O que você estaria disposto a sacrificar por uma pele mais jovem ou uma noite melhor de sono? No mercado global, o preço pago custa a autonomia de mulheres e crianças em regiões pobres e a existência de uma espécie essencial para a humanidade.
O ejiao, uma tradicional gelatina medicinal chinesa produzida a partir da pele de jumentos, retornou ao centro de discussões após novos estudos revelarem graves impactos ambientais, sociais e econômicos causados pelo abate desenfreado dessa espécie.
Essa gelatina é vendida há séculos como um aliado contra o envelhecimento, anemia, insônia e baixa libido, movimenta bilhões de dólares anualmente e compõe fórmulas de cosméticos, bebidas, cápsulas e alimentos no mercado asiático.
Porém, apesar de sua fama, a eficácia terapêutica do produto não possui comprovação científica conclusiva.
O descompasso biológico e a crise global
A fonte do problema reside na própria biologia dos jumentos, visto que, diferente da maioria dos animais de abate, eles possuem uma reprodução lenta, com gestações que duram cerca de 12 meses e resultam em apenas um filhote por vez.
Essa característica torna impossível a reposição das populações na mesma velocidade em que são abatidas pela indústria. Estima-se que cerca de 5,9 milhões de jumentos sejam sacrificados todos os anos para abastecer esse mercado.
Como consequência, países como Botsuana, Quênia e Quirguistão registraram reduções severas em seus rebanhos, levando a União Africana a aprovar, em 2024, uma moratória de 15 anos contra o abate para exportação de peles.
Impactos sociais e o cenário no Brasil
A escassez desses animais gera um efeito cascata em comunidades rurais pobres, especialmente na África, onde os jumentos são vitais para o transporte de água, alimentos e mercadorias.
Quando os animais desaparecem, o trabalho pesado recai frequentemente sobre mulheres e crianças, prejudicando a renda familiar e o acesso à educação.
No Brasil, o cenário é igualmente complicado, visto que o país tornou-se um dos principais exportadores para a China, com animais recolhidos no Nordeste e abatidos na Bahia.
Esse fluxo causou uma queda devastadora de 94% na população brasileira de jumentos entre os anos 1990 e 2024, ameaçando o jumento nordestino, patrimônio genético do semiárido.
Recentemente, a Justiça Federal suspendeu o abate na Bahia, citando riscos de extinção e falhas sanitárias.
Desinformação e o futuro na ciência
Segundo dados da ONG The Donkey Sanctuary , a indústria sobrevive sob um manto de desconhecimento, já que quase metade dos consumidores chineses não sabe que o ejiao é feito de pele de jumento .
Além disso, 69% dos entrevistados desconhecem os impactos ambientais da produção.
Alternativas sustentáveis
No entanto, há um caminho para a mudança, já que 76% dos consumidores aceitariam alternativas produzidas em laboratório caso fossem acessíveis.
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão desenvolvendo métodos para fabricar colágeno derivado de jumentos sem a necessidade de abate, utilizando técnicas como a fermentação de precisão.
Especialistas acreditam que o futuro da indústria reside na agricultura celular, que utiliza microrganismos para produzir proteínas específicas em laboratório, oferecendo uma solução ética que reduz o abate de populações animais ao redor do mundo.






