Em ano eleitoral, como anda a polarização em sala de aula?

A Reportagem entrevistou três professores do Ensino Médio, por lidarem com a faixa etária entre 16 e 19 anos para falarem sobre o assunto

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02 ABR 2018Por Vanessa Pimentel09h20
O debate entre diferentes posições poderia ser considerado saudável, mas, um detalhe assusta: a violência com que as opiniões são escritasFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Bastam poucos minutos de navegação pelas redes sociais para encontrar alguma discussão política pelo caminho. Em maioria, jovens ainda em idade escolar, estão presentes. O debate entre diferentes posições poderia ser considerado saudável, mas, um detalhe assusta: a violência com que as opiniões são escritas.

Entre xingamentos e exclusão de perfis, um clima de guerra permeia o que, na teoria, era para ser um local de entretenimento. Com este cenário virtual agressivo, o DL levantou a seguinte questão: Como anda a polarização em sala de aula?

A Reportagem entrevistou três professores do Ensino Médio, por lidarem com a faixa etária entre 16 e 19 anos. Dalberto Christofoletti é professor de Geopolítica; Matheus Salgado, de Gramática e Português, ambos funcionários do Colégio Objetivo; e Abel Robson Barbosa Soares, professor de História na Escola Estadual Professor Luiz D’Áurea, em São Vicente. 

Os três afirmaram que o ambiente hostil da internet não se reproduz em sala de aula, mas para evitar discussões superficiais na escola, como ocorrem virtualmente, é necessário todo um planejamento que visa trazer os temas polêmicos para as aulas, mas com aprofundamento e contextualização. 

O professor Dalberto explica que as escolas precisam oferecer um espaço onde os alunos possam praticar o debate, já que eles acompanham através da mídia e das redes sociais o que está acontecendo no país, mas nem sempre conseguem entender com clareza todas as questões. 

“O problema da rede social é que a opinião se antecipa à construção do conhecimento sobre o tema”, diz. “É importante contextualizar e estimular a convivência entre as múltiplas opiniões”, complementa. 

Quanto à polarização, Dalberto diz perceber que, atualmente no Brasil, este tipo de postura está presente em quase tudo no que se refere às questões comportamentais e ideológicas, mas que na sala de aula, é importante fazer o trabalho contrário. 

“Dentro da sala o aluno pode colocar o ponto de vista dele, mas precisa esperar o outro acabar de falar. Eu digo que o antídoto pra essa questão da polarização é a própria prática do debate porque, na verdade, você não tem isso na rede social. Ali o que se vê é uma guerra e uma guerra superficial”, analisa. 

Matheus acredita que na internet as discussões não têm um raciocínio a respeito do conceito, poucos procuram saber o que há por trás daquilo que está sendo apresentado. 

“Quando você conceitua, a possibilidade de diversas interpretações diminui porque a função do conceito é definir as coisas. A partir daí a gente consegue discutir de forma inteligente e a conversa toma outro viés, diferente do que acontece na rede social”, diz Matheus. 

O professor Abel conta que mesmo com tantos jovens falando sobre política hoje em dia, ainda há muitos desinteressados. 

“Nós temos alunos que se posicionam e defendem seus ideais, mas a maioria é indiferente. Fizemos uma pesquisa neste mês (março) entre o pessoal do ensino médio para saber em quem eles votariam se a eleição fosse hoje e muitos não sabem e nem fazem questão de acompanhar o que está acontecendo no país”, destaca Abel. 

Em compensação, o número de alunos conservadores na escola, segundo ele, é grande e em uma outra pesquisa de intenção de votos, Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita ganhou em todas as salas. Já o ex-presidente Lula ficou com a segunda colocação. 

“Esse resultado é reflexo do que acontece na internet, a diferença é que essa divergência de opinião é mais respeitada aqui do que lá”, diz. 

Obs: Uma pesquisa realizada em outubro do ano passado pelo Instituto Datafolha mostrou que o ex-presidente Lula liderava, na época, as intenções de voto. No cenário sem ele, Jair Bolsonaro (PSC) seria o vencedor. Um detalhe: cerca de 60% dos que indicaram Bolsonaro, conhecido pelo perfil conservador, eram jovens.

Eleições 

Com as eleições se aproximando, as duas escolas planejam elucidar, junto aos estudantes, as propostas dos futuros candidatos. 

Segundo os professores Dalberto e Matheus, estão previstas algumas aulas sobre as questões que envolvem uma eleição, a análise das propostas dos presidenciáveis e até a possível visita dos candidatos à instituição. 

“Um modelo que a gente acha interessante e que já foi usado em sala foi os professores encarnando pontos de vista diferentes, por exemplo, um professor encenou as posições do Donald Trump e outro o Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte”, comenta Dalberto. 

Ao verem em atitudes o que até então eram só palavras, as reações dos jovens são as mais variadas, segundo os docentes. 

“Isso faz com que os alunos pensem e questionem. Eles chegam aqui com aquilo que veem no Facebook, geralmente sem nenhum contexto histórico, mas a partir do momento que aprendem a ouvir a opinião dos colegas e percebem que têm muitas coisas acontecendo, não só aquilo que eles têm em mente, começam a enxergar o mundo de outra forma e isso pode se refletir até em uma mudança de comportamento”, conta Matheus.  

Adão também planeja aulas especiais durante as campanhas eleitorais junto aos seus alunos no Luiz D’Áurea. 

“O que vale destacar, principalmente em eleições, é a importância do voto. Também digo que é preciso prestar muita atenção não só no discurso do candidato, mas como a ação vinda desse discurso pode, de fato, afetar a vida da população”, alerta Adão. 

Escola Sem Partido

Os docentes foram questionados também sobre a sua visão em relação ao projeto de lei do programa “Escola sem Partido”, que tem como base a ideia de que há uma doutrinação político-ideológica mais voltada à esquerda nas escolas brasileiras. Por isso, o projeto pretende especificar os limites de atuação dos professores em sala de aula e dá o direito dos pais de escolherem como será o ensino de religiões distintas das suas.


“Eu sou totalmente contra a ideia da Escola sem Partido, aqui é a ideia da escola multipartidária e democrática para que o aluno adquira suas convicções e possa colocá-las sem medo”.

Dalberto Christofoletti -
Professor de Geopolítica

 

 

 

 

“Entre os próprios professores há uma gama muito grande de posições políticas, desde as mais conservadoras até os mais progressistas. Se a gente está pensando em estimular o convívio, o ideal é que essas diversas posturas estejam juntas, conversando, discutindo. É isso que enriquece a escola. É preciso conviver ainda que as ideias sejam diferentes". Matheus Salgado -Professor de Português


"A Escola sem Partido é totalmente contrária à formação do senso crítico. Ela diminui a capacidade de questionar e analisar os temas em diversos pontos de vista”.  Abel Soares, professor de História.