticos

Uma parte importante da história de Pequim é a rápida eletrificação da mobilidade, desde ônibus e táxis até carros particulares. O relatório destaca o incentivo a veículos de novas energias em setores-chave e a expansão da rede de pontos de recarga por toda a cidade.

Ainda assim, se a eletricidade é gerada a partir de combustíveis poluentes, a poluição pode migrar do bulevar para a usina. É por isso que redes elétricas mais limpas e o crescimento de energias renováveis são tão importantes quanto carros mais limpos.

A Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis relatou cerca de 16,5 milhões de vendas de veículos de novas energias em 2025, um aumento em relação ao ano anterior, o que ajuda a explicar como as grandes cidades podem se eletrificar rapidamente.

Lições para outras cidades

A história de Pequim sugere que políticas consistentes, aliadas a uma monitorização rigorosa, podem mudar a trajetória de uma megacidade em cerca de uma década.

Mas o trabalho nunca termina, especialmente porque as mudanças climáticas intensificam o calor, a fumaça dos incêndios florestais e a formação de ozônio, e porque novos poluentes, como os plásticos em suspensão, entram em cena.

No fim das contas, a gestão da qualidade do ar é uma maratona com uma linha de chegada em constante movimento.

Pequim demonstrou que é possível progredir rapidamente, mas a próxima fase exigirá que governos e cientistas continuem a fazer perguntas difíceis sobre o que está pairando sobre as cidades e o que essas partículas estão fazendo dentro dos corpos humanos.