Coronavírus

Escravo santista é reconhecido arquiteto 200 anos depois

Esquecido pela história, Tebas, como era conhecido, restaurou a Catedral da Sé e fez fachadas de igrejas importantes em São Paulo no século XVIII

Comentar
Compartilhar
28 JAN 2020Por Da Reportagem16h19
Praça da Sé em foto de 1880 de Marc Ferrez. A velha catedral de São Paulo está à direitaFoto: Marc Ferrez/Instituto Moreira Salles, via Wikimedia Commons

Um escravo nascido em Santos ficou conhecido no Século XVIII por dominar o ofício de talhar pedras em formas geométricas para construções e criar projetos para edificações, principalmente religiosas, no centro da capital paulista. Em 2018, foi considerado oficialmente arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo.

Na época, Tebas (Joaquim Pinto de Oliveira) foi o responsável ter ornamentado a fachada de endereços como a antiga igreja do Mosteiro de São Bento. Ele também ergueu o primeiro chafariz público da capital, o da Misericórdia, instalado na atual Rua Direita.

O chafariz ficou conhecido pelo apelido mesmo após sua morte, em 1811. A peça foi retirada após o processo de canalização de água, em 1886. Ele era ponto de encontro de escravos que iam buscar água para seus senhores.

De provável família africana (de quem, especula-se, teria aprendido as habilidades), Tebas, nascido em 1721, teve sua história resgatada pelo livro "Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata (Abordagens)", organizado pelo jornalista Abilio Ferreira e lançado no ano passado.

O primeiro senhor de Tebas foi o mestre pedreiro português Bento de Oliveira Lima. Radicado em Santos, esse artesão passou a ser solicitado para trabalhos em São Paulo.

Então construída em taipa de pilão, a cidade carecia do conhecimento de quem soubesse trabalhar a pedra, que era de uso comum na cidade litorânea, para decorar as fachadas de igrejas mais ricas.

Dos quatro artífices escravizados em posse de Lima quando de sua morte, em 1769, Tebas era o mais valioso, o que seria indício de seu talento. No inventário do patrão, valia 400 mil réis, enquanto cada um dos demais, 100 mil.

Entre as muitas obras para as quais o mestre passou a ser requisitado, estava a reforma da velha catedral da Sé, que deixou inacabada ao morrer e foi concluída por Tebas.

Para saldar dívidas, a viúva de Lima teve de dispor de bens; interessado em concluir a fachada da Sé, seu arcebispo, Matheus Lourenço de Carvalho, ficou com Tebas. Foi ele quem, em meio a um processo contra a viúva, concedeu-lhe a alforria, entre 1777 e 1778.

Para Abílio Ferreira, o aspecto que sintetiza a importância de Tebas é o fato de que seu trabalho tocou os três vértices da região do centro hoje chamada Triângulo Histórico: as sedes dos beneditinos, dos carmelitas e dos franciscanos.

Documentos registram a contratação de Tebas para lavrar, em 1766, a pedra fundamental da antiga igreja do mosteiro de São Bento; essa pedra teria sido recuperada em 1911, quando da demolição que deu origem à atual sede.

Na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, ainda se podem ver os arcos talhados por Tebas —a igreja, na av. Rangel Pestana, não foi incluída no trajeto de sábado, mas fica bem próxima do início dele.

Tebas terá sua apoteose no largo São Francisco, em frente à Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco, de fachada por ele adornada.

Ele morreu aos 90 anos. Em 2018, foi considerado oficialmente arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo.

Fontes: Revista Veja e Folhapress