Doulas tornam partos mais ‘leves’

Santos e Praia Grande regulamentaram a presença em hospitais.

Desde o último dia 23 de agosto, qualquer gestante que utilizar o Sistema Único de Saúde (SUS) estadual poderá optar, mesmo sem indicação médica, pela cesárea a partir da 39ª semana de gestação, assim como analgesia, no caso de parto normal. Trata-se de um projeto de lei de autoria da deputada estadual Janaina Paschoal, sancionada pelo governador João Doria.

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Na contramão do parto cesariana, realizado na Baixada Santista três vezes mais (54%) do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), cuja taxa ideal é de 10 a 15%, muitas gestantes estão procurando a ajuda de doulas para serem protagonistas no seu trabalho de parto.

“A função de uma doula é munir a gestante de informações para que ela saiba o que acontece no parto, quais as fases e como o corpo responde a elas. O conhecimento dá o poder para que a mulher escolha conscientemente, com autonomia, como dará à luz ao seu bebê. A profissional dá apoio físico e emocional antes, durante e após o nascimento”, explica Paula Gonçalves, doula há seis anos em Santos.

A analista de importação Flávia Bittencourt, de 34 anos, espera seu primeiro filho para o mês de outubro. “Tive certeza de que queria parto normal depois de acompanhar o nascimento da minha sobrinha, há cinco anos, em casa e com acompanhamento médico. Minha irmã pariu, levantou e foi tomar banho. Achei isso incrível”, relata.

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QUANDO PROCURAR

Não existe um tempo certo para procurar uma doula, algumas mulheres buscam uma profissional logo que descobrem estar grávidas, outras só pensam na possibilidade semanas antes de o bebê nascer. As gestantes que Paula acompanha fazem duas aulas: a primeira ocorre entre a 27ª e 30ª semana e a outra entre a 37ª e a 39ª, ambas com duração média de duas horas e meia. Além da teoria, são utilizados boneca, placenta e útero de pano para elucidar melhor as explicações.

“É fundamental que o pai da criança acompanhe as aulas porque ele também deve estar presente no momento do parto. O apoio emocional faz grande diferença. O homem também é parte do processo”, ressalta a profissional.

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Não são todos os hospitais que permitem a entrada de doulas. Por esse motivo, algumas cidades brasileiras já possuem leis para garantir o direito às gestantes. Na Baixada Santista, Santos, Praia Grande e Itanhaém permitem a presença da profissional em hospitais públicos e privados. No Estado, municípios como São Paulo, Santo André e São Caetano já possuem legislação desse tipo. Em 2013, a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) propôs projeto para garantir a presença de doulas em todos os serviços obstétricos no território do estadual, mas o projeto ainda aguarda votação na Assembleia Legislativa.

Para a diretora regional da Associação das Doulas do Estado de São Paulo (ADOSP), Deborah Delage, é importante explicar que as doulas não são e nem nunca foram parteiras, embora haja confusão.

“O parto sempre foi um evento familiar e entre mulheres. As doulas do passado eram familiares, amigas e comadres que levavam conforto durante o processo de trazer um bebê ao mundo. Já a parteira entrava nesse cenário especificamente para o parto”, esclarece.

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A analista de Recursos Humanos, Suellen Nascimento, de 33 anos, teve seu primeiro filho há seis meses. Para ter mais chances de parto normal, o que sempre quis, pesquisou sobre a função da doula e concluiu que seria fundamental a presença dessa profissional.

“Estudar sobre o parto fez toda a diferença na minha experiência, pois eu sabia muito bem dos meus direitos. A dor é tão intensa que se eu não tivesse conhecimento teria desistido. Foi um parto totalmente humanizado e sem anestesia”, conta.

REGULAMENTAÇÃO

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Para se tornar uma doula existem cursos com formatos e cargas horárias variadas, pois ainda não existe uma regulamentação da profissão com parâmetros mínimos de conteúdo e tempo. Existem desde cursos públicos e gratuitos a cursos privados. Na Capital, uma formação de 32 horas, custa cerca de R$ 1 mil.

“Fisiologicamente, toda mulher está preparada para o parto normal, o que manda é o psicológico. Não existe certo ou errado, cada mulher escolherá a forma, com ou sem anestesia, a posição e o lugar que achar melhor. Cabe aos profissionais e à família respeitar essas decisões”, enfatiza Paula.

Deborah Delage, da ADOSP, afirma que há muito o que caminhar, pois o cenário obstétrico brasileiro impõe muitos desafios às mulheres, em sua grande maioria destituídas de seu protagonismo e de escolhas informadas pelas melhores evidências científicas.

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“As maiores lutas se relacionam com a melhoria global da assistência ao parto e ao nascimento, seja no âmbito da assistência pública ou privada. O que desejamos é: doulas para todas”.