Entre jovens, maioria lê notícias de modo ‘acidental’

Segundo pesquisa norte-americana, jovens de 18 a 34 anos usam as redes sociais como primeira opção para busca de notícias, mas estão longe de ser desinteressados

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13 ABR 201510h53

Com informações do Observatório da Imprensa

90% dos jovens consomem notícias regularmente através do Facebook, mas menos da metade diz que a notícia é sua principal motivação para visitar o site ou aplicativo da rede social. Ou seja, a notícia não é buscada pelo leitor jovem, ela é visualizada quase que “acidentalmente”.

Estas são algumas das constatações da pesquisa “Millennial media habits” (Hábitos de mídia da geração do milênio, na tradução livre), realizada pela ONG American Press Institute, ligada à Associação de Jornais da América, com jovens entre 18 e 34 anos. Embora o estudo tenha sido conduzido nos Estados Unidos, ele é um indicativo importante da relação da primeira geração digital com a imprensa.

Os jovens da chamada “Geração do Milênio” - formada justamente pela faixa etária pesquisada pela ONG - se preocupam pouco com os noticiários e transformaram a forma de buscar notícia. Antigamente, para saber o que acontecia em sua cidade, País ou pelo mundo, era primordial consultar jornais, telejornais e revistas. No entanto, atualmente, uma rápida “zapeada” pelo feed de notícias de uma rede social e um mundo de informações salta nos olhos.

Ainda segundo a pesquisa, outra indicação de que os jovens estão dedicando pouca energia para encontrar notícias é que apenas uma minoria prefere pagar para receber informações. Embora 93% dos pesquisados tenham informado assinar pelo menos um serviço de comunicação, menos da metade deste grupo disse pagar de fato pelas notícias.

A porcentagem de jovens que pagam por um serviço ou aplicativo de notícias (40%) é menor do que o número que paga para ter acesso a filmes e TV (55%), a jogos (48%) ou a música (48%). 

A pesquisa indica dados importantes da primeira geração digital com a imprensa (Foto: Matheus Tagé/DL)

Julgamento

Ao saber as primeiras informações sobre a pesquisa, é fácil imaginar a geração mais antiga - ainda muito ligada aos jornais e telejornais - julgando a “Geração do Milênio” como desinteressada e alienada. Mas ainda é cedo para isso. O levantamento da ONG American Press Institute precisou analisar o conceito de “notícia” na mente dos entrevistados. O que as pessoas de fato consideram notícia? Tráfego e condições meteorológicas, alimentos e restaurantes, placares esportivos?

Desta forma, o estudo investigou os tópicos nos quais as pessoas prestam atenção e de que modo buscam mais informações sobre os mesmos com entrevistas qualitativas, nas quais os entrevistados foram questionados diretamente sobre os temas que mais os faziam passar tempo online. O resultado? Os jovens de 18 a 34 anos não focam somente em notícias leves e de entretenimento.

Segundo a pesquisa, a “Geração do Milênio” acompanha regularmente uma ampla gama de tópicos, uma mistura de notícias consideradas “sérias” (as chamadas “hard news”), notícias leves e notícias que servem como tópicos de conversas do dia a dia.

Além disso, os nativos digitais são racionais e exigentes na forma como utilizam diferentes fontes de informação para cada tipo de notícia: além de utilizar as redes sociais de forma mais determinada, este grupo faz uso de motores de busca e agregadores para complementar as informações que já possuem, optando sempre por fontes que lhes pareçam mais “profissionais” e confiáveis.

Interesse

O jovem tende a se concentrar em assuntos do seu interesse. Entre os pesquisados americanos, os temas televisão, música e filmes estão entre os tópicos mais seguidos (dois em cada três entrevistados declararam acompanhar as notícias sobre tais assuntos regularmente).

No entanto, mais pessoas disseram acompanhar política, crimes, tecnologias, sua comunidade local e questões sociais em comparação àquelas que disseram acompanhar cultura pop e de celebridades, moda e estilo.

Quase todos os jovens adultos entrevistados acompanham as chamadas “hard news”: 45% dos jovens da “Geração do Milênio” acompanham cinco ou mais tópicos do gênero. O interesse pelas “hard news”, aliás, não parece estar correlacionado à idade. Os entrevistados mais jovens são tão propensos a acompanhar tópicos de “hard news” quanto os mais velhos do grupo.

As entrevistas qualitativas indicaram que praticamente todos possuíam algum objeto de interesse profundo, podendo este ser relacionado à carreira, herança familiar, experiência de viagem ou algum outro fator. E todos tendem a ser bastante conscientes e ativos ao buscar informações sobre estas áreas de interesse, identificando os especialistas e acompanhando as empresas jornalísticas mais confiáveis.

Em outras palavras, embora o Facebook seja o meio mais popular para se descobrir algum assunto, quando as pessoas querem pesquisar mais, elas recorrem a outros caminhos, incluindo as empresas de notícias.

Consumo

Segundo o estudo do American Press Institute, embora as redes sociais estejam em primeiro lugar na busca por notícias, as plataformas para encontrar notícias (sejam organizadas por algoritmo, editores humanos ou uma combinação do dois) são a segunda fonte mais acessada (inclui-se aí sites de busca, agregadores e blogs). Pelo menos sete em cada dez entrevistados disseram recorrer a este recurso.

A terceira via é a mídia jornalística tradicional.

Como os jovens estão buscando por notícias?

“Acesso basicamente portais de notícia da minha Região e não sigo páginas de notícias nas redes sociais. Quase nunca leio notícias em redes sociais. As noticias são, em sua maioria, fabricadas e sem sentido. O povo propaga sem se preocupar se são verdadeiras ou se as fontes são confiáveis. Gosto sempre de saber sobre economia e política porque, no meu caso é de extrema importância. Trabalho com venda de caminhões, que são quase sempre financiados com subsídio do Governo. Crises econômicas e políticas afetam diretamente o meu trabalho”.

Beatriz Persick Santana, 30 anos, consultora de vendas

“Acesso mais o G1 e a Folha, e sigo vários portais de notícia pelas redes sociais. Acompanhar o noticiário é minha primeira tarefa do dia. Gosto de saber sobre esporte, entretenimento, política, polícia e dicas de saúde, mas, no Facebook, só acesso o que aparece na minha timeline. Se manter informado é uma das coisas mais importantes da vida”  

Flávia de Oliveira, 25 anos, publicitária 

“Normalmente entro sempre no G1. Já a Uol, Folha e Estadão só entro por meio do Facebook, quando aparece uma notícia que alguém compartilhou e me interesso. Sempre me informo através da internet mesmo. Tenho costume de ver notícias de fofoca de famosos, moda e coisas nesse segmento. Porém, agora estou mudando esse hábito e lendo coisas mais interessantes que possam acrescentar algo de verdade. É fundamental o interesse de ser informar sobre o que acontece, nos torna mais rico em conhecimento”  

- Wanessa de Oliveira Braga, 18 anos, universitária