Em Londres, hambúrguer dá medo

Cauteloso, consumidor londrino muda hábitos alimentares e substitui a carne bovina por frango e peixe, desde o escândalo envolvendo carne de cavalo

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16 FEV 201320h04

Ao sul do Rio Tâmisa, o supermercado está quase cheio. Alguns carrinhos lotados, clientes com cestas nas mãos e filas nos caixas. O corredor dos produtos congelados, porém, está diferente. Só há algumas lasanhas vegetarianas. Os hambúrgueres sumiram. Ao lado, muitos olham para pratos com frango e peixe.

Essa cautela do consumidor é o resultado mais visível da revelação de que a carne de cavalo está sendo usada irregularmente no lugar da bovina na Europa. Mas, muito mais que mudar o cardápio do jantar, o escândalo lança dúvidas sobre a indústria de alimentos na Europa e a busca incessante pelo menor preço.

O escândalo alimentar que se espalha pela Europa começou há um mês no Reino Unido. Em meados de janeiro, testes revelaram traços de DNA de cavalo em hambúrgueres vendidos em supermercados da Inglaterra e Irlanda. De 27 amostras, dez estavam contaminadas. No caixa, porém, todas diziam que o hambúrguer era de carne bovina.

Ao classificar a situação como "inconcebível", a primeira reação do governo foi exigir testes. O resultado, porém, não foi animador. Em 7 de fevereiro, descobriu-se que lasanhas congeladas vendidas na Inglaterra - supostamente de carne bovina - tinham "até 100% de carne de cavalo". O escândalo ganhou tom internacional: os pratos eram fabricados por uma empresa francesa.

Preços populares

Desde o estouro da crise nos Estados Unidos em 2008, a economia da Europa passa por maus momentos: países em contração, desemprego e cortes de gastos nas famílias. Nesse contexto, o varejo britânico deu uma guinada para o desconto.

os últimos anos, supermercados de desconto como o Iceland, que se orgulha de vender praticamente todos os produtos por 1 libra - cerca de R$ 3 - tiveram rápida expansão.

Para não perder clientes, as redes tradicionais tiveram de reagir. Assim, além das marcas próprias, varejistas inglesas passaram a apostar em linhas ainda mais baratas.

O Tesco, o maior supermercado inglês, por exemplo, lançou no ano passado a linha "Everyday Value", que oferece preços menores que os produtos da marca "Tesco". Fabricantes de alimentos, por sua vez, também reagiram e lançaram novos produtos mais populares para não perder a disputa.

Entre os produtos contaminados com carne de cavalo descobertos até agora, todos têm uma coincidência: são marcas agressivas nos preços. A lasanha de carne da Findus, que continha até 100% de carne de cavalo, por exemplo, custava em média 1,50 libra - cerca de R$ 4,50. Em promoção, era encontrada facilmente por 1 libra. Marcas líderes podem custar até 5 libras.

Já a caixa com oito hambúrgueres Everyday Value era vendida a 1 libra no Tesco. Na verdade, era a resposta à concorrente Iceland, do mesmo preço. Reprovados nos testes, esses produtos não estão mais nas gôndolas.

Especialistas dizem que não há milagre. "A pressão para vender mais barato levou comerciantes desonestos a usar a carne de cavalo", disse a pesquisadora de cadeias de fornecimento da Universidade de Birmingham, Pamela Robinson. "A atual crise nos alimentos industrializados revela que a comida era muito barata no Reino Unido. Temos de reconhecer que, se queremos uma comida de boa qualidade, temos de pagar por isso."

A pressão por preço é repassada aos fornecedores. Por isso, criam-se cadeias de fornecimento complexas. A lasanha Findus, por exemplo, passava direta ou indiretamente por cinco países antes de chegar a um supermercado inglês.

Com tantas etapas, é mais difícil fiscalizar e mais difícil ainda encontrar um culpado. Diante da crise, Pamela Robinson sentencia: "A época da comida barata acabou na Inglaterra." Para ela, quando os hambúrgueres e lasanhas voltarem às prateleiras, os preços serão maiores ou os produtos, menores.