Cotidiano
Em feridos prolongados a quantidade de detritos recolhidos chega a crescer mais de 10% e, com a aproximação do carnaval, antigas questões ressurgem agora em 2026
Apesar de ter sido preparado para aguentar mais alguns anos, o aterro opera sob pressões técnicas / Imagem criada por IA/Gemini
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O gesto de recolher o próprio lixo ao sair da praia é o último passo do banhista, mas o primeiro de uma complexa e cara operação logística que define a saúde ambiental da costa paulista. No litoral de São Paulo, o caminho que um resíduo percorre após ser deixado na areia ou descartado em uma lixeira de orla revela um sistema que opera no limite da capacidade, especialmente durante a temporada, quando a produção de detritos chega a saltar 12% em cidades como Santos e Guarujá.
A grande maioria dos resíduos coletados na Baixada Santista converge para um único ponto estratégico na Área Continental de Santos: o Aterro Sanitário Sítio das Neves. No entanto, o cenário em 2026 é de alerta, uma vez que o local vem operando sob intensa pressão técnica. Dados atualizados indicam que, embora novas células de descarte tenham sido planejadas para estender a vida útil da estrutura até o início da próxima década, qualquer imprevisto operacional exige que o lixo "suba a serra" em direção a aterros no interior do estado. Esse deslocamento não apenas encarece a limpeza urbana paga pelos contribuintes, mas também aumenta a pegada de carbono da gestão de resíduos regional.
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Nem todo material descartado incorretamente encontra o caminho do aterro sanitário. Uma parcela significativa acaba nos canais e estuários, sendo levada pelas marés para o mar aberto. Para combater esse fluxo, o programa Mar sem Lixo tornou-se uma ferramenta vital de utilidade pública. Em um balanço recente de 2025, o projeto registrou a retirada de 29 toneladas de resíduos das águas paulistas, um volume recorde impulsionado pelo Pagamento por Serviços Ambientais. Atualmente, pescadores artesanais de cidades como o Guarujá são peças-chave nessa engrenagem, transformando seus barcos em agentes de despoluição para retirar do mar o que o sistema de coleta em terra não conseguiu segurar.
A ciência oceanográfica explica por que o lixo deixado em uma praia pode aparecer em uma ilha preservada a quilômetros de distância. No litoral paulista, os ventos dos quadrantes Leste e Sul funcionam como motores que empurram detritos flutuantes de volta à costa ou para áreas de conservação, como o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos. O grande vilão dessa jornada é o plástico, que compõe mais de 90% dos resíduos encontrados. O problema se agrava com a fragmentação desses materiais em microplásticos, que já são detectados em espécies marinhas de águas profundas, evidenciando que o descarte feito na areia retorna diretamente para a cadeia alimentar local.
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A conscientização do morador e do turista é a única via para evitar o colapso desse sistema. Além do descarte imediato, o cumprimento dos horários de coleta domiciliar evita que sacos de lixo sejam rompidos por animais ou levados por chuvas fortes para as galerias pluviais. Outro ponto crítico de utilidade pública é a atenção aos fenômenos naturais trazidos pelas mesmas correntes que carregam o lixo, como a chegada de caravelas-portuguesas. Nesses casos, a orientação oficial é o uso exclusivo de vinagre para neutralizar toxinas, reforçando que o cuidado com a praia vai além da limpeza, englobando a segurança de quem desfruta da orla.
*Com informações da Fundação Florestal (Programa Mar sem Lixo), dados de balneabilidade da CETESB e os relatórios de capacidade do Aterro Sítio das Neves de 2024/2025.