Em ano eleitoral, como anda a polarização em sala de aula?

A Reportagem entrevistou três professores do Ensino Médio, por lidarem com a faixa etária entre 16 e 19 anos para falarem sobre o assunto

Bastam poucos minutos de navegação pelas redes sociais para encontrar alguma discussão política pelo caminho. Em maioria, jovens ainda em idade escolar, estão presentes. O debate entre diferentes posições poderia ser considerado saudável, mas, um detalhe assusta: a violência com que as opiniões são escritas.

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Entre xingamentos e exclusão de perfis, um clima de guerra permeia o que, na teoria, era para ser um local de entretenimento. Com este cenário virtual agressivo, o DL levantou a seguinte questão: Como anda a polarização em sala de aula?

A Reportagem entrevistou três professores do Ensino Médio, por lidarem com a faixa etária entre 16 e 19 anos. Dalberto Christofoletti é professor de Geopolítica; Matheus Salgado, de Gramática e Português, ambos funcionários do Colégio Objetivo; e Abel Robson Barbosa Soares, professor de História na Escola Estadual Professor Luiz D’Áurea, em São Vicente. 

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Os três afirmaram que o ambiente hostil da internet não se reproduz em sala de aula, mas para evitar discussões superficiais na escola, como ocorrem virtualmente, é necessário todo um planejamento que visa trazer os temas polêmicos para as aulas, mas com aprofundamento e contextualização. 

O professor Dalberto explica que as escolas precisam oferecer um espaço onde os alunos possam praticar o debate, já que eles acompanham através da mídia e das redes sociais o que está acontecendo no país, mas nem sempre conseguem entender com clareza todas as questões. 

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“O problema da rede social é que a opinião se antecipa à construção do conhecimento sobre o tema”, diz. “É importante contextualizar e estimular a convivência entre as múltiplas opiniões”, complementa. 

Quanto à polarização, Dalberto diz perceber que, atualmente no Brasil, este tipo de postura está presente em quase tudo no que se refere às questões comportamentais e ideológicas, mas que na sala de aula, é importante fazer o trabalho contrário. 

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“Dentro da sala o aluno pode colocar o ponto de vista dele, mas precisa esperar o outro acabar de falar. Eu digo que o antídoto pra essa questão da polarização é a própria prática do debate porque, na verdade, você não tem isso na rede social. Ali o que se vê é uma guerra e uma guerra superficial”, analisa. 

Matheus acredita que na internet as discussões não têm um raciocínio a respeito do conceito, poucos procuram saber o que há por trás daquilo que está sendo apresentado. 

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“Quando você conceitua, a possibilidade de diversas interpretações diminui porque a função do conceito é definir as coisas. A partir daí a gente consegue discutir de forma inteligente e a conversa toma outro viés, diferente do que acontece na rede social”, diz Matheus. 

O professor Abel conta que mesmo com tantos jovens falando sobre política hoje em dia, ainda há muitos desinteressados. 

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“Nós temos alunos que se posicionam e defendem seus ideais, mas a maioria é indiferente. Fizemos uma pesquisa neste mês (março) entre o pessoal do ensino médio para saber em quem eles votariam se a eleição fosse hoje e muitos não sabem e nem fazem questão de acompanhar o que está acontecendo no país”, destaca Abel. 

Em compensação, o número de alunos conservadores na escola, segundo ele, é grande e em uma outra pesquisa de intenção de votos, Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita ganhou em todas as salas. Já o ex-presidente Lula ficou com a segunda colocação. 

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“Esse resultado é reflexo do que acontece na internet, a diferença é que essa divergência de opinião é mais respeitada aqui do que lá”, diz. 

Obs: Uma pesquisa realizada em outubro do ano passado pelo Instituto Datafolha mostrou que o ex-presidente Lula liderava, na época, as intenções de voto. No cenário sem ele, Jair Bolsonaro (PSC) seria o vencedor. Um detalhe: cerca de 60% dos que indicaram Bolsonaro, conhecido pelo perfil conservador, eram jovens.

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Eleições 

Com as eleições se aproximando, as duas escolas planejam elucidar, junto aos estudantes, as propostas dos futuros candidatos. 

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Segundo os professores Dalberto e Matheus, estão previstas algumas aulas sobre as questões que envolvem uma eleição, a análise das propostas dos presidenciáveis e até a possível visita dos candidatos à instituição. 

“Um modelo que a gente acha interessante e que já foi usado em sala foi os professores encarnando pontos de vista diferentes, por exemplo, um professor encenou as posições do Donald Trump e outro o Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte”, comenta Dalberto. 

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Ao verem em atitudes o que até então eram só palavras, as reações dos jovens são as mais variadas, segundo os docentes. 

“Isso faz com que os alunos pensem e questionem. Eles chegam aqui com aquilo que veem no Facebook, geralmente sem nenhum contexto histórico, mas a partir do momento que aprendem a ouvir a opinião dos colegas e percebem que têm muitas coisas acontecendo, não só aquilo que eles têm em mente, começam a enxergar o mundo de outra forma e isso pode se refletir até em uma mudança de comportamento”, conta Matheus.  

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Adão também planeja aulas especiais durante as campanhas eleitorais junto aos seus alunos no Luiz D’Áurea. 

“O que vale destacar, principalmente em eleições, é a importância do voto. Também digo que é preciso prestar muita atenção não só no discurso do candidato, mas como a ação vinda desse discurso pode, de fato, afetar a vida da população”, alerta Adão. 

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Escola Sem Partido

Os docentes foram questionados também sobre a sua visão em relação ao projeto de lei do programa “Escola sem Partido”, que tem como base a ideia de que há uma doutrinação político-ideológica mais voltada à esquerda nas escolas brasileiras. Por isso, o projeto pretende especificar os limites de atuação dos professores em sala de aula e dá o direito dos pais de escolherem como será o ensino de religiões distintas das suas.

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“Eu sou totalmente contra a ideia da Escola sem Partido, aqui é a ideia da escola multipartidária e democrática para que o aluno adquira suas convicções e possa colocá-las sem medo”.

Dalberto Christofoletti –
Professor de Geopolítica

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“Entre os próprios professores há uma gama muito grande de posições políticas, desde as mais conservadoras até os mais progressistas. Se a gente está pensando em estimular o convívio, o ideal é que essas diversas posturas estejam juntas, conversando, discutindo. É isso que enriquece a escola. É preciso conviver ainda que as ideias sejam diferentes”. Matheus Salgado -Professor de Português


“A Escola sem Partido é totalmente contrária à formação do senso crítico. Ela diminui a capacidade de questionar e analisar os temas em diversos pontos de vista”.  Abel Soares, professor de História.