Desde os nove anos no cemitério, empreiteiro do luto cuida de mais de 80 gatos

Paquetá abriga restos mortais de escritores como Martins Fontes e Vicente de Carvalho, e do pintor Benedito Calixto

Do interior do cemitério mais antigo em atividade de Santos é possível ver a movimentação dos guindastes do Porto. A arquitetura e disposição dos jazigos remetem ao século IXX. No Paquetá, que fica no bairro de mesmo nome, estão abrigados os restos mortais de escritores como Martins Fontes e Vicente de Carvalho, do pintor Benedito Calixto e de personalidades políticas. Orieta Lara, 75 anos, conhece cada detalhe daquele espaço. Há quase 60 anos trabalha limpando túmulos no local. Um deles é o do ex-governador Mário Covas, que faleceu em março de 2001.

Continua após a publicidade

“É uma herança dos meus pais. Comecei a trabalhar com eles com 18/19 anos. Criei os filhos com o dinheiro do cemitério. Tudo o que eu tenho é dinheiro de cemitério. Não tenho medo da morte. Se tiver que ir hoje eu vou em paz. Já fiz tudo”, disse Orieta, que trabalha no local junto com as filhas. Ela é responsável pela limpeza do jazigo da Irmandade de São Benedito. No Paquetá, que iniciou suas atividades em 1.854 no auge de uma epidemia de cólera, 10 irmandades (associações religiosas) possuem espaços no local. O cemitério é considerado patrimônio histórico, arquitetônico e cultural de Santos.

Orieta disse que perdeu o esposo após 15 anos de casada e teve que assumir todas as despesas de casa. Chegou a trabalhar no Paquetá à luz de velas com seus pais. Disse que o dia mais marcante no cemitério foi o do sepultamento do ex-governador Mário Covas.

Continua após a publicidade

“Tinha muita gente. Ninguém entrava e ninguém saia. Fui a única dos zeladores que conseguiu entrar”, destacou. Outro enterro com grande repercussão foi o da nadadora santista Renata Câmara Agondi, que faleceu em agosto de 1988. Os restos mortais do radialista e apresentador de TV, Edson Cabariti, o Bolinha, famoso na década de 1980 também está depositado no cemitério. Ele faleceu em julho de 1998.

Bertioga

Continua após a publicidade

Antonio Ulinger Santana, 55 anos, atua como coveiro no Paquetá. Era servidor público em Bertioga, quando o município ainda pertencia a Santos. Após a emancipação foi transferido para o cemitério onde está há 24 anos. Disse que não tem medo dos mortos, mas já viu fenômenos.

“A gente acostuma. Sabe que se não fizermos alguém vai ter que fazer. Já sofri preconceito. O povo se assombra. Tem até medo de nós”, disse Santana. Assim como Orieta ele classifica o sepultamento do ex-governador Mário Covas um dos mais marcantes do local. “Participei do enterro dele. A minha tarefa foi de cuidar da manutenção e da cobertura dos portões”.  

Continua após a publicidade

Enquanto a Reportagem conversava com o coveiro, outro funcionário do cemitério passou. Santana fez questão de contar um causo. “Esse cara virou um fantasma na minha frente. Estava fazendo um serviço lá nos fundos e ele passou. Quando levantei a vista e fui procurar, ele já estava lá na frente. Não tinha passado por lá. Mas alguém passou. Na verdade não foi uma pessoa física. Não tenho medo de morto. Queria até que ele parasse lá para conversar comigo”, disse.  

Fátima encara a morte com bom humor

Continua após a publicidade

O silêncio do Cemitério do Paquetá é um convite à Fátima Nascimento, 56 anos, que há 20 trabalha com a zeladoria de jazigos no local. Encara a morte com bom humor e faz questão de mostrar à Reportagem a sepultura que ‘transformou’ com a força de seus braços e os produtos de limpeza. Segundo ela, se trabalhasse em outro lugar não teria a paz que tem lá.

“Vim para a cá a pedido de uma patroa que eu fazia faxina e pediu para limpar a campa de um parente. Fiquei limpando e foram surgindo outros clientes. Ela morreu e eu continuei aqui. É o melhor lugar para trabalhar. Aqui tenho a paz que não encontro lá fora”, disse Fátima, que mora em frente ao Paquetá. Nesta área há muitos cortiços.

Continua após a publicidade

A filha de Fátima está desempregada. O dinheiro que ganha com a limpeza ajuda na criação da neta. “Agradeço a Deus esse trabalho. O dia que não venho para cá me dá um nervoso. Já estou acostumada. Aqui me sinto feliz”, disse a sergipana, que chegou a Santos aos 10 anos de idade e não mais voltou a sua terra natal.

Empreiteiro do luto e cuidador de gatos

Continua após a publicidade

Eles ficam na entrada do Paquetá. São mais de 80. Estão espalhados pelos corredores. Castrados e tratados, os gatos são atração à parte do cemitério. Antonio Carlos de Castro, o Toninho da Floricultura, 57 anos, cuida dos felinos. Todos os dias, de manhã e à tarde dá ração aos bichanos.

“Tinha duas senhoras que davam ração para os gatos. Aí elas morreram e comecei a ajudar. Todo mundo ajuda. Na floricultura tem até uma caixinha para fazer doação. Eles comem ração duas vezes por dia. São mais de 80 gatos. Conheço cada um deles”, disse Toninho. Segundo a Administração do cemitério, os gatos são assistidos por veterinários e tratados por voluntários.

Continua após a publicidade

Desde os nove anos Toninho trabalha com o luto. Foi da floricultura à preparação de caixões e à reforma de sepulturas.

“Trabalhei na Beneficência e na Santa Casa. Eu enfeitava caixão. Trocava a roupa do morto, fazia barba. É um trabalho normal. Agora trabalho com reforma e tenho um escritório. Estou há 47 anos no Paquetá”, afirmou.