Dicionário resgata palavras caiçaras

Obra, em sua segunda edição, é o primeiro registro dessas expressões.

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15 JUL 2019Por Nayara Martins08h02
O livro, lançado em março do ano passado, já está na sua segunda edição. É o primeiro registro das expressões usadas pelos antigos caiçaras .Foto: NAYARA MARTINS/DIÁRIO DO LITORAL

Resgatar e registrar expressões e termos usados por antigos moradores itanhaenses. Este é o objetivo do livro Dicionário Tabacudo, da escritora e advogada Maria Tereza Leal Diz, 70 anos, mais conhecida como Teté.

O livro, lançado em março do ano passado, já está na sua segunda edição. É o primeiro registro das expressões usadas pelos antigos caiçaras e naturais de Itanhaém.

Teté explica que o termo tabacudo surgiu porque os moradores de cidades maiores, como Santos ou São Vicente, costumavam chamar os moradores de Itanhaém como pessoas sem cultura, verdadeiros índios, entre meados do século 19 e metade do século 20. "Por isso surgiu esse linguajar tabacudo, e que significa expressões usadas por habitantes de lugar distante, de lugarejo", completou.

"Nós, os caiçaras da cidade, ficávamos longe de tudo e o acesso a outros centros era feito pela praia a pé ou em carroças". Em 1914 chegou a estrada de ferro e, em 1960, a estrada de rodagem que ligava Itanhaém a Santos.

Apesar de ter iniciado a pesquisa na sua juventude, Teté conta que, inicialmente, não tinha a intenção de escrever um livro. "Minha família, por parte de minha mãe, é muito antiga de Itanhaém. Ela usava alguns termos e expressões que não eram usados pelos colegas de escola. Aquilo despertou minha curiosidade e passei a anotar os termos que ela falava".

A partir daí, a autora começou a pesquisar com mais profundidade e a entrevistar pessoas de famílias mais antigas da cidade. "Foi imprescindível a colaboração dessas pessoas para escrever o livro. Até mesmo na rua, ao ouvir alguma expressão diferente, já anotava em algum papel para não esquecer", destacou.

Ela cita a amiga Ana Maria Ramiro dos Santos, já falecida, e o professor e historiador João Tadeu Bastos da Silva, que a ajudaram bastante na pesquisa. Sua intenção inicial era registrar essas expressões para não se perderem com o tempo.

Após 35 anos de pesquisa, Teté resolveu publicar o livro. Segundo ela, o trabalho não foi ininterrupto, pois levou alguns anos sem trabalhar com o material.

LINGUAJAR

O linguajar Tabacudo tem suas características próprias. Uma das principais é a forma de falar cantado das pessoas. Um exemplo é o morador da cidade de Iguape que ainda fala cantado. Itanhaém, em tempos antigos, os moradores também falavam desta forma, assim como nos municípios de Itariri, Peruíbe e Mongaguá.

Na opinião de Teté, o que mais representa o linguajar é o termo "Lhai", usado como uma interjeição. "É como o mineiro que usa o Uai, ou o gaúcho que usa o Bah, para nós é uma expressão de surpresa, de troça ou até mesmo para cumprimentar alguém".

Outra característica é o acréscimo do sufixo ada, na última palavra, como exemplo, "Minha avó tem uma filharaaada...", também com o tom melódico.

A autora lembra ainda os apelidos usados, que, muitas vezes, substituíam o nome oficial do morador. E o uso de demonstrativos com a palavra pequeno, usado não no sentido de ser pequeno, mas no sentido de se referir aquela pessoa. "Nossa como está grande este pequeno".

No livro estão alguns termos e expressões essencialmente itanhaenses. Um exemplo é o termo "quenquerquié", o que quer dizer pessoa desconhecida. Uma pessoa olha para a outra e pergunta "Quenquerquié?". Outro é "caxivuvu", ou seja, um homem estranho.

Mais uma expressão característica é "pegar um tatu", o que significa levar um tombo. A expressão, citada no livro, é uma homenagem feita à tia da autora, conhecida como Nena, já falecida. Foi tema de uma crônica publicada em 2000, na obra "Flores da Pedra", coletânea de escritores da Academia Itanhaense de Letras.

O Dicionário Tabacudo é o primeiro registro de termos e expressões usados por antigos itanhaenses publicado no município. No Vale do Ribeira, em Cananéia, já existe o dicionário "O Caiçarês", de Romeu Mário Rodrigues. E em Iguape, o "Falares Caiçaras", de Paulo Fortes Filho.

A autora já fez algumas palestras sobre o livro, na Biblioteca Municipal, e deu entrevista a um professor da rede municipal de Praia Grande. Alunos da rede municipal de ensino também já utilizaram o conteúdo em peças de teatro. E recebeu menção honrosa da Câmara de Itanhaém, de autoria do vereador e advogado Carlos Ribeiro, em maio.

Apaixonada pela cultura caiçara, Teté já está trabalhando em seu novo livro. O tema, desta vez, será o modo de vida das famílias antigas do município. "Só espero não demorar mais 35 anos para lançar o título", brincou.

Natural da cidade, Teté hoje está aposentada. Formada em Letras e em Direito, ela é pós-graduada no curso "Baixada Santista: seu espaço, sua história e sua cultura", na Unisantos. Também foi uma das fundadoras da Academia Itanhaense de Letras.

Em ordem alfabética, o Dicionário Tabacudo possui 175 páginas. O livro será lançado em Santos, ainda este ano. Interessados podem adquirir um exemplar em pontos comerciais de Itanhaém, ao valor de R$ 35,00. Pode ser consultado ainda na Biblioteca Municipal.

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